Pensando fracamente a transexualidade infantil

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Em 28 de janeiro de 2016, a justiça brasileira, pela primeira vez, determinou a mudança de nome e de gênero de Luiza, de 9 anos, antes chamada de Leandro. A menina Luiza se sentia “aprisionada” no corpo do menino Leandro e, com a compreensão de seus pais e a autorização da justiça, pôde se libertar. A metáfora da prisão é bastante usada por transexuais para expressarem o que sentem a respeito de seus corpos biológicos. Como, entretanto, pensar a questão da transexualidade, ainda mais a infantil, sem ficar circunscrito no insistente fundamento que diz que o sexo biológico de uma pessoa é e deve ser mais determinante do que o sexo psicológico? E uma vez em ruínas tal fundamento, como e o que pensar sobre a transexualidade?

Questão delicada, a transexualidade, por um lado, é oprimida pelos fundamentalismos biológico, social e religioso de uns, e, por outro, sequer pensada pelo medo de errar ou pelo ceticismo de outros. Um caminho intermediário para pensarmos a transexualidade entre o radicalismo e a apatia é o “pensamento fraco” desenvolvido pelo filósofo italiano Gianni Vattimo: uma atitude contemporânea que aceita o “erro” do pensamento, senão porque, para o filósofo, é a noção de verdade que se deve adequar à dimensão humana, e não o contrário. De característica libertadora, o pensamento fraco se sustenta na ideia de que pensar é estar ciente de que nossos pensamentos são apenas meios, sujeitos ao erro, e não fins certos e absolutos. Ou seja, para Vattimo, o pensar não deve almejar findar como novos fundamentos, mas ser mobilidade cognitiva ativa a nos afastar constantemente do fundamentalismo.

Pensando fracamente acerca da transexualidade, portanto, não corremos o risco de “aprisionar” os transexuais com os nossos pensados, pois a ideia é que o pensamento, e a própria filosofia, o seu meio excelente, tragam ideias novas que nos libertem. E no caso da transexualidade, a nós e aos transexuais dos resistentes preconceitos. Partamos então, fraca e cuidadosamente, senão para o transcendermos, do fundamento que diz que transexual é todo indivíduo cuja identidade de gênero difere da designada no seu nascimento pelo seu sexo biológico.

No caso de Luiza, seus pais, inicialmente, não sabiam o que pensar sobre a transexualidade de Leandro. Então, procuraram ajuda com um pastor evangélico, cuja prescrição, não é de surpreender, foi a de reprimir ao máximo a conduta da criança enquanto ela estivesse acordada, e, enquanto dormisse, proferir orações ao pé do ouvido dela, pois assim “expulsariam o demônio de seu corpo”. Fundamentalismo radicalíssimo! Porém, depois de alguns meses de “tratamento religioso”, a feminilidade do garoto só fazia acentuar, e, colateralmente, nas palavras do pai do até então Leandro, “de repente, tínhamos ali um filho em depressão, agressivo, piorando na escola”.

Diante da ineficácia dos verticais fundamentos religiosos, os pais de Luiza encontraram no documentário americano Meu Eu Secreto uma explicação mais horizontal sobre a questão da transexualidade infantil. Doravante, dentro de casa, Leandro podia ser Luiza, andar de calcinha e vestido, brincar de boneca, etc. Entretanto, na rua e na escola, Luiza deveria ser Leandro. A problemática e esquizofrênica dupla personalidade a que os pais sujeitavam o filho-filha, todavia na tentativa de encontrar uma solução para o problema, chegou no limite quando, no dia em que um amigo da família visitou-os sem avisar, viram Luiza se esconder amedrontada atrás de uma churrasqueira até que o amigo fosse embora. Deram-se conta de que estavam criando um problema a mais para o filho, e não ajudando-o a libertar-se do que já tinha.

