A barbárie e a medida da nossa indignação

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Foto: PCO – Presídio de Pedrinhas, Maranhão.

Ao lermos a notícia primeiramente divulgada pela agência curda “Arab News”, mas rapidamente replicada por jornais de todo o mundo, de que no dia 18 de fevereiro de 2016 o adolescente Ayham Hussein, de 15 anos, foi decapitado em praça pública por jihadistas do Estado Islâmico, simplesmente por ouvir música Pop ocidental, quão indignados ficamos ou achamos que devemos ficar? Muito, diremos nós. Afinal, no nosso ocidente laico&liberal jovem algum é decapitado em praça pública por con$umir música Pop. Somos civilizados, ora bolas, bem diferentes daqueles bárbaros radicais. Por isso não temos dúvida de que devemos devemos ficar absolutamente indignados com o que aconteceu a Ayham. Entretanto, seria essa a justa medida para a nossa indignação em relação à barbárie cometida contra Ayham?

O problema dos sentimentos, posturas ou crenças absolutos é que inviabilizam sobremaneira a reflexão, ou seja, o virtuoso uso razão. Se em Filosofia “absoluto” é definido como realidade suprema e fundamental, independente de todas as demais, qualquer filósofo nos dirá que se a nossa indignação a respeito do destino que o E.I. deu a Ayham é absoluta, ela não é menos radical que a indignação absoluta dos jihadistas em relação ao gosto do adolescente por música Pop ocidental. O vício do radicalismo jihadista parece ser muito claro para nós. Agora, o vício do nosso radicalismo, a partir do qual criticamos aquele, é igualmente claro?

Ora, se é só pelo fato de os membros do E.I. seguirem fundamentos absolutos que eles são criticados por nós, ocidentais, enquanto os criticarmos absolutamente, do topo dos nossos caros fundamentos laicos&liberais, desculpem-me, merecemos a mesma crítica, gostemos ou não dessa consequência. Isso porque a nossa indignação absoluta nos impede de pensarmos a questão reflexivamente. O absoluto não reflete. Em que iria refletir-se se só há ele? A recusa dialética que toda ideia absoluta envolve, no caso da morte de Ayham, rouba-nos, por exemplo, a possibilidade de perguntarmo-nos se além da compaixão pelo adolescente árabe fã de música Pop a nossa indignação absoluta diz mais coisa, e o quê.

Uma vez que absoluto também é definido como a quintessência da abstração, a essência e o termo da generalização, a nossa repulsa absoluta ao que concretamente aconteceu a Ayham, primeiramente, é uma forma de nos alienarmos justamente do indivíduo concreto Ayham, para, em seguida, mediante essa abstração, colocarmos no lugar dele qualquer adolescente que possa ser decapitado pelos mesmos motivos, senão para, em terceiro e último lugar, imaginarmos os nossos filhos, irmãos, netos, sobrinhos, e até nós mesmos, sendo decapitados pela barbárie fundamentalista dos outros.

A sordidez desse movimento, que não é fácil de aceitar, é análoga à análise que  Slavoj Zizek fez acerca da assistência humanitária que os países ricos dão aos miseráveis do terceiro mundo. Para o filósofo, tal humanitarismo nunca serviu para realmente ajudar o terceiro mundo, mas para que os próprios países ricos possam desfrutar de igual assistência no caso de futuramente precisarem. Se, como esclarece Zizek, o desejado altruísmo é mesmo apenas a melhor máscara para o indesejado egoísmo humano, a nossa indignação absoluta com a barbárie cometida contra Ayham desconsidera o próprio Ayham senão para endereçar a nossa indignação a nós mesmo, mais especificamente, ao nosso desejo de não sermos decapitados radicalmente pelo que gostamos ou acreditamos. Tal assunção é radical!

A indignação absoluta a respeito do que o E.I. fez com Ayham nos submete a uma espécie de cegueira que, entre outras coisas, faz com que esqueçamos, por exemplo, de que muitos dos nossos jovens, principalmente os que não seguem à risca o “playlist” ocidental, sofrem um tipo de violência que, embora não os decapite espetacularmente, impede-os subterraneamente de viverem as suas vidas, de modo tão irremediável como se suas cabeças tivesse sido arrancadas. Estou falando obviamente do mui ocidentalizado “bullying”, que, como nossas agências de notícia cada vez mais divulgam, leva muitos adolescente a darem cabo de suas próprias vidas, não em praça pública, mas na solidão insuportável de suas sensações de inadequação em relação ao mundo que, por violência externa, foram levadas a sentir.

Condenar absolutamente os jihadistas do E.I pelas bárbaras decapitações que promovem nos seus domínios, faz também com que nos esqueçamos de que no nosso próprio quintal brasilis acontecem decapitações tão ou mais bárbaras que aquelas. O que em 2014 se deu quase que sistematicamente no presídio de Pedrinhas, no Maranhão, mas que ainda hoje acontece, seja lá mesmo, seja em outros presídios brasileiros, isto é, presos decapitando presos e usando suas cabeças como moeda em troca de celas menos lotadas, de alimentos não apodrecidos, até de fornecimento de maconha, tal barbárie, digamos assim, doméstica, não deveria ficar de fora das nossas reflexões sobre a barbárie e as decapitações do E.I. No entanto, a nossa indignação absoluta com aqueles bárbaros outra coisa não faz que nos alienar das nossas.

A nossa reflexão, todavia, não será realista se, para finalmente considerarmos as nossas barbaridades tupiniquins, tomarmos alguns do presos de Pedrinhas como os radicais bárbaros absolutos, e os decapitados enquanto vítimas absolutas. Pelo menos no caso maranhense, todos os presos eram vítimas de uma barbárie muito mais radical: o sistêmico descaso do governo daquele estado com seus cidadãos em função da manutenção de seu podre poder. E na barbaridade de Pedrinhas, ainda que sem sujar as mãos com o sangue dos presos, o bárbaro-mor era ninguém menos que Roseana Sarney, princesa da oligarquia peemedebista maranhense que, desde 1966, é encabeçada por seu pai, José.

A barbárie que Pedrinhas evidenciou, que até hoje pode ser vista pelo Youtube, e da qual nos esquecemos ao nos indignarmos absolutamente com a barbárie do E.I., pode ser ainda mais bárbara que a dos jihadistas radicais. E isso porque o governo do PMDB tocado por Roseana, que criou as condições concretas para aquelas decapitações, esconde a sua barbárie justamente no fato de ter sido eleito democraticamente, mentira todavia tornada real por conta do poderio midiático do clã Sarney, proprietário de seis afiliadas da TV Globo, de emissoras de rádio e de vários jornais. Ainda que disfarçadas, as decapitações que se seguiram do “jihadismo” oligárquico dos Sarney são tão equivalentes às que se seguem do jihadismo do E.I que ambas têm lugar indiferenciado no Youtube. Basta digitar duas palavras e, voilà, barbáries árabes ou brasileiras!

A “jihad” dos nossos Sarneys, essa histórica cruzada familiar cujo objetivo nunca foi outro senão manter o Maranhão como curral exclusivo de seus fundamentos supremos, e que, para tal, inclusive dezenas de cabeças tiveram de rolar, é mais bárbara que a jihad do E.I. no sentido de que é estrategicamente dissimulada. A barbárie do E.I. tem ao menos a virtude de não esconder de ninguém que é absolutamente tirânica. Já a maranhense, de José e Roseana, se vale do moderno vício oligárquico de se disfarçar com a toga branca da democracia. Porém, para que ambas as barbáries sejam condenadas -pois é isso que merecem!-, a estrangeira não deve monopolizar absolutamente a nossa indignação. Temos de sujar as mão, melhor dizendo, as nossas ideias com no mínimo a barbárie que rola solta no nosso quintal, ainda que a um maranhão de distância de nós.

Do contrário, se a nossa indignação com a barbárie do E.I. for absoluta, isto é, se for suprema e independente de todas as demais, outra coisa não faz que dispensar os nossos bárbaros domésticos de receberem a mesma e merecida crítica, o que pode fazer com que inclusive sejam eleitos democraticamente outras vezes. Além do que, a nossa indignação absoluta com o que aconteceu com Ayham, trazendo à nossa revolta a quintessência da abstração, aliena-nos inclusive da barbárie concreta dos jihadistas muçulmanos. Absolutamente indignados com as decapitações do E.I. findamos, de um lado, com uma revolta abstrata contra os jihadistas muçulmanos, e, de outro, com uma alienação concreta em relação à barbárie brasileira que, consequentemente, só favorece os nossos “jihadistas” pátrios.

Então, ao lermos sobre a triste morte de Ayham, a justa medida para a nossa indignação deve estar entre a apatia total -que, infelizmente, é quase generalizada-, e a indignação absoluta –que, não menos felizmente, é como as pessoas que se permitem ser atravessadas pela questão imediatamente se sentem. O que deve ficar claro é que tanto não dar bola para o que aconteceu com Ayham, quanto achar que o triste fim do adolescente é a pior coisa do mundo, outra coisa não é que agir como um bárbaro que deliberadamente deixa de ver a complexidade da realidade. E o que se deixa de ver, seja com a cegueira apática, seja com indignação absoluta, é justamente que a barbárie não é coisa somente de muçulmanos radicais, que cabeças que falam português também são decepadas por motivos radicalmente vis.

Não é só além-mar que estão os bárbaros contra os quais devemos nos indignar. As dezenas de presos decapitados em Pedrinhas pela barbárie maranhense estão aí –na nossa história, no Youtube- para não deixar os brasileiros se esquecerem disso. Mesmo que a barbárie além-mar nos aliene espetacular e absolutamente da barbárie tupiniquim, pelo menos o Maranhão, que, ironicamente, em Tupi, significa “mar grande”, ainda é o oceano-totem bárbaro suficientemente concreto para nos sacar da abstração a que nos submetemos ao nos indignarmos absolutamente com a barbárie jihadista do Estado Islâmico.

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