Ética e estética na arte contemporânea

Por que a arte contemporânea se estrutura cada vez mais em outra, na de bem dizer-se, ou seja, na da retórica? Soasse menos paradoxal, diria auto-retórica. A arte dos nossos dias insiste em permanecer aquém das ideias que lhes servem de suporte; e aqui me recuso a aceitar a intransponibilidade atribuída entre real e ideal, porquanto essa distância é tão somente mais uma criação humana, assim como o próprio ideal. No sentido de relativizar a pressuposta intangibilidade do ideal, basta pensar na “Pietà” de Michelângelo, que em ideia – Maria com Cristo ao colo – é infinitamente menos efetiva que o real, isto é, a sublime escultura do mestre renascentista.

Entretanto, o que leva a arte, hoje, ao descompasso privilegiado da ideia em relação à coisa real? A pergunta feita à lésbica gorda, “você é gorda por que é lésbica ou é lésbica por que é gorda”, feita no seriado inglês “Absolutely Fabulous”, pode ser parafraseada à arte contemporânea: é demasiado ideal por que incapaz do real ou incapaz do real por que ideal em demasia? Para a filósofa espanhola Amélia Valcárcel, “A arte, na época contemporânea, não é senão lazer, ócio arbitrário, incrustrado na sociedade do trabalho”. Portanto, a partir da afirmação da espanhola, sobrevém a possibilidade da arte estar realizando-se preferencialmente no plano ideal devido à real sistematização a que os artistas, bem como os seus consumidores, são social e economicamente impelidos.

“Nosso mundo produz objetos sem cessar, mas tudo acontece como se não acontecesse”; todavia, “as coisas são nada até que as padeçamos”, afirma Valcárcel. Por conseguinte, o inverno da fisicalidade real das obras de arte contemporâneas, diante da primavera retórica de suas idealidades, aponta em duas direções, a saber, na da dessubstancialização sistemática dos objetos de arte produzidos em escala quase industrial, e no que subsiste incólume a partir dessa dessubstancialização mesma, isto é, a promessa-engodo das ideias anorexas de matéria. Contudo, “Enquanto não transformamos as ideias em ideias estéticas elas não terão interesse para o povo”, afirma Hegel; visto que, conforme Schiller, “Uma das tarefas mais importantes da cultura é submeter o homem à forma”.

A obra-prima da arte atual, ou seja, a primazia das ideias em detrimento das suas formas tornadas físicas, abre aqui outra questão promissora: seria a ideia, em si mesma, a retórica por excelência? Possivelmente sim, pois se somente o real pode desdizer o ideal, a ideia, afastada de sua realidade física, depõe mais confortavelmente em seu próprio favor; da mesma maneira que a retórica se sustenta muito menos nos fatos reais a que se refere do que nos seus estratagemas de auto-sustentação. É encurtada aqui a distância indagada entre a arte contemporânea e aquela a qual ela tende, ou seja, a retórica. Entretanto, para Valcárcel, “a arte deve retirar as máscaras da realidade, desvelar o caráter mecânico que superpomos à vida”, ou seja, tender ao real que, conforme Lacan, é o que nos escapa, e não contra a fisicidade da vida.

Para a filósofa espanhola, “Cada indivíduo não conhece o seu caráter antes de realizar um ato. Seu ato é que diz quem é e o que é”; portanto uma obra, enquanto indivíduo do mundo da arte, só dirá “quem é e o que é”, bem como a que veio, quando finalmente desgarrada do mundo ideal em cujo seio foi amamentada. No colo de mamãe nunca se é homem de verdade, apenas a ideia do homem que teria sido caso ele tivesse deixado o primitivo&confortável ninho. Schelling insiste que “o último ato de totalização é estético”; e de acordo com o significado grego, “aisthêtiké” é aquilo que pode ser compreendido por algum dos nossos cinco sentidos – não pelo intelecto. “O ser humano não é ‘intelligere’, é ‘homo faber”, diz Valcárcel; e segundo ela “o ‘élan’ vital, o encontro vivo com a matéria, não está determinado”, devendo, portanto, ser atualizado – feito ato -; a obra deve existir tão ou mais belamente que a ideia que lhe deu origem; a vitória da Pietà!

Qual é o compromisso ético da arte contemporânea com a sua própria estética? De que forma seu “ethos”, ou seja, o caráter dessa arte se relaciona com o modo dela se apresentar aos nossos sentidos? De acordo com Valcárcel, “ética e estética são duas possibilidades que se apresentam diante do sujeito; ambas são pontos de partida”. Logo, poderia ser a esterilidade estética das obras contemporâneas o fruto-sintoma de um privilégio dado à senda ética? Mas se fossem eticamente privilegiadas essas obras careceriam tanto de sentido diante dos nossos cinco? Provavelmente não, visto que “a ética é superior à estética”, afirma Valcárcel, “pois fará algo muito maior – produzirá sentido”.  Portanto, a falta de sentido da arte contemporânea denota um dilema ético mal resolvido e resultando em sentidos que não atingem satisfatoriamente a nenhum dos nossos – parcos– cinco; ou seja, não se realizando esteticamente; e “uma estética sem gozo é bastante inverossímil”, diz a espanhola.

“No ato bem feito acontece a união entre ética e estética”, resume Valcárcel; sendo assim, a obra de arte bem feita tampouco pode deixar de harmonizar estas duas instâncias, pois, de acordo com a filósofa, “a ética e a estética coincidem no nosso conceito de sublime”, como as “pietàs” clássicas não se cansam de exibir. Portanto, é um descompasso entre as esferas ética e estética na caminhada da arte contemporânea que retoricamente eleva o ideal ao preço da alienação em relação ao real, ou seja, do desencontro físico e efetivo dos sentidos com as obras de arte que se lhe apresentam. Para Espinoza, “o comportamento do todo é a ética, e a estética, qualquer relação com ele”; consequentemente, o relacionamento estéril com uma obra de arte é o fracasso tanto da sua imediata comunicação estética quanto da sua subjacente e estruturante postura ética.

Entretanto, o rápido caminhar da cada vez mais auto-obsolescente arte contemporânea entrega o desequilíbrio desconfortável entre ideia e obra – entre ética e estética – em que ela se encontra. Apesar de anacronizado, o moderno conceito de “vanguarda” segue, felizmente, inquietando a arte sempre que ela desacorda consigo mesma. Por conseguinte, “a cada nova ‘estética’ há sempre alguém que lhe queira dar contornos éticos: isso é comum a todas as vanguardas”, conclui Valcárcel. Daí a arte-retórica contemporânea! A necessidade do próximo só faz afirmar a insuficiência do presente. A “Pietà”, não obstante, resiste universalmente, sublime&insubstituível, maior que qualquer retórica acerca dela, satisfatória tanto aos sentidos dos medievais tardios quando aos de qualquer pós-contemporâneo “connoisseur” de arte.

 

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