A elite sabe ser povo?

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Pelo quinto dia seguido vejo da minha janela, doze andares acima da avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio de Janeiro, passeatas com centenas de cidadãos usando verde, amarelo, panelas e indignação, gritando histericamente “impeachment já” à presidente Dilma Rousseff, “fora PT”, “intervenção militar já”, e, o que para mim é mais grave, mais ainda que a intervenção militar, “Bolsonaro para presidente!” Abstraindo a discordância que tenho em relação a tais demandas, uma coisa eu não consigo deixar de achar lindo: o povo unido em função de uma causa comum. Minha aprovação, entretanto, para por aí, pois um olhar um pouco mais demorado mostra que não se trata exatamente de povo, mas de elite.

O que mais anda me intrigando nessa gente manifestante majoritariamente branca e abastada que finge ser povo debaixo da minha janela é se eles terão capacidade para aceitar não terem as suas demandas atendidas, como tantos professores, garis, caminhoneiros, servidores públicos, etc., que há muito mais tempo saem às ruas, igualmente unidos e com clamores bem mais dignos, mas que, no mais das vezes, voltam para casa de mãos vazias e pernas e línguas exaustas. A minha dúvida, na verdade, é se a elite sabe ser povo até o fim, ou, antes, só finge sê-lo, porém, secretamente, permanece a pequena leviatã mimada de sempre.

Todavia, pela alienação que vejo neles, como por exemplo: pedir democraticamente por uma intervenção militar que automaticamente cessaria a liberdade deles para pedirem qualquer coisa; bater panela feito idiotas em vez de ouvir o discurso do “inimigo”; chamar qualquer pessoa de roupa vermelha que cruze o caminho deles de puta ou vagabundo; tirar fotos com moradores de rua para mentirem nas redes sociais que nunca houve divisão na sociedade brasileira; por tudo isso é bem capaz que eles estejam pensando que basta sair às ruas, fazer alguma cena de efeito ou um ruído mais alto que o do trânsito para se conseguir o que se quer.

Será que a elite sabe que participar política e ativamente da construção de um país não é como entrar em um shopping center com um cartão de crédito no bolso e sair de lá com as mercadorias que se deseja? Sabe ela que não pode mandar em um presidente da república da mesma forma como mandam em suas empregadas (eletro)domésticas? Ou, como se vê nas praças mais gentrificadas onde a elite se agrupa e manifesta seus anseios antidemocráticos, sabe somente estourar algumas Moët & Chandon entre um vômito retórico e um tilintar de Le Creuset?

E quando dizem: “Fora PT! Queremos a nossa democracia de volta”, porventura acham que a democracia um dia pertenceu só a eles, e que os mais de 50 milhões de brasileiros que votaram em Dilma mais ela os tiranizam deliberadamente? Consegue a elite compreender que só há democracia de verdade enquanto aqueles que elegeram um representante tiverem o direito serem governados por ele, e que a própria elite, por sua vez, tem o dever de respeitar essa decisão majoritária, gostando ou não dela? Ou será que é preciso fazer um “power point” explicando o que é democracia para que a elite entenda o que é o governo da maioria?

Agora, falando sério, quando a elite pede a “democracia de volta”, outra coisa não está querendo que o regime político que constitui a sua essência, isto é, a velha e intransponível oligarquia, ou seja, “o governo de poucos”. Este regime exclusivista sim sempre foi deles. Ah, elite carente! Não obstante, o paradoxo de sua demanda pretensamente democrática logo se revela: quer a oligarquia de volta, todavia chamando-a de democracia, mas é justamente a democracia pela qual clama que tira o espaço de sua velha e exclusiva oligarquia. Só batendo panelas mesmo para que essa confusão faça algum sentido para eles.

E para piorar ainda mais a mixórdia de suas ideias e de suas manifestações públicas, a elite, sem se dar conta de que é apenas uma oligarquia carente, age como uma aristocracia injustiçada, cujo algoz é a verdadeira democracia, que, para a própria elite, parece tirania. Asfixiados pelo governo da maioria, e querendo esquecer o fato de que é apenas a minoria vencida democraticamente, a elite tupiniquim mente para si mesma que é melhor do que os que a venceram, e que a aristocracia, ou seja, “o governo dos melhores”, é democracia.

Uma vez reclamando por “sua democracia” roubada -na verdade gritando desesperadamente por sua oligarquia perdida- a elite se sente tiranizada justamente pela verdadeira democracia que, essencialmente, não dá espaço nem à sua verdadeira oligarquia, nem à sua pretensa aristocracia. Então, “impeachmados” por suas próprias contradições, a elite pede por um tirano, por um ditador militar, que em sua pessoa simbolizará radicalmente a exclusividade da oligarquia e da aristocracia juntas. A cereja do bolo seria se pedissem que o tirano ditador fosse o próprio Bolsonaro.

Talvez pelo fato de a elite tupiniquim perceber que a vertical oligarquia de que sente tanta falta não mais terá espaço na horizontalidade democrática que, esta sim, acolhe melhor a maioria do povo brasileiro, é que esta minoria historicamente acostumada com privilégios esteja agindo de forma tão radical e, no extremo, pedindo por um tirano. É como se dissesse: se eu não posso ter a minha oligarquia travestida de democracia de volta, a maioria também não terá a sua verdadeira democracia; seremos todos carentes do que mais precisamos; todos súditos igualmente desapoderados. Só assim, sem que haja desigualdade alguma entre ela e o restante dos indivíduos, e sem que haja também democracia, é que a elite sabe ser povo.

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