O tal do próximo e o nosso egoísmo

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“Ame o teu próximo como a ti mesmo”, disse Mateus. Todavia, quem é esse próximo? Apesar da abstração com qual os objetos da Bíblia estão envolvidos, o “amor” e o “próximo” de que fala a Escritura são coisas bem concretas. Do “amor” não temos dúvida, uma vez que amamos inclusive coisas odiáveis, como o dinheiro, por exemplo. Já a respeito do tal “próximo” não temos tanta certeza de quem ele é. Ao lermos a passagem bíblica resta a ideia de que esse próximo é um ser tão transcendente quanto Deus, afastado de nós por um universo inteiro. Porém, imanentemente, devemos entender que esse próximo é, como o significado da palavra diz, quem está próximo de nós.

Porém, de que forma amar o próximo como a si mesmo em um mundo no qual estamos, sete bilhões de pessoas, demasiadamente próximos uns dos outros? Antes, temos capacidade para amar, ou somente para desejar coisas para nós mesmos, como o dinheiro, todavia chamando indevidamente o nosso egoísmo hedonista de amor? Ou, ainda que tenhamos uma ideia adequada de amor, não conseguimos amar o próximo como a nós mesmos simplesmente porque não amamos a nós mesmos? Seria a nossa indiferença em relação ao próximo o cumprimento estrito do preceito de Mateus?

Pois bem, como, acima, a abstração bíblica foi criticada, eis um exemplo concreto. Eu estava caminhando pela movimentada Av. N. Sra. De Copacabana quando vi um homem muito velho, negro, imundo, com um pé bastante machucado, sentado no chão molhado da chuva e esticando a mão às pessoas que passavam, pedindo alguma coisa, a qual, nem as pessoas nem eu queríamos saber o que era. Três quarteirões depois, porém, eu não conseguia deixar de pensar naquele pobre senhor. Havia em mim vontade de ajudá-lo. Todavia, pensei eu, o que eu poderia fazer?

Na minha cabeça, ele precisava de, no mínimo, um prato de comida, um copo de café, um banho, roupas limpas, remédio para o seu pé machucado, uma casa até. Agora, como eu, sozinho, poderia resolver todos os problemas dele? Todavia, a ideia de que a felicidade toda dele dependia da minha ajuda só fez com que eu me alienasse da possibilidade de tentar ajudá-lo. Por isso eu, a exemplo das demais pessoas, fiz de conta que ele não estava ali. Mesmo assim, algo em mim que eu ainda não quero nomear fez-me dar meia volta e ir até ele para perguntar o que ele estava precisando.

Qual não foi a minha surpresa ao ouvi-lo dizer que queria apenas ajuda para levantar. Simples assim! Então, sem pestanejar, desvencilhei-me do imediato nojo que socialmente fui ensinados a ter de quem não toma banho e mora na rua e passei meus braços sob os dele para colocá-lo em pé. Ele sorriu, agradeceu e, apoiando-se num cabo de vassoura que fazias as vezes de bengala, seguiu seu rumo. Do mundo de necessidades que eu a priori achei que aquele senhor tinha, ideia todavia errada que só fez com que eu o ignorasse da primeira, aquele meu próximo estava apenas precisando levantar.

O “próximo”, que na Bíblia sempre me pareceu tão abstrato, mostrou-se absolutamente concreto e cognoscível. Além de estar fisicamente próximo –estar diante de mim e viver no mesmo bairro que eu-, o que já deveria ser suficiente para eu me importar com ele, quiçá amá-lo, o fato de eu não conseguir tirá-lo da cabeça alguns quarteirões depois deixou claro também quão metafisicamente próximo aquele próximo estava de mim. Então, dando-me conta dessa dupla proximidade, não foi nada difícil amá-lo como a mim mesmo, pois, caso eu quisesse apenas levantar e não pudesse, o amor de alguém por mim seria nada outro que uma ajuda para levantar-me.

Assim como aconteceu comigo, será que “amar o próximo como a si mesmo” só se concretiza mediante uma espécie de egoísmo? É para sermos amados pelos outros como eles amam a si mesmos que devemos amá-los como a nós mesmos? O nosso próximo só será amável na medida em que, do nosso lado, formos amados por ele enquanto o próximo dele? Agora, se não fôssemos intrinsecamente egoístas, se amássemos uns aos outros espontânea e naturalmente, Mateus precisaria ter cunhado o seu preceito?

Ora, se a natureza dotou-nos de amor próprio, e também do seu exagero, qual seja, o egoísmo, não é porque ela errou, mas porque não existiríamos sem esses afetos. Porém, se fôssemos absolutamente egoístas, desejando a ruína dos outros para que toda a natureza fosse só nossa, valeria a pena existir nessa satisfeita e abastada solidão? Obviamente não, pois a felicidade dos outros também constitui a nossa, assim como a nossa, a dos outros. Então, sem deixar de sermos egoístas, o que, creio eu, é impossível fora da ficção bíblica, esse afeto demasiado humano claramente reconhecido como amor próprio tem escondido em si a receita do amor ao próximo.

Aqui reencontramos o “pharmakon” grego, conceito que diz que a diferença entre veneno e remédio está na dose. Se o egoísmo nos aliena de amar o próximo, é porque sua dose está errada, e então é venenoso. Se, em troca, é capaz de levar-nos a tal amor, sua dose está certa, e aí nosso egoísmo é remédio. Como disse o filósofo Spinoza, nada há na natureza que, em si, seja bom ou mau. Somos nós que fazemos com que as coisas e os afetos recebam esses predicados. A prova está em que as mesmas coisas são boas para uns e más para outros. Sendo assim, tampouco do egoísmo e do amor pode ser dito que são bons ou maus em si mesmos. Antes, suas bondades ou maldades são aquilo que fazemos deles.

Desse modo, se o bem e o mal são produções exclusivas humanas, todavia a partir de coisas e afetos que existem natureza, mas que, nela, não são nem boas nem más, cabe a nós sermos demiurgos virtuosos e fazermos com que as nossas coisas e os nossos afetos, como, por exemplo, o egoísmo e a sua cria mais famosa, qual seja, a alienação acerca das carências dos nossos próximos, possam ser bons para nós, e não apenas maus.

Sumamente, não precisamos de um Deus para dar o que nos falta, como se o bem e a virtude jazessem nalgum céu árduo de alcançar. Basta um de nós, todavia apelidado de apóstolo, para lembrar-nos de que o amor próprio pode e deve ser convertido em amor ao próximo. Isso porque temos em nós todo o amor de que nós e os outros precisamos. Da mesma forma -e isso é mais difícil de entender- temos todos o egoísmo de que também precisamos, seja para seguirmos existindo diante do egoísmo dos outros, seja para sermos amados egoisticamente pelo amor próprio dos outros, uma vez que, como disse o Poeta, “é impossível ser feliz sozinho”. Ou seja, a nossa felicidade precisa da felicidade do nosso próximo.

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