Ecologia spinozana

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Diante da extinção de tantas espécies animais em decorrência do antropoceno, isto é, do impacto do homem sobre a natureza, o que pensar de um intelectual que, em um lugar, identifica Deus com a natureza ao dizer Deus sive natura (Deus, ou seja, a natureza), e, em outro, sustenta que “é evidente que a lei que proíbe matar os animais funda-se mais numa vã superstição e numa misericórdia feminil do que na sã razão”, como de fato fez Benedito Spinoza na sua célebre Ética? O grande pensador moderno, mais conhecido como o filósofo dos afetos, não estaria querendo dizer algo como: Homem sive natura?

 

Imediatamente é o que parece, pois pouco importa aqui Spinoza dizer: “não nego, entretanto, que os animais sintam”, se, ali, diz: “nego que não nos seja permitido, por causa disso, atender à nossa conveniência, utilizando-os (os animais) como desejarmos e tratando-os da maneira que nos seja mais útil, pois eles não concordam, em natureza, conosco, e seus afetos são diferentes, em natureza, dos afetos humanos”. Quer dizer que pelo fato de não sabermos como os animais sentem nem como são afetados podemos fazer o que quiser com eles? É isso mesmo Spinoza?

 

Entretanto, antes de acusarmos Spinoza de insensibilidade em relação aos animais, e de o chamarmos de antiecológico, é muito importante lembrar que ele foi talvez o filósofo mais mal compreendido de toda a história da filosofia. Foi o primeiro pensador não cristão a ser excomungado pela Igreja Católica e, enquanto judeu, excluidíssimo da comunidade judaica-portuguesa pelo que pensou.

 

Obviamente, o desagrado irremediável que Spinoza causou nas comunidades cristã e judaica se deu muito menos pelo que disse dos animais do que pelo que sua filosofia falou das duas grandes religiões. Não obstante, essa rejeição histórica por parte dos fundamentalismos das duas grandes religiões em relação a Spinoza outra coisa não deve indicar senão que sua filosofia propunha uma horizontalidade racional incompatível com a verticalidade da fé.

 

Portanto, para não sustentarmos fundamentalismos, e não repetirmos a falta de entendimento dos últimos quatro séculos em respeito à filosofia de Spinoza, atravessemos racionalmente o aparente paradoxo entre, de um lado, a afirmação de que Deus é a natureza, e , de outro, a ideia de que alguns dos seres criados por Ele, quais sejam, os animais, possam ser utilizados e tratados por nós, homens, da maneira como melhor nos convém.

 

Ora, se tudo o que Deus sive natura cria é igualmente divino sive natural, todas as criaturas são igualmente “a” natureza e todos devem ter lugar dentro dela. Porém, se, como escreveu Spinoza, o “homem tem mais direito sobre os animais do que estes sobre ele”, o homem parece ter uma posição hierárquica superior dentro da natureza, coisa que, entretanto, somente o próprio homem poderia dizer, mas nunca a própria natureza.

 

Antes, da perspectiva da própria natureza, não seria absurdo concluir que esta criatura sua autointitulada humana que a degrada interna e sistematicamente é a mais baixa e indesejável de todas. Todavia, se Deus sive natura concluísse isso, estaria assumindo automaticamente que errou ao criar o homem. Isso, porém, para o próprio Spinoza seria um absurdo maior ainda, pois Deus sive natura é essencialmente perfeito, nunca erra. Mantenhamos então a ideia de que o homem, por mais que destrua a natureza e mate os animais ao toque de suas necessidades, ainda assim é uma acerto da natureza, sem o qual aliás ela seria menos perfeita do que é.

 

Seria então a natureza sadomasoquista ao criar e manter dentro de si uma criatura que a destrói sistematicamente? Obviamente que não, pois, conforme o próprio Spinoza, não há na essência de nada, muito menos na da natureza, qualquer princípio de autodestruição, mas, pelo contrário, de afirmação, de existência, de vida. Antes, tudo o que há na natureza é a sua perfeição se expressando positiva e necessariamente de infinitas formas.

 

Agora, se, de um lado, o homem e a sua antiecologia sistemática não são erros da natureza, mas acertos dela, e o fato de matarmos outras criaturas como bem entendemos só faz ela, a natureza, ser exatamente o que é, sive perfeita, porém, de outro lado, o próprio homem tem a ideia de que se os animais não fossem mortos por nós a natureza seria ainda mais perfeita, ou o homem não entendeu o que é perfeição para a natureza, ou, antes, seu conceito de perfeição pretende ir mais longe do que o dela.

 

Com Spinoza, no entanto, não é possível afirmar que uma criatura possa ser mais perfeita do que o seu criador, sequer imaginar mais perfeição que a dele. Desse modo, a ideia de que nenhum animal deva ser morto para a satisfação das necessidades humanas é menos perfeita do que a perfeição da própria natureza que criou o homem que extermina animais para se satisfazer. Como, entretanto, de nosso ponto de vista ecológico, aceitar que os animais possam ser mortos por nós e que ainda por cima isso seja a naturalidade, a positividade e a perfeição da própria natureza?

 

Pois bem, para absolver Spinoza do crime da antiecologia, é preciso colocar que, para ele, o simples amor aos animais não faz a natureza ser melhor. Para o filósofo, é amando a natureza como um todo que qualquer perfeição, inclusive o amor aos animais de que estamos falando, surgirá verdadeiramente. Isso fica claro quando, no seu Breve Tratado, o filósofo coloca que “não vamos nos fortalecer em nossa natureza por amar as coisas perecíveis e nos unirmos com elas, pois elas mesmas são débeis”.

 

Ora, os animais são perecíveis. Amá-los por si sós, portanto, é uma fraqueza, uma debilidade. Com efeito, diz Spinoza, “quem se une a coisas perecíveis é realmente muito miserável”. O importante a ser compreendido na frase de Spinoza é que só não há miséria nem debilidade no amor e na união à natureza como um todo, pois só ela não é perecível. Então, amá-la, não por que ela criou esta ou aquela espécie animal, mas porque criou todas as coisas, é a virtude humana de que a natureza precisa para ser o que somente ela pode ser: perfeitíssima.

 

A aparente antiecologia spinozana se desfaz, aliás, torna-se o mais perfeito princípio ecológico quando finalmente compreendemos que o amor que sentimos por este ou aquele animal, por tal ou qual espécie viva, é um amor miserável, pois ama mais uma parte do que o todo que a criou. Para Spinoza, devemos primeiro amar a natureza inteira, muito antes de ela se expressar em animais – plantas, homens, etc.-, pois se a amarmos desse modo, tudo o que dela decorre será amado adequadamente, e, portanto, naturalmente preservado.

 

Spinoza, na verdade, é absolutamente ecológico ao tentar mostrar que enquanto amarmos somente partes da natureza, e não a natureza que as cria e relaciona perfeitamente todas as suas partes, tal amor não salvará nenhuma parte da natureza de ser destruída por nós. O único amor que salva a natureza, e, com a salvação dela, a de todas as suas criaturas, é o amor à própria natureza. Amando-a, não temos como não amarmos todas as suas criaturas igualmente, pois ecologia, em Spinoza, é amor ao todo, e nunca a uma parte ou outra.

 

A polêmica afirmação de Spinoza, qual seja: “nego que não nos seja permitido … atender à nossa conveniência, utilizando-os (os animais) como desejarmos e tratando-os da maneira que nos seja mais útil”, deixa de ser antiecológica a partir do momento que, amando a natureza como um todo, é impossível abusarmos de alguma parte sua ou outra. Agora, em troca, se amarmos mais a uma parte do que o todo de que ela é parte, por exemplo, se amarmos mais a nós mesmos que aos animais, ou a estes mais do que às plantas,aí sim não nos parecerá absurdo que umas partes destruam outras convenientemente. Porém,  nesse amor parcial jaz a imperfeição da natureza.

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