Boicote tupiniquim à transexualidade

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Que um filme que conta a história da primeira transexual da história seja proibido de ser exibido em um país do mundo árabe em plenos anos 2016 não é um absurdo inimaginável. Afinal, o fundamentalismo religioso, bem como os demais, funciona irracionalmente. Por isso o filme A garota dinamarquesa, dirigido por Tom Hooper, que narra a história real do pintor dinamarquês Einar Wegener, que em 1930 se tornou Lili Elbe, foi proibido no Catar, emirado do Oriente Médio no qual até os partidos políticos são proibidos.

Agora, que o mesmo filme –e a mesma questão, a transexualidade- sofra igual boicote no Brasil, um país pretensamente laico e democrático, isso é de surpreender. Melhor dizendo: decepcionar. Todavia, é exatamente isso o que está acontecendo nas paragens tupiniquins, com redes de cinema se recusando a exibi-lo. Na capital de Santa Catarina, por exemplo, o filme só entrará em cartaz por conta da insistente mobilizações de grupos que defendem a diversidade. Que razões poderiam estar levando a terra do carnaval, na qual nunca foi pecado algum alguém ‘de dia ser Maria, de noite ser João’, a uma postura irracional como essa?

Em primeiro lugar, devemos considerar a maior presença do fundamentalismo religioso evangélico na política brasileira dos últimos anos. Irônico é que esse movimento retrógrado tenha ocorrido justamente a partir das primeiras eleições depois do libertário junho de 2013 brasileiro, dentre cujas múltiplas insatisfações estava o repúdio ao recentemente eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos, o pastor evangélico Marcos Feliciano que, entre outros absurdos, buscava impedir que gays pudessem se casar, adotar crianças e formar famílias. Imaginemos o que diria Feliciano sobre a transexualidade!

Porém, em segundo e imediato lugar, o boicote à Garota dinamarquesa diz mais do que somente do fundamentalismo religioso. Temos de considerar fortemente o fundamentalismo sociocultural que, inclusive nos lares mais laicos ainda faz com que a questão da transexualidade deva ser enterrada antes mesmo de ser assistida. Por que alguns donos de cinemas brasileiros estariam se negando a exibir o filme que fala da transexualidade de Lili se todos sabemos que a película de Hooper já podia ser baixada pela internet antes mesmo de estar nas salas de cinema, e que, futuramente, estará nas locadoras e no NetFlix para ser visto “on demand”?

Para o fundamentalismo sociocultural, a questão da transexualidade, ainda que vista e inclusive vivida na profundidade privada, de modo algum deve exibida publicamente. Assim como o fundamentalismo pagão da Roma antiga levou os cristão que queriam cultuar o seu Deus ao interior cavernoso das ermas montanhas da Capadócia, o fundamentalismo contemporâneo parece querer levar aqueles que querem “cultuar” a transexualidade, isto é, atribuir espaço e dignidade cultural a ela, ao interior de suas cavernas particulares. Novamente, e infelizmente, não é de espantar, pois se à homossexualidade o melhor espaço que o fundamentalismo pôde oferecer foi o anonimato do “armário”, à transexualidade outro lugar não iriam querer proporcionar

Se ao menos o filme A garota dinamarquesa contasse a história de um homossexual enrustido que, em determinado momento de sua vida, quisesse ser mulher, o mundo do preconceito teria categorias de entendimento prontas e engessadas para assisti-lo e, não menos, para condená-lo, como faz com a homossexualidade em geral. No entanto, o desafio que o filme traz à reflexão fundamentalista -se é que isso não é o maior paradoxo- é o fato de um homem, Einar Wegener, casado com uma mulher, apaixonado por ela, e perfeitamente encontrado na sua identidade de gênero masculina, de repente, descobrir em si uma identidade de gênero diversa e latente, diante da qual nada pôde senão deixá-la se manifestar através da identidade feminina de Lili. Mais ainda, em nome do objeto mais caro à humanidade: a própria felicidade.

Tivesse Einar sido um “viado” enrustido a sua vida inteira, como muitos dos fundamentalistas religiosos e culturais o são sub-repticiamente, e então quisesse “sair do armário” já vestido com roupa e corpo de mulher, o fundamentalismo sequer precisaria refletir. Faria apenas o seu melhor, isto é, vomitaria os seus preconceitos contra a felicidade e a liberdade alheia. Entretanto, como assistiriam a história de Einar-Lili sem se depararem com o insondável continente do qual a natureza humana é habitante cativa? Se qualquer um, a qualquer momento, pode descobrir que é outro por dentro, mais ainda, um outro que é objeto de forte discriminação e preconceito, é melhor que tal natureza humana não seja exibida publicamente, pensam os fundamentalistas.

A ferida fundamentalista que o boicote ao filme A Garota dinamarquesa evidencia remete à terceira ferida narcísica da humanidade, qual seja, a descoberta do inconsciente, por Freud –a primeira: a terra não é o centro do universo, aberta por Copérnico; a segunda: o homem é uma evolução do macaco, e não criado tal qual por Deus, aclarada por Darwin. Com efeito, a consideração do inconsciente humano é a assunção de um universo pessoal dentro de cujas fronteiras as regras e leis do universo dito “consciente” nada podem a não ser serem transcendentemente afetadas e definidas por aquele. E não foi diante do império do seu inconsciente que Einar teve de se ajoelhar para aceitar a existência real de Lili?

Desse modo, embora sejam condenáveis as proibições das exibições públicas tanto de A garota dinamarquesa quanto da questão da transexualidade em si, ambos os despautérios podem ser compreendidos quando consideramos o modo fundamentalista e preconceituoso mediante o qual a humanidade caminhou até aqui para não se deparar com a complexidade de sua própria natureza. O boicote à exibição pública do filme de Hooper outra coisa não é que a tentativa fundamentalista desesperada de esconder o fato de que ser humano é ser constantemente ferido pela ruína de fundamentos que, até ruírem, parecem absolutamente certos e imutáveis.

Que a jihad religiosa do radical Catar resista terminantemente em aceitar que seus fundamentos absolutos são apenas curativos culturais paliativos que escondem as feridas abertas da humanidade em vez de tratá-las, compreendemos muito bem; a condenamos até. Agora, que no Brasil, parafraseando Tim Maia, valha tudo, valha o que vier, valha o que quiser, mas não valha que a transexualidade tenha lugar público e digno, desculpem-me, isso só faz com que o fundamentalismo tupiniquim seja o mesmo que o catariano, apenas usando uma outra fantasia. Vale tudo? Não! Não vale, aqui, chamar aqueles de bárbaros radicais e, ali, agir como eles.

Mais ainda, as garotas e os garotos Trans, sejam eles dinamarqueses, catarianos ou brasileiros, estão aí para não deixar a “fera ferida” do império Cis se esquecer de que até um dos mais sólidos fundamentos humanos, qual seja, que a identidade sexual de uma pessoa deve ser determinada pelo sexo  biológico, não vale absolutamente. Por isso o boicote ao filme de Hopper é um absurdo, pois aliena a humanidade de uma de suas expressões cada vez mais tácitas:  ser de um identidade sexual diversa daquela que ou Deus ou a natureza “quiseram”. Não é de surpreender que o Catar se recuse a exibir essa humanidade. Porém, é de decepcionar profundamente que o Brasil, que, dizem, tem o povo mais amável do mundo, seja tão odiável com quem em um dia é Maria, mas, em outro, descobre-se João, ou vice-versa.

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