Prêt-à-Porter jornalístico

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Jornais, telenoticiários e feeds de notícias das redes sociais diariamente inundam-nos com uma infinidade de fatos noticiados. Ora, dirão os conectados, isso é bom para manter-nos informados sobre o que pode interferir diretamente nas nossas vidas. Além do que, em um mundo assaz globalizado e hiperconectado, o simples e inofensivo bater de asas de uma borboleta na Coréia do Norte deve causar sim um tsunami na intimidade de um lar carioca. Por isso todos os fatos findam igualmente importantes, sendo ofertados e consumidos 24 horas por dia, indiscriminadamente.

Sem fatos, entretanto, existiria apenas o caos harmonioso da Natureza em sua miríade infinita de movimentos perfeitamente relacionados. A Natureza, porém, produz somente a si mesma, e não fatos. Estes, são mercadorias exclusivamente humanas, demasiado humanas. Portanto, em um fato qualquer subjaz a ideia de que ele foi feito, e, sobretudo, com determinada finalidade.

Fato também significa roupa, vestimenta; o que diz muito bem da fantasia com que o homem veste a nudez dos acontecimentos da Natureza, para que ela, doravante, se ofereça a nós como uma diva de ópera burguesa, fácil de ser compreendida. Isso porque não sabemos o que fazer com as coisas enquanto não as fazemos nós mesmos. Então, produzimos não o real ele mesmo, mas versões mundanas suas: fatos. Uma vez feita tal “tradução”, tudo passa a pertencer ao mundo, podendo, portanto, ser pensável, tratável, manuseável, e inclusive comercializável. Os fatos estão para nós, humanos, assim como a Natureza está para si mesma.

É em função do mundo que os fatos devem ser massivamente produzidos e consumidos. E o jornalismo é essa linha de montagem apressada que cose costumes imediatos a todos os acontecimentos que se apresentam na cronologia do mundo. A ciência é mais cautelosa; a Filosofia, mais paciente. O jornalismo, por sua vez, laborando sobre o pântano do real, sem dar, como se diz, tempo ao tempo, cria latifúndios imediatos que se pretendem seguros e secos de dúvidas. Todavia, essa empresa é contrária à alforria do real em tantas unidades factuais quantos são os homens que percebem esse real. O jornalismo faz do real a sua coleção de fatos noticiados que outra coisa não fazem senão outorgar diariamente um real só seu.

Um recente exemplo disso é o que foi noticiado no dia 3 de março de 2016 a partir de uma suposta delação premiada dada por Delcídio do Amaral, senador brasileiro preso, libertado, mas ainda investigado pela Polícia Federal, na qual era citado o ex-presidente Lula como recebedor de privilégios indevidos. A Rede Globo, esquecendo-se intencionalmente de que tal delação sequer poderia ser verdadeira, renoticiou o “fato” como se verdade fosse. Uma jornalista da Globo chegou ao extremo de dizer, ao vivo, que mesmo que fosse desmentido que Delcídio tivesse feito a tal delação, o que eles, os jornalistas, estavam dizendo, já estava dito, e que era impossível voltar atrás.

Como assim? Porventura não é instituir algo como uma demiurgia da mentira noticiar como fato algo que sequer poderia ter ocorrido? Se tivessem provas de que Delcídio acusou Lula, o fato estaria dado, e só aí poderia ser noticiado. Mas não foi isso que ocorreu. A possibilidade de o senador criminoso ter feito uma delação era o “fato” concreto do jornalismo da emissora golpista. Agora, se houve um fato real no dia 3 de março, este fato foi a Rede Globo ter resolvido, mais uma vez, tornar suposições em fatos reais. Algo como vestir a realidade com trajes apropriados para determinado baile. No caso, o baile da direita golpista que quer fora do salão principal qualquer força contrária.

Só que é bom não esquecer, não só o jornalismo produz fatos, mas também cada ser humano, a partir daquilo que lhe acontece ao redor. Os fatos produzidos pelas pessoas, individualmente, ao passo em que se deparam com o real, têm as seguintes virtudes: valem todos a mesma coisa; podem se refutar mutuamente; e existem uns independente dos outros. Já os fatos jornalísticos têm o impetuoso vício de querer se imporem, vertical e imediatamente, às nossas factuações individuais; de antecedê-las; de torná-las inclusive desnecessárias. Mediante a histeria do jornal, o mundo não chega a nós senão histericamente.

Entretanto, o que seria do mundo se a produção dos fatos que o constituem aguardasse pacientemente até que cada um de nós se deparasse com aquilo que os gera, sem pressa, em vez de virem todos ao nosso encontro pela via de mão única do jornalismo? Teríamos, com sorte, sete bilhões de fatos sobre cada mesmo acontecimento, todavia desconectados, porém, não por muito tempo, pois mesmo que o real não passasse pelo jornal, de onde angaria as suas primeiras fantasias, ele não tardaria em se travestir ou de ciência ou de Filosofia, porque sem fato, costume, roupa, nós não o reconheceríamos.

Com efeito, a nudez do real nos envergonha e espanta. Então, vestímo-la adequadamente até que ela possa circular, de fato, pelo mundo. O jornalismo, contudo, intromete-se no baile à fantasia da humanidade trazendo consigo um Prêt-à-Porter com o qual veste o real. Porém, devido à sua pressa, nem sempre adequadamente. Enquanto os fatos através dos quais nos relacionamos com o real forem recortados dele por nós mesmos, e por mais ninguém, somos tão livres quanto a Natureza é consigo mesma. Entretanto, se pré-fabricados pelos jornalistas, são espécie de cabresto a nos alienar diariamente da nossa própria capacidade individual de fatiar o real em fatos e de compreendermos essas fatias por nós mesmos.

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