O homem de nove dedos e seus nove milagres

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No discurso que o ex-presidente Lula fez na sede nacional do Partido dos Trabalhadores em resposta à condução coercitiva da Polícia Federal de Sérgio Mouro em 4 de março de 2016, estavam lá os velhos –mas nem por isso mentirosos- ideais do torneiro mecânico que conseguiu tornar utopias inclusivas, distantes um horizonte, em realidade próxima e concreta para milhões de brasileiros historicamente vitimados pela exclusão social. Há quem concorde e, obviamente, quem discorde disso. Porém, uma das ideias de Lula é muito intrigante: a sua fé nos milagres e, mais ainda, que foram eles que o fizeram.

Isso ficou bem claro no seu último discurso. Primeiro, querendo justificar o fato de ter se tornado um conferencista mundialmente importante, o metalúrgico disse: “As pessoas queriam que o Lula falasse das coisas que foram feitas no Brasil. Que milagre vocês fizeram para aprovar as cotas? Que milagre vocês fizeram para aprovar o PROUNI? Que milagre vocês fizeram para aprovar o FIES? Que milagre vocês fizeram para levar energia à quinze milhões de pobres nesse país? Era isso que as pessoas queriam saber”. Só aqui, quatro milagres, que, no entanto, para o mundo que o convidou a palestrar devem ser apenas práticas absolutamente mundanas, ainda que de grandes efeitos.

Mais adiante na sua fala, o ex-presidente emenda uma outra sequências de fatos que ele classifica milagrosos: “antes dos cinco anos de vida eu escapei de morrer de fome. Esse foi o primeiro milagre da minha vida. O segundo milagre: eu tive um diploma de torneiro mecânico. Aconteceu um terceiro milagre comigo: eu ter tomado consciência política e ter criado um partido. Aconteceu um quarto milagre comigo: meus companheiros me levaram à presidência da república. Aconteceu um quinto milagre comigo: eu fui melhor do que todos eles que governaram esse país”. Na eleição desses outros cinco milagres fica ainda mais claro que a realidade para Lula não se explica por si mesma, mas se finaliza mediante intervenções milagrosas.

Ora, não morrer de fome na infância, tornar-se torneiro mecânico na juventude, criar um partido político na maturidade, ser presidente da república na idade do lobo, e até mesmo ser o melhor de todos na velhice, nada disso deve ser considerado milagre. Importante aqui é perceber que o que para Lula são milagres trata-se apenas de vida, de sua vida, que, como a de todos nós, não precisa da suspensão das leis da natureza ou da realidade para se dar. Muito pelo contrário aliás. É porque não há suspensão do real que ele quase morreu de fome; que foi torneiro mecânico e não engenheiro, que fundou um partido político e foi melhor presidente da república em vez de ter aberto um empresa de sucesso e ter sido um Eike Batista (nas sua melhor fase, obviamente)

Para a filosofia de Baruch Spinoza, um milagre, se fosse possível algo assim, seria a suspensão das leis da natureza por Deus em vista de algum fim que o próprio Deus não havia previsto quando institui as suas leis eternas. Milagres são impossíveis para Spinoza justamente porque com eles Deus afirma que não planejou bem a realidade. Em outras palavras, se em algum momento Deus precisou suspender alguma Lei sua para que um nordestino pobre não morresse de fome, pudesse se tornar metalúrgico, fundar um partido político e ser o melhor presidente de um país latino-americano, é porque, antes, ele devia ter instituído que os nordestinos pobres devem morrer de fome, não podem sem metalúrgicos, não devem fundar partidos políticos nem serem presidentes da república, muito menos o melhor de todos. Aqui fica claro que a ideia de milagre é absurda.

Então, por que Lula insiste tanto na existência e na interferência de milagres em sua vida uma vez que, de fato, quem criou e sustenta Leis que impedem os desfavorecidas como ele de se realizarem na vida não pode ter sido Deus, mas os próprios homens? Se Deus não errou, porque alteraria a sua “constituição”? E se o erro é somente humano, porque Ele teria de suspender as suas regras eternas? Para que um homem ou outro fosse dispensado do real? Deus porventura seria bom privilegiando milagrosamente apenas alguns de seus filhos enquanto outros sucumbem sem escapatória das vicissitudes da realidade?

