Machismo folião

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Carnaval é só alegria! Isso, porém, é verdadeiro apenas abstratamente, pois concretamente, como o carnaval de rua carioca -mas não só este- tem deixado bem claro é também lugar de desrespeito, assédio sexual e machismo. Impressiona, em pleno 2106, o número de mulheres que são sitiadas pelo “desejo folião” de alguns homens. Algumas delas, por recusarem um simples beijo, são achincalhadas; outras, pior ainda, agredidas fisicamente, deixando a folia com um olho roxo, como várias fotos-redes-sociais têm mostrado –e, concretamente, uma amiga pessoal. Em relação a isso, duas perguntas não podem deixar de serem feitas. Que querem estes homens regredindo os pouquíssimos passos que os homens em geral deram no sentido da igualdade, liberdade e dignidade das mulheres? E também, que querem as mulheres prestigiando uma festividade que não lhes garante o devido prestígio?

A lamentável impostura dos machistas-de-bloco-de-carnaval não deveria impressionar quando vemos que, de acordo com pesquisa feita pelo Instituto Data Popular em janeiro de 2016, 61% dos homens afirmam que uma mulher solteira que vai pular Carnaval não pode reclamar de ser cantada e, mais grave ainda, 49% disseram que bloco de Carnaval não é lugar para “mulher direita”. Pelo jeito, também não é lugar para “homem direito”, pois, por mais desnecessário e patético que seja definir “direito”, seja para homem, seja para mulher, assédio e agressão física não deveriam estar na definição de nenhum dos dois. A fálica insistência masculina na expressão-cabresto “mulher direita”, entretanto, parece apenas querer dispensar os próprios homens que a usam de, eles sim, agirem “direito”.

Embora o machismo não se restrinja apenas ao carnaval, na folia carnavalesca ele é escancarado. Por quê?

Segundo historiadores, o carnaval como o conhecemos surgiu no século XI com a invenção da Semana Santa pela Igreja Católica. Como a Igreja ditava padrões éticos e morais muito rígidos, as bacanais e saturnálias eram proibidas, principalmente durante os quarenta dias que antecediam a morte e a ressurreição de Cristo. Então, nos últimos dias antes da abstinente Quaresma, as pessoas aproveitavam para fazerem tudo a que “tinham direito”. O Carnaval, portanto, desde seu início comportou a tensão entre os prazeres da carne e a salvação da alma. Evento paradoxal, o carnaval é marcado, por um lado, pelo “adeus à carne” que o próprio nome em latim “carnis levale” denota, uma vez que “levale” significa privação, e, por outro, pelos prazeres da carne, atinentes a outra expressão latina que também compete no termo “carnaval”, qual seja, “carnis valles”, com “valles” significando prazeres.

Diante dos rígidos ditames do Deus Cristão, o carnaval era a oportunidade de as pessoas agirem livremente, como se ainda fossem pagãs, cultuando, ainda que por poucos dias, os seus demônios particulares. Não é à toa que Momo, o rei da festa, entregava a chave da cidade à Satanás, senão para que este reinasse, por parcos dias, sobre as pessoas –hoje em dia, ironicamente, Momo a entrega ao prefeito da cidade! Nas palavras de Mateus, “Satanás é tão astuto que traz para todas as culturas e povos um modo de ser adorado”. E o maior evento desse seu “modo” é o Carnaval! Porém, para não permitir que o mundo se tornasse um inferno sempiterno, no último dia antes da Quaresma, diz-nos o santo, Jesus ordenou: “Retira-te, Satanás”. A astúcia da Igreja esteve em, uma vez Deus não ter poder para aniquilar o demônio, ter “agendando”, anualmente, um curto reinado-recreio a Satanás, senão para que nessa estreita agenda o mal, regozijando-se, gastasse sua energia, de modo que, no restante do ano, Satanás vivesse uma ininterrupta quarta-feira de cinzas ressacosa.

Separados mil anos da Cristã origem carnavalesca, ademais por uma Modernidade na qual, avisou-nos Nietzsche, Deus morreu, deuses e demônios, melhor dizendo, a tensão entre bem e mal, não obstante, segue vivíssima dentro de nós. Quem, atualmente, em sua sã consciência, não concorda que o machismo é um mal, e sua superação, um bem absolutamente elevado? Todavia, os nossos machistas-de-bloco-de-carnaval, que ao longo do ano agem -ou no mínimo se sentem obrigados a agir– como se as mulheres não devessem ser sujeitadas a eles, mas que “no bloco” fazem justamente o contrário, estes fazem como os antigos cristãos que, inescapavelmente sujeitados ao bem divino, aproveitavam o átimo pagão anual para cultuar o mal que resistentemente jazia neles.

Entretanto, para não se deparar com o seu próprio mal, no nosso caso, o seu machismo assedioso, o machista-de-bloco sustenta, de um lado, a existência de uma coisa chamada “mulher direita”, e, de outro, que “bloco de carnaval não é lugar de mulher direita”, para, por fim, concluir, num silogismo absurdo, que aquelas mulheres que ele encontra nos blocos não são “direitas”, e que, portanto, não precisa respeitá-las. Essa estratégica ilogicidade visa justamente abrir, ainda que efemeramente, ao modo da festa pagã Cristã, um espaço onde o machão não precise deixar de ser machista, onde a voz de sua carne possa e deva falar mais alto que a da razão e a das mulheres, uma vez que no restante do ano ele certamente não gozará de tamanha, todavia indevida liberdade.

Então, às perguntas iniciais, quais sejam: ‘que querem estes homens regredindo nos pouquíssimos passos que os homens em geral deram no sentido da igualdade, liberdade e dignidade das mulheres?’, e, ‘que querem as mulheres prestigiando uma festividade que não lhes garante o devido prestígio?’, as respostas são as seguintes: os machistas-de-bloco-de-carnaval, na verdade, querem dizer que, embora aceitem superficialmente a igualdade entre eles e as mulheres, subterraneamente, seus demônios lhe dizem o contrário. São estranhamente sinceros e corajosos no carnaval, porém, mentirosos e covardes o resto do ano. Já as mulheres que, longe de deverem deixar de “brincar o carnaval” para não serem desrespeitadas, levam suas igualdades e dignidades para a avenida e lá são desrespeitadas, achincalhadas, arroxadas, estas mulheres, lá, outra coisa não devem querer senão o respeito que ainda não têm.

Assim como os homens –e os machistas odeiam enxergar isso-, as mulheres são muito corajosas, e deixam isso bem claro inclusive ao não se privarem do carnaval apesar dos riscos que correm. A coragem carnavalesca delas, entretanto, é absolutamente superior, pois, diante da coragem maléfica dos machistas-de-bloco, a coragem delas outra coisa não sustenta que o bem, que, para nós, é a liberdade de ir e vir, de beijar ou não beijar e, sobretudo, a dignidade de uma natureza não violenta que não soca olho alguém por conta de um beijo negado. Embora o maniqueísmo Cristão entre bem e mal esteja desacreditado, pois desde a modernidade sabemos que bem e mal não existem na natureza senão relativamente, em relação ao machismo o mal ainda não deve deixar de ser identificado, e, em relação a igualdade entre homens e mulheres, o bem ainda é seu melhor predicado.

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