Então, os pais de Leandro procuraram o Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, cujo diagnóstico apontou que “a personalidade da criança, seu comportamento e aparência remetem, imprescindivelmente, ao gênero oposto de que biologicamente possui, conforme se pode observar em todas as avaliações psicológicas”, e que, portanto, para a saúde do garoto, era recomendado que Leandro fosse Luiza dali para frente. O pai de Luiza, sargento aposentado do Exército, vibrou de emoção. A mãe declarou: “a felicidade é muito grande, já imagino quando ela for arrumar emprego ou casar vai ser tudo mais fácil”.

A transexualidade, quando experienciada por uma criança, exige mais do nosso pensar, uma vez que a certeza de um adulto sobre a inadequação de seu corpo biológico em respeito à sua realidade psicológica é bem mais compreensível. Isso fica claro no filme A Garota Dinamarquesa, que conta a história do primeiro transexual da história, Lili Elbe, antes Einar Wegener, um homem casado e tranquilo com sua identidade de gênero masculina que, aos poucos e diante da audiência, explica sensivelmente a sua transição transexual. Já a transexualidade infantil é mais difícil de ser compreendida, uma vez que a incipiente sexualidade das crianças nos deixa como que sem a metade da história.

Porém, em relação à transexualidade, seja em adultos, seja em crianças, pensemos, como Vattimo, isto é, fracamente, pois enquanto pensarmos fortemente, como materialistas ou religiosos ferrenhos, se os transexuais apenas submetem ou não o real às suas idealidades, ou ainda se afirmam ou não que a natureza ou Deus “erraram” com eles, apenas deixamos de entender a profundidade da questão transexual que os atravessa. A complexidade da questão fica mais clara quando Einar, de A Garota Dinamarquesa, perguntado por um amigo se, ao se submeter à até então inédita cirurgia de mudança de sexo para se tornar Lili, estaria corrigindo um erro da natureza. Então, Einar responde: “a natureza já acertou comigo, fez-me mulher por dentro. Agora é só tirar o disfarce masculino que esconde Lili”.

Aqui, contudo, o nosso pensamento fraco precisa perguntar se o fato de a primeira transexual da história não ver erro algum no fato de ela, mulher, ter nascido no corpo de um homem, mais ainda, dizer que a natureza acertou em tê-la feito mulher com um corpo-disfarce masculino, não é apenas um malabarismo de ideias no sentido de se alienar da complexidade da questão. Outrossim fracamente, o nosso pensamento deve considerar que Einar-Lili, com seu modo peculiar de encarar a própria condição, faleceu um dia depois de realizada a sua cirurgia transex. Dividida em duas complexas etapas, a mudança de sexo aventurada na Dresden da década de 1920 exigia alguns meses de recuperação entre a remoção do órgão masculino e a construção do órgão feminino. Einar, já sem pênis, e apressado para ter uma vagina e ser definitivamente Lili, porém, fez malabarismo com as prescrições médicas, encurtando o prazo estabelecido, o que acabou lhe custando a vida. Lili, apressada, infelizmente, existiu por um único dia. O filme, entrementes, faz-nos achar que esse único dia valeu a pena.

Malabarismo ideal ou não, o nosso pensamento fraco sobre a transexualidade de Luiza deve se curvar compreensivamente diante da força do pensamento dela, qual seja: “agora, não vou ter mais problemas nas chamadas na escola. Às vezes me chamavam pelo nome masculino, no postinho de saúde e nas viagens, e era sempre era aquele zum zum zum quando olhavam para mim e para o meu documento. Eu me sentia muito mal, mas agora isso vai mudar.” Todavia, pensar fracamente sobre a transexualidade de Luiza não é calar diante da realidade que doravante se imporá; não é deixar de pensar no que o ato de mudar de nome e de gênero traz à vida da própria Luiza. O pensamento fraco, antes, deve pensar no sentido de compreender como se dará a realidade da nova menina a longo de sua vida, afinal, a questão principal não terminou na decisão judicial que fez de Leandro Luiza.

