Companheirismo intempestivo

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Não subestimemos a força e a virtude intempestivas do companheirismo entre militantes de esquerda. Principalmente entre um homem que escapou da fome nordestina justamente na exploração da indústria metalúrgica paulista e uma mulher que foi torturada por ter lutado contra a ditadura militar antes de se tornar economista, e que, além de tudo, têm em comum a presidência da República Federativa do Brasil.

Tal companheirismo é para poucos! Tão raro que fácil de ser imediatamente criticado. Ainda mais pela direita, para quem o companheirismo de esquerda sempre foi a maior ameaça. Por isso, nesse momento no qual o companheirismo político entre Lula e Dilma é oficial novamente, cabe pensar se a crítica que recebe não é só a velha estratégia da direita de enfraquecer a esquerda, ou o que sobrou dela na “brasilândia”.

Para milhões de brasileiros e para direita golpista, Lula ministro no atual governo Dilma não visa interesse algum do Brasil, mas apenas evitar que ele seja preso pela investigação da Lava Jato. Tal lógica não deve ser desconsiderada, afinal, é típico do ser humano –e não só dos petistas- fazer esse tipo de coisa. Já para outros milhões de brasileiros e para a presidenta Dilma, Lula se junta ao governo para ajudar o país nas dificuldades que enfrenta, que não são poucas aliás. A lógica dela também faz sentido, uma vez que Lula é um gigante na política, com uma obra concreta internacionalmente reconhecida. Quem em sua são consciência sócio igualitária não gostaria de ter um Lula trabalhando consigo em um momento crísico?

Porém, o senador ex-peessedebista e atual líder do PV, Alvaro Dias, fez questão de ser absolutamente monológico ao afirmar à Globo News que “com a nomeação de Lula como ministro a presidente Dilma renunciou”, concluindo peremptoriamente que “não há outra leitura possível”. Não obstante, um passo além do discurso estrategicamente alienante do senador vira-casaca, podemos ler o fato de outra forma. Do contrário, a realidade terá sido determinada por um oligarca investigado por R$ 37 milhões em propina da Petrobras. Portanto, sanidade e lisura mental é contrariar Dias e, sim, fazermos outras leituras da realidade.

Sobre a afirmação de que Lula aceitou o ministério somente para escapar das investigações da Lava Jato comandadas por Sérgio Moro, isso não quer dizer que o ex-presidente tenha se livrado de ser investigado, muito menos que tenha assumido algum crime. Seu novo cargo apenas transfere a investigação sobre ele para outra instância jurídica. Como declarou a presidente Dilma, incrédula com as especulações da oposição, achar que isso é ruim é dizer que um juiz de primeira instância é melhor e mais competente que a suprema instância legislativa do país, o STF, o que, obviamente, é um absurdo. “É uma inversão de hierarquia”, conclui a presidenta.

Ademais, uma boa leitura da realidade não pode deixar de considerar a possibilidade de que Moro esteja de fato sendo o braço com força legal da direita golpista e corrupta. Se isso porventura for verdade, o que não é impossível em se tratando de Brasil, uma vez que o simples folhear de um livro de história mostra que a direita sempre usou a justiça para cometer suas injustiças, Lula outra coisa não fez que encontrar um meio de escapar dessa resistente estrutura produtora de injustiça para ser julgado, pasmem, com justiça, e não por um juiz possivelmente comprado pela oposição.

Outra coisa sobre a qual devemos fazer mais leituras do que a única que Alvaro Dias nos impõe é a previsão de que Lula, na equipe de governo, não contribuirá para a resolução das crises política, pela qual o seu partido e a sua companheira Dilma passam, e econômica, pela qual passa o Brasil inteiro. Ora, é preciso uma dose elevadíssima ou de ignorância, ou de má vontade para desconsiderar que Lula é um gênio político, talvez o maior da nossa história, que em oito anos de governo demonstrou sobejamente que sabe enfrentar situações adversas e vencê-las sem deixar de fora, como se diz, o lado mais fraco da corda, o que é realmente revolucionário.

Ter diminuído a histórica desigualdade social do Brasil, “marolado” o tsunami mundial de 2008 e instituído o ENEM, a mais democrática e revolucionária forma de acesso ao ensino superior, são só alguns exemplos do que este metalúrgico e ex-presidente foi capaz de realizar pela nação. Portanto, declarar que Lula nada tem a ajudar na crísica conjuntura brasileira só pode ser discurso estrategicamente profético da oposição golpista que não suporta alguém mais competente do que ela. Melhor dizendo, alguém realmente competente. Já para quem é capaz de observar a realidade para além dos espetáculos da Rede Globo, como deixar de ler que Lula na equipe do governo pode sim ser uma grande oportunidade para se sanar alguns dos graves problemas tupiniquins?

Quem, como Dias, acha que a entrada de Lula no governo é o fim de Dilma realmente não sabe porque, na esquerda, as pessoas se chamam de companheiros. O próprio Dias não foi companheiro do seu ex-partido, o PSDB, ao fugir para o PV para tentar ser presidente ele mesmo. É obvio que a direita inteira queria que Dilma e Lula não fossem companheiros um do outro, que ela, de um lado, deixasse ele ser investigado injustamente pelo juiz curitibano que mais parece agir como pau-mandado do PSDB e da Globo, e, por outro, que Lula deixasse o governo de Dilma ser destruído pela oposição sem nada fazer. Mas não! Lula e Dilma mantém viva a força do companheirismo político mesmo nas situações mais adversas.

E ao contrário do que prega o pessimismo travestido de realismo produzido pelos políticos golpistas e divulgado maciçamente pela mídia não menos golpista que infelizmente já contaminou milhões de brasileiros, nesse companheirismo intempestivo de Lula e Dilma não está contido necessariamente o fim do governo Dilma, da justiça, da democracia nem a derrocada econômica do Brasil. Pode até ser que eles não consigam resolver as atuais crises, que as agravem mais ainda até. Para saber disso, entretanto, temos de esperar para ver. Agora, sustentar, no presente, que eles não conseguirão, desculpe-me, é apenas fazer como a Mãe Diná, ou seja, pretender prever o futuro, coisa que, sabemos, ninguém pode.

Sobre a insistência de Dilma em não renunciar, podemos ler no Manifesto Comunista de Engels e Marx que para um revolucionário não existe essa de esperar pela tomada do poder ou de aguardar o momento oportuno para tal. O radicalismo dessa ideia se desfaz quando se entende que quanto antes o poder estiver nas mãos dos que querem governar para a maioria, tanto melhor. Mesmo que o revolucionário não tenha condições de realizar imediata e idealmente seu nobre objetivo, é melhor que a sociedade já seja governada por ele do que por aqueles que se preocupam somente consigo mesmos e com a manutenção de suas desiguais superioridades.

Por isso essa ideia que corre solta em boca de Matilde midiática e golpista, qual seja, que Dilma deve renunciar por causa das adversidades políticas e econômicas pelas quais país passa, nunca ecoará em uma militante de esquerda como a nossa atual presidenta. Dilma deixou isso bem claro aos jornalistas: “olhem bem para mim e vejam que eu não tenho cara de quem vai renunciar”. Muita gente que bate panela contra ela não dá bola, mas Dilma não se esquece de que se for deposta o Brasil volta todinho para os oligarcas do PMDB, abutres políticos dos quais foi muito difícil tomar um pouco do poder que seja. Apesar das adversidades, Dilma não esconde de ninguém que não tem dúvida de que seu governo ainda é o melhor para o Brasil, ainda que não seja ideal, pois mais distante da perfeição estariam governos de PMDBs e PSDBs da vida.

E no momento mais crítico, quando os partidos golpistas da oposição se utilizam não só da mídia, mas também da justiça e da economia brasileiras, mobilizando milhões de ignorantes úteis para que saiam às ruas vestidos de verde e amarelo e panelas para defenderem o golpe e a desigualdade social de que a direita sempre precisou para ser quem é, por que é absurdo Dilma buscar a ajuda de um velho e competentíssimo companheiro de luta? E Lula, quando percebe que a investigação de Moro sobre ele não tem nada a ver com justiça, mas com o plano golpista da direita, iria procurar companheirismo em quem senão na sua velha e burocrata companheira Dilma?

Por mais que seja dito que quase nada resta de esquerda no PT, quiçá no Brasil, o companheirismo intempestivo de Dilma e Lula tem ao menos a virtude de manter alguma coisa da esquerda viva. Não sem muita, mas muita crítica. Todavia, alguém da esquerda ser criticado, ainda mais pela direita, é algo tão normal quanto chover para baixo. Da minha perspectiva esquerdista, ainda acredito que o companheirismo de Lula e Dilma renderá bons frutos, e novamente, pois basta reler a história recente do Brasil para saber que estes dois formam um grande time. Claro, Alvaro Dias não recomenda tal leitura. Porém, ele é de direita, não é companheiro de ninguém além dele mesmo.

Aceito a crítica de que a minha visão sobre a virtude do companheirismo político entre Lula e Dilma é utópica. Com efeito, a coragem dos dois em não esconder tal companheirismo, mais ainda, em restaurá-lo publicamente na hora que para muitos seria a mais inapropriada, mantém acesa em mim a fé nas estratégias da esquerda, principalmente nesse momento no qual a vigorosa fogueira das vaidades da direita ofusca a sempiterna, porém frágil, chama revolucionária da esquerda. Se sou utópico por ainda pensar assim é porque utopia não é atopia nem distopia, pelo menos até que o tempo prove o contrário. Aos companheiros Lula e Dilma, no presente, boa ventura!

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