Milagres, portanto, além de fazerem de Deus um ser injusto e de dizerem que Ele é um péssimo arquiteto, ainda fazem com que Ele pareça humano, demasiado humano, isto é, um ser incompetente que no meio do caminho descobre que falhou e que precisa corrigir seus erros. Só que, no caso dEle, milagrosamente. Antes, o que até poderíamos chamar de milagroso -mesmo que Spinoza diga que não se trata disso – é o fato de todos os seres compartilharem indiscriminadamente da obra divina que, para o filósofo, é a natureza, pois só isso mostraria que Deus não errou ao conceber a realidade nem que prefere umas criaturas suas a outras por via de milagres.

Todavia, não é o fato de Deus ter distribuído igualitariamente alguma coisa aos homens que Lula chama de milagre. Antes, o metalúrgico toma por milagroso o fato de ter escapado da desigualdade que ele mesmo vê na realidade. Apesar de, com isso, Lula dizer que Deus errou até a hora de ser milagroso com ele -e com pessoas como ele-, esse absurdo manifesto esconde uma percepção latente bastante verdadeira: a realidade humana é desigual por natureza. Só isso explica o fato de alguém não morrer de fome, tornar-se um profissional, ascender politicamente e realizar uma grande obra ser considerado milagre.

Entretanto, é precisamente nessa crença que Lula tem nos milagres que reside a sua mais pragmática percepção da realidade: ela é desigual sim; privilegia uns em detrimento de outros; e que só revolucionando-a radicalmente é que se realiza a utopia da igualdade. O crente diria que se trata de reconstruir a igualdade natural arruinada pelo homem. Porém, para o proletário nordestino que virou o maior presidente do Brasil, trata-se mais de produzir laboriosamente a igualdade que, para ele, nunca existiu no mundo, mas que deve existir.

Embora esteja sempre com a palavra milagre na boca, não pode ser dito que Lula é crente, pois não crê que Deus tenha feito o mundo perfeito, muito pelo contrário. Antes, o Deus de Lula deixou um mundo de coisas a serem feitas. Que Deus é esse? O que o metalúrgico chama de milagre, na verdade, é a superação humana dentro do mundo humano, sem intervenção divina alguma. Mais ainda, Lula acredita que a realidade precisa dele, de Lula, para se tornar um pouco mais perfeita, um pouco menos desigual.

Complexo de Deus? Um pouco, mas quem nunca? Sem dúvida, Lula é uma espécie de Deus para muitos brasileiros com os quais até então só era compartilhado desigualdade. Para estes, quando as coisas começam a ir bem, só pode ser milagre mesmo, tamanha a dificuldade que experimentam em suas vidas. Isso, entretanto, é mais velho do que Lula. Quem não lembra que no início dos anos 1970 a bonança econômica oriunda do petróleo foi chamada de Milagre Brasileiro?

Em um país tão desigual como o Brasil, um passo no sentido da igualdade social parece uma dádiva tão grande que poucos creem que isso possa se dar por intervenção humana apenas. Antes, é preciso de um Deus boníssimo e milagroso para que a dura realidade não siga ordinariamente desigual. Daí a construção de uma espécie de silogismo popular que, erroneamente, conclui que Lula é um Deus: Deus é brasileiro e só quer um mundo perfeito; Lula é brasileiro e só quer um mundo perfeito. Portanto, Lula é Deus.

O problema é se o próprio Lula acredita nessa ilógica. Os milagres com que o ex-presidente se diz constantemente agraciado não dizem exatamente isso, embora sugiram que ele está mais próximo de Deus do que todos os nordestinos que morreram de fome na infância, todos os homens que não conseguiram se profissionalizar, e todos os políticos brasileiros que não conseguiram ser o melhor presidente do Brasil. Agora, se houvesse mesmo um Deus extremamente bom e justo, ele confirmaria isso? Obviamente que não.

Portanto, o único jeito de Lula acreditar em Deus e não fazer dEle um ser incompetente e injusto, que vai resolvendo Suas incompetência e injustiça aos poucos por meio de milagres, é acreditar que ele mesmo, Lula, é Deus. Ainda mais tendo sido um garoto humilde do sertão nordestino que, por meio de muito trabalho, mas, segundo ele, por causa de nove milagres, findou como o maior presidente do seu país, compartilhando com milhões de brasileiros a superação das misérias da fome e da exclusão social. Talvez somente a falta de um dedo nas mãos, perdido nesse “processo milagroso”, lembre Lula de que ele não é Deus, pois, se fosse, teria feito um milagrezinho a mais para não tê-lo perdido.

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