Trump. Politicamente incorreto ou despoticamente correto?

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Donald Trump é politicamente incorreto? Ou dizer isso dele seria um elogio que ele sequer merece? O filósofo Slavoj Žižek, no texto “Trump e o retorno do politicamente incorreto”, usa o patético bilionário candidato à candidato à presidência dos EUA para exemplificar a “tendência de aviltamento de nossa vida pública”. Realmente, ninguém melhor –ou pior- do que Trump para, publicamente, fazer com que os aviltamentos envolvidos no racismo, na xenofobia e no machismo, só para citar alguns, tomem novo fôlego e ameacem a sociedade americana e, por consequência, espreitem o resto do mundo. Para Žižek, no entanto, os “estouros vulgares” de Trump servem apenas para “mascarar a incontornável ordinariedade de seu programa”. Só que a vulgaridade explosiva de Trump não para por aí.

O problema do texto de Žižek é dizer que Trump é politicamente incorreto, pois isso pressupõe que o bilionário de fato age politicamente, para só então, a posteriori, sua atuação política poder ser considerada incorreta. Ao assumirmos peremptoriamente que Trump é politicamente incorreto podemos estar nos alienando de uma verdade muito mais profunda e radical, qual seja, que Trump não age politicamente, muito embora esteja agindo na ágora política. Para não sermos enganados pelos jargões de efeito, é melhor esclarecer a diferença entre agir politicamente e agir não-politicamente, ou o que é o mesmo, despoticamente.

Aqui é preciso lembrar, todavia com a ajuda de outro filósofo, Baruch Spinoza, que na natureza não há certo nem errado, bem nem mal, mas só coisas e ações que em si mesmas são somente verdadeiras porque reais, e que certo e errado, bom e ruim, são apenas atribuições posteriores, dadas de acordo com os valores de cada um. Essa lembrança spinozana deve servir para esclarecer-nos de que a ação não-política não é má nem errada por natureza, assim como o acerto ou o bem não estão necessariamente presentes na ação política.

É fundamental também lembrarmos que a política foi uma invenção grega do século VI a.C. alternativa às relações despóticas entre os homens. O homem político, isto é, o “polites”, era aquele que não mais resolvia os seus problemas valendo-se da força bruta. O “polites”, isto é, o político substitui o “despotes”, ou seja o déspota. Discurso no lugar de violência, ou, em outras palavras, civilidade no lugar de barbárie, eis o movimento que fez surgir a política na antiguidade mediterrânea. Infelizmente, aqueles virtuosos políticos gregos não deixaram de ser viciosamente despóticos na esfera doméstica, com seus escravos ou com os estrangeiros, coisa que, infelizmente, tampouco a nossa contemporaneidade conseguiu transformar em passado.

Para a pergunta que Žižek, no seu texto, coloca na boca dos politicamente incorretos, qual seja, “mas por que falar de educação, polidez e modos em público hoje, num momento em que estaríamos diante de problemas muito mais urgentes e ‘reais’?”, os gregos antigos já tinham a resposta certa que o filósofo contemporâneo faz parecer ser nova e sua, qual seja: “bem, porque os modos importam sim – em situações tensas, são uma questão de vida ou morte, uma linha tênue que separa a barbárie da civilização”. Agora, se a polidez e os bons modos são sempre necessários à civilização, é porque as suas ausências são sempiterna e resistentemente presentes: é porque não conseguimos deixar de ser bárbaros, despóticos e grosseiros que precisamos tanto exercitar civilidade, política e polidez. É uma questão de vida ou morte!, dizem-nos os políticos antigos e o filósofo contemporâneo.

A relembrança da gênese da política deve ajudar na recolocação da pergunta: Trump age politicamente –para então poder fazê-lo de modo incorreto? Agora podemos responder com mais propriedade se ele age politicamente, ou, em troca, apenas age despoticamente. Entretanto, no caso de ser genuinamente despótico, faz sentido perguntar se tal despotismo é correta ou incorreto? Ou, antes, quando um déspota age incorretamente, isto é, da perspectiva do despotismo não é absolutamente despótico, e a sua natureza bruta deixa de se impor sobre os demais, não estaria ele automaticamente sendo político? Os gregos pré-políticos não teriam sido déspotas incompetentes pelo fato de terem começado a resolver as suas diferenças mediante o verbo e não mais por meio da violência? Se sim, bendita incompetência!

Trump, mediante os seus racismo, xenofobia e machismo outra coisa não faz que agir violentamente e sem polidez alguma contra hispânicos, negros, muçulmanos, gays e mulheres. Não é o caso, portanto, de dizer que o bilionário americano é politicamente incorreto, visto que sequer é político, mas totalmente despótico. É de sua grande e brutal força econômica e midiática que ele se vale para tentar impor, despótica e verticalmente, os seus anacrônicos valores individuais sobre os valores que, contemporânea e horizontalmente, a sociedade americana –mas não só ela- tenta construir para si mesma.

Desculpe-me, Žižek, mas Donald Trump é politicamente incorreto apenas metaforicamente, pois, literalmente, é absolutamente despótico. Melhor dizendo, corretamente despótico ao forçar seus propósitos pessoais contra uma sociedade inteira, ignorando deliberadamente os contradiscursos mais racionais. Chamar Trump de politicamente incorreto é impróprio em se tratando de alguém que sequer consegue ser político. Na verdade, ele é um déspota corretíssimo que, hoje, usucapia o parlatório político para, ao contrário dos gregos “politikos”, afirmar a violência, a estupidez e a miséria retórica no lugar da civilidade, da polidez e da virtude do diálogo político.

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