Um brinde à filosofia de botequim

Filosofia significa, literalmente, amor (philia) à sabedoria (sofia). Ao contrário do que os doutores, pós-doutores e pós-pós-doutores tentam nos convencer, “filósofos nunca foram sábios, são apenas perguntadores, provocadores dispostos à aventura do conhecimento”, relembra-nos a filósofa Marcia Tiburi. Então, por mais que a filosofia, desde a modernidade, seja refém da Academia, esse não é e não deve ser o seu único lugar. Entretanto, quando alguém alheio à Torre de Marfim Acadêmica ama o conhecimento, pergunta-o, provoca-o, ou seja, filosofa, muitos dizem que se trata apenas de vã filosofia, ou o que é mais pejorativo ainda, filosofia de botequim. Por que tamanho preconceito?
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Desqualificar filosofias alternativas, “botequinescas”, é querer fazer desaparecer que “a filosofia era em seu início mais que um desejo de saber: ela existia como circunstância do “estar junto” de homens (pessoas) que compartilhavam o mesmo ideal da contemplação”, diz Tiburi. Ora, Sócrates filosofava ao vivo, junto de outros homens, caminhando, bebendo vinho, olhando a paisagem… Vivendo e filosofando! Afinal, aponta Tiburi, “o mundo e a vida são para nós o que podemos conhecer”. Na verdade, foi com Platão que a filosofia passou a ser uma solitária conversa da alma consigo mesma.
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Sócrates, ao contrário de Platão e de todos os que vieram