Para a menina que agora ela é ser uma mulher, terá de se submeter sistematicamente à medicamentos e hormônios que, de um lado, impeçam que na puberdade a sua natureza masculina aflore, e, de outro, no restante da vida, incentivem a natureza feminina que seu corpo biológico sozinho não expressará. Sem esquecer ainda a cirurgia de mudança de sexo na qual o caminho que ela a partir de hoje trilha provavelmente desembocará. Outra coisa importante, o seu atual desejo de, no futuro, ter filhos, não se dará conforme quem nasce com corpo de mulher, mas terá, necessariamente, de se deparar com a questão da adoção. Em suma, o atual pensamento de Luiza, diante do qual nenhum pensamento deve ter mais força, qual seja: “agora me sinto uma menina inteira”, terá de, no entanto, mais hora menos hora, encarar o forte desafio de ser “uma mulher inteira”, tarefa bem mais árdua, pois, para além do bem e do mal, Luiza outra coisa não desafiará senão a sua natureza biológica.

São justamente questões como estas que o pensamento fraco deve trazer à tona e manter na arena de pensamento, tanto na da menina, quanto na dos pais dela, quanto ainda na da sociedade como um todo. Longe de querer destruir niilisticamente a presente vitória transexual de Luiza, pensar fracamente outra coisa não é que, através do pensamento, dar completude a essa vitória, não deixando nada de fora, compreendendo não só a delícia, mas também a dor que qualquer ato comporta. Do contrário, se à Luiza for colocado que a partir de agora todos os problemas referentes à sua sexualidade e à sua escolha de gênero estão resolvidos, esse pensamento outra coisa não é que uma mentira de forte pretensão fundamentalista.

Valendo-me do erro que o pensamento fraco vattimiano comporta no sentido de que as verdades se adequem à dimensão humana, arrisco-me a pensar a atitude dos pais de Luiza a partir da minha experiência pessoal. Pois bem, eu sou um homem adulto e homossexual. Na minha infância, porém, só vivia a minha homossexualidade imaginando-me menina, afinal, só assim estaria conforme os desígnios de Deus e da minha família. Assim eu pensava, obviamente, por conta dos tacanhos referenciais que meus pais haviam me fornecido. Não obstante, adolescendo, e, mais ainda, tornando-me adulto, isto é, conhecendo o mundo para além dos estreitos limites que até então me continham, percebi que eu não precisava ser mulher para me realizar sexualmente. No meu caso, sem libertar-me da minha masculinidade, libertei-me do que tolhia a minha homossexualidade e da ideia de que só sendo uma menina eu poderia realizá-la.

Sem querer impor meus fundamentos à questão transexual de Luiza, meu pensamento fraco precisa perguntar -todavia aceitando a crítica de ser forte demais, fundamentalista até- se o fato de os pais de Leandro terem solicitamente viabilizado a vinda de Luiza ao mundo não foi o modo de eles deixarem de lidar com a homossexualidade do filho. Assim como, vulgar e preconceituosamente, tem-se que a bissexualidade é “menos grave” que a homossexualidade, é preciso perguntar fracamente se a transexualidade latente de Luiza não foi a solução para a incapacidade dos pais de lidarem com a homossexualidade manifesta de Leandro. Seja no caso de Luiza, seja no caso de qualquer outra criança que a princípio esteja expressando um gênero que não o seu biológico, é preciso investigar se a transexualidade é uma realidade legítima e imperiosa ou se, antes, é apenas um modo transitório-acessório de se viver uma homossexualidade que ainda não encontra via de expressão.

Não podemos deixar de trazer Freud à discussão. Para o pai da psicanálise, o que toda criança deseja, mais que tudo precisa, é de limites, pois é muito angustiante para elas não saberem o que não podem fazer. Então, tentando tudo o que podem, conhecem, através da reprovação ou aprovação de seus pais, o que realmente podem e não podem no mundo. Esse conhecimento funciona como uma espécie de alívio: regras! Caso não as conheça na infância, o adulto as buscará, não mais nos seus pais, mas no mundo, até que alguém lhe diga o que ele pode e o que não pode. Sendo assim, no caso de a transexualidade de Luiza se enquadrar nessa “testagem” que, para Freud, é intrínseca à infância, seus pais não atenderam o desejo de Leandro de conhecer certos limites. Claro, o nosso pensamento fraco deve tratar com igualdade dialética a possibilidade de a transexualidade de Luiza nada ter a ver com busca por limites, mas ao contrário, por liberdade. Nesse caso, seus pais lhe deram o que ela mais precisava.

Mais uma coisa a respeito da qual o nosso pensamento fraco não deve se calar: a concessão, às crianças, dessa dimensão assaz moderna chamada Sujeito: um universo pessoal em cujo centro, feito um Sol-Deus-todo-poderoso, jaz o Eu e a sua miríade de desejos. Como vários historiadores apontam, no passado, as crianças não eram consideradas Sujeitos. Antes, deveriam viver à sombra dos exemplos dos Sujeitos-pais, até que um dia, já adultos e Sujeitos, pudessem decidir os rumos de suas vidas. Hoje em dia, porém, parece que as crianças são mais Sujeitos que os adultos. Para muitos pais, é como se um universo inteiro fosse solapar sempre que seus filhos são contrariados ou se deparam com alguma limitação ou frustração. Os pais contemporâneos, contudo, se esquecem de que, para seus filhos, e até para eles mesmos, enfrentar circunstâncias adversas sempre foi mais um virtuoso aprendizado do que o fim do mundo.

Então, a última pergunta que meu pensamento fraco lança aos pais de Luiza é a seguinte: qual seria o problema de terem deixado Leandro conviver mais demoradamente com suas inquietantes questões particulares, todavia amando-o e ouvindo-o, em vez de, ainda na infância, época em que, como disse Freud, mais se quer conhecer limites do que transgredi-los, terem resolvido a questão excluindo o problemático Leandro da jogada? Porventura arruinariam a vida do filho caso tivessem explicado que ele-ela era menino E menina ao mesmo tempo; que nenhuma das duas condições estava errada ou precisava ser corrigida com pressa, já na infância? Uma vez Luiza, não está Leandro praticamente alienado de vivenciar a questão crucial que é só sua, que nem seus pais nem a sociedade na qual Luiza pensará por ela? Se estas minhas perguntas parecem descabidas, fortes demais para o pensamento fraco a que me propus, é por que parto da minha homossexualidade, que, na infância, levou-me a desejar ser menina, ideia que, entretanto, com o tempo mostrou-se mais uma fuga do problema do que seu atravessamento. Aqui, no entanto, meu pensamento fraco se autocritica: a diferença entre Luiza e eu é que ela é transexual, eu, homossexual.

Não há dúvida de que pais e sociedade aceitarem e se curvarem diante do fato de a sexualidade psicológica de um indivíduo, até mesmo a de uma criança, não ser conforme a sua sexualidade biológica é uma evolução imensa. Que a biologia deva imperar é apenas um problemático e insustentável fundamento. Agora, que a dimensão psicológica não deva ser questionada, mantida na arena de pensamento, são outros quinhentos. E para dialogar com ela, sem tolhimento nem desrespeito, o pensamento fraco de Gianni Vattimo é o melhor método, uma vez que aceita estar errado, e, ademais, não visa destruir nem substituir as coisas acerca das quais pensa, mas, ao contrário, busca compreendê-las. Só assim o pensamento pode fazer com que seus objetos sejam tudo o que são. Sobre a transexualidade em geral, e especialmente sobre a infantil, mais virtuoso que, de um lado, o fundamentalismo radical, e, de outro, o ceticismo apático, o pensamento fraco!

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