O homo não sapiens de nada, inocente!

Deveríamos abrir mão da predicação própria que nos define como humanos, isto é, a de sermos racionais. Ou ao menos admitirmos que enquanto irracionais estaríamos mais conectados e envolvidos com as reais necessidades do animal que nunca deixamos de ser. Foi divulgada a notícia de que, hoje, no nosso mundo, há mais pessoas com acesso a celulares do que a banheiros. E a partir dessa realidade podemos intuir que a nossa razão muito se esforça para, no final das contas, produzir mais daquilo de que não precisamos realmente.

Somos uma espécie que insiste em não atender ao que é fundamental a si própria, mas que, no entanto, acredita irracionalmente que está, desde sempre, trilhando o caminho da evolução. Não seria o caso de finalmente assumirmos o fato de que trilhamos sim uma senda só nossa que, entretanto, a passos largos nos leva na direção da decadência? Basta olhar para a natureza sendo absolutamente degradada e para as megafavelas que cada vez mais revestem o planeta, não obstante, Natureza e favelas, pontuadas por antenas de celular e roteadores wi-fi.

Os bichos não inventaram “gadgets” para se comunicarem, porém, não criaram a falta de banheiros para si. Os demais animais, de certa forma, sempre souberam que já são, eles mesmos, aparelhos ecológicos&naturais apropriados à comunicação com o mundo ao seu redor; bem como que o mundo todo é o local das suas necessidades fisiológicas. Já o ser-humano atrela historicamente a sua intercomunicação natural a tecnologias artificiais sintomaticamente obsolescentes e a sua fisiologia a uma espécie de design sanitarista.

Investimos tecnologicamente na alteração do mundo acreditando que com isso o adaptamos melhor às nossas necessidades. Todavia esquecemos que “Há um inimigo maior ao homem do que a mudança, e esse inimigo é ele mesmo”, afirmou Platão. Que evolução é essa que leva duas mil pessoas a compartilharem um vaso sanitário nas favelas de Jacarta, por exemplo, entretanto, com cada uma delas proprietária de um telefone celular só seu? Que animal irracional é esse que prioriza o menos importante à sua própria existência? Sem pestanejar, um animal digno de extinção!

A falta de banheiros e o excesso de aparelhos de telefone garante perpetuação, por conseguinte, a uma fatia bem pequena da espécie humana. Quanto mais pessoas pobres morrerem devido às suas insalubres condições sanitárias, desde que gastando o dinheiro que mal têm nas sofisticadas mercadorias digitais, tanto melhor à minoria que lucra com estes produtos e que, com a miséria daqueles, garante as suas “Jacuzzis” particulares e as suas muitas toalhas brancas. De um lado, dois ou três banheiros por pessoa, e de outro, milhões delas sem nenhum. Entretanto, todas interconectadas fofocando sobre o abismo que as separa.

Se tudo o que foi feito pelo homem nos milênios de história registrada o trouxe à paradoxal realidade onde todos podem se falar a qualquer momento e de qualquer lugar, porém, com a maioria não podendo defecar ou tomar banho quando precisa, estivemos andando barbaramente para trás, sem dúvida. Subjaz a triste possibilidade de que os nossos outros problemas fundamentais, a saber, os sociais, e ecológicos, recebam o mesmo absurdo e inócuo tratamento: “touch screen” para quem tem fome e “Google Earth” para todos assistirem o planeta rapidamente se transformando em um esgoto a céu aberto. O homo não sapiens de nada, inocente!

 

 

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