#Jesuismachiste

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No Dia Internacional da Mulher, a minha homenagem a elas é assumir que #Jesuismachiste. Assim mesmo, antecedido por uma hashtag, para parecer que não sou só eu quem está dizendo, e em francês, para deixar transparecer a minha vergonha em assumir o meu próprio machismo em bom português. Porém, sem salamaleques, a verdade é uma só: eu sou machista.

Ainda que dentre os cinquenta tons de cinza do machismo eu, aqui, pense que o meu não seja o mais saturado, ainda assim ele matiza negativamente, melhor dizendo, obscurece a horizontalidade que, ali, creio dever haver entre homens e mulheres. Mesmo que eu não seja um machista radical, não é fácil assumir esse ranço. Mais difícil ainda é impedi-lo de rançar intempestivamente.

Antes de assumir deslavadamente o meu machismo, muito o neguei. Não sei quantas vezes ouvi de mulheres mais próximas, que se sentiam a vontade comigo e, sobretudo, que queriam apontar o meu vício sexista, para quiçá permanecerem amigas e próximas, que eu era machista. Porém, de uma coisa tenho certeza: o mesmo número de vezes eu recusei essa determinação.

Sentia-me incompreendido pelas mulheres; achava que elas viam, como se diz, cabelo em ovo; que estavam exagerando. Todavia, todas essas minhas ideias outra coisa não eram que o meu machismo na sua melhor forma, resistente, projetando covardemente a minha incapacidade de assumi-lo na incapacidade das mulheres de perceberem que eu não era machista. Vã ginástica mental.

A única coisa de que não podem me acusar é ter nascido machista, pois esse é um mal que aprendi aos poucos, em casa, na rua, na escola; observando como se davam as relações entre os meus pais, avós, tios, vizinhos, professores. Ou seja, com o mundo.

Durante a minha infância, eu sequer podia imaginar que o jeito com que os “meus homens” tratavam as “minhas mulheres”, e também o jeito que elas aceitavam ser tratadas por eles, se chamava machismo. Para mim, era simplesmente a vida, o jeito como as coisas eram, e, pior de tudo, como deveriam ser. Não que eu deixasse de perceber que a vida das mulheres era mais miserável que a dos homens. Porém, ninguém me dizia que isso estava errado, muito pelo contrário.

Da minha avó paterna, Hercília, que apanhava do seu esposo e meu avô, Betão, eu ouvi muitas vezes: “Rafa, agradece a Deus que tu nasceu homem”. Já da irmã dela, Carmem, cujo marido, Milton, a destratava na frente de quem quer que fosse, eu ouvia: “não tem nada pior do que ser mulher”. E do meu pai, que nunca cozinhou um ovo nem lavou uma cueca sua, e isso porque minha mãe fazia tudo para ele, eu escutava que “a melhor coisa do mundo é ser homem”. Eis o meu lar-escola-mundo machista.

Como ninguém escolhe o sexo com que nasce, para a criança que eu era as mulheres eram vítimas acidentais da vida. O meu machismo germinal dizia apenas que elas eram dignas de pena, pois imaginar que o lugar da mulher pudesse ser outro era como querer que a vida fosse outra coisa que não a vida como ela era. Somente bem mais tarde fui conhecer essa coisa chamada construto social que ensina que a vida já foi outra, e que, portanto, sempre pode ser outra.

Antes disso, porém, comiseração era o sentimento mais solidário que eu tinha pelas “mulheres da minha vida” na aparentemente inalienável submissão delas em relação aos homens. No entanto, é importante reconhecer, tal sentimento já era machismo, ainda que disfarçado de espécie de altruísmo.

Mais tarde, na assunção da minha bissexualidade, na adolescência, o machismo latente que eu trazia da infância se disfarçou novamente. Pensava eu que, pelo fato de o meu lugar não ser o do macho padrão, o machismo não poderia ter lugar em mim, e que, automaticamente, eu era capaz tratar as mulheres com igualdade. Ledo engano! O meu machismo fez trincheira no centro da minha sexualidade excêntrica.

Há alguns meses, deparei-me solitariamente com o meu próprio machismo. E de uma autoacusação é impossível se escusar. Aconteceu que eu fiquei com uma garota que fumou vários baseados ao longo da noite em que estivemos juntos. Isso me desagradou. Até aí tudo bem, desagrado meu é problema só meu. O problema, porém, esteve no que eu silenciosamente pensei: “eu não gosto de mulheres que fumam muita maconha”.

Nunca me desagradaram os homens com quem eu fiquei que fumavam tanta ou mais maconha que a garota em questão. Entretanto, pelo fato de ser uma mulher, machistamente juntei algo de que eu não gosto com as mulheres somente. O meu machismo ficou inegavelmente desnudado nesse trato distinto.

Então, como que afetado de um arrependimento histérico, eu queria dizer para todas as mulheres que já haviam me acusado de machismo que elas estavam certas o tempo todo, como se fosse possível me redimir do meu ranço machista tão rápida e facilmente. Porém, assim como o alcoolista não se livra do seu vício apenas por assumir que é alcoolista, eu não deixei de ser machista somente por reconhecer esse meu vício.

Como eu não posso repercorrer a minha história para assumir in loco o meu machismo e assim sanar a desigualdade que eu até então ajudei a construir entre homens e mulheres, creio que assumir que sou machista sempre que assim me acusarem é o primeiro passo para criar um locus pessoal um tanto menos contaminado pelo machismo com o qual eu não me envergonhe tanto.

O segundo passo é jogar no lixo toda a dimensão homem-mulher que o mundo fez parecer normal desde a minha infância. Mais ainda, não permitir que esse lixo cultural feda novamente em mim, na minha cotidianidade direta com as mulheres, e mais importante, no meu silêncio permissivo diante de homens que agem machistamente e que não são acusados de machismo com a mesma naturalidade com que demonstram-no.

O terceiro passo, qual seja, realmente não ser machista, no entanto, é o mais difícil. Devo confessar que não sei como fazer isso sozinho. Não confio em mim mesmo para tal empresa. Tampouco creio que a maior parte do mundo tenha essa capacidade. Devo admitir também que temo ser recontaminado pelo machismo da mesma forma que sou reconquistado intempestivamente pelo meu sotaque gaúcho sempre que volto ao Sul.

Em quem confiar? Em primeiro lugar, nas mulheres, na pertinência de suas demandas igualitárias, nos seus apontamentos sobre onde e quando há machismo, pois eu mesmo não tenho tamanho discernimento. Em segundo lugar, nos poucos homens que não aceitam que seja mantida ou estabelecida alguma diferença entre homens e mulheres.

E, em terceiro lugar, devo investir no meu desejo de ser como estes poucos homens que conseguem não ser machistas nesse mundo ainda demasiadamente machista. Só assim eu posso contribuir, um pouco que seja, para que haja mais homens como estes no mundo: sendo um deles. Alistar-me no lado não-machista da força é mais do que me tornar um homem melhor: é ser verdadeiramente um homem, ou seja, apenas um homem; nada melhor, nada pior, nada mais, nada menos que uma mulher.

Embora eu não confie no mundo de até então para tamanho desafio, tenho muita fé no mundo que começa a partir daqui, não comigo, obviamente, visto que eu sou tão velho e machista como a história da humanidade, mas com a juventude atual que, diferente de todas as outras, consegue colocar a vilania machista no banco dos réus sempre que ela irrompe no mundo.

Diferente de mim, que na infância e adolescência não enxergava machismo nas relações entre homens e mulheres, e que por isso mesmo reproduzia estas relações machistas sem perceber, hoje em dia, desde cedo, as pessoas já estão sabendo que há machismo sim, como e quão indesejável ele é, e, sobretudo, como indicar que não mais seja.

Os velhos fundamentos devem ceder. Primeiramente, aquele que diz que os mais jovens devem escutar os mais velhos, pois, em relação à superação do machismo, é o passado que têm de escutar, calado, atento e envergonhado, a vigorosa voz do presente que, como nenhuma outra, sabe argumentar virtuosamente contra a histórica desigualdade entre os sexos.

A juventude atual forja as melhores ferramentas para a desconstrução das diferenças construídas entre homens e mulheres. Sã demiurgia contemporânea cujo primeiro e mais eficaz instrumento é a naturalização da acusação: “você está sendo machista”, algo indizível no velho mundo. Conseguindo fazer com que qualquer diálogo não se cale, mas prossiga a partir de tal acusação, os  mais jovens lançam o papo reto que o mundo precisa ter consigo mesmo para não mais ser machista.

“Agua mole, em pedra dura, tanto bate até que fura”. De tanto ouvir dessa nova geração, com uma naturalidade nova e assaz comprometedora, que eu sou machista, não pude mais sustentar a mentira que fez história em mim, qual seja, que eu não sou machista. Entretanto, agradeço que eles tenham insistido virtuosamente o meu vício contra mim mesmo, afinal, como eles viram melhor que todos os que me viram antes, #jesuismachiste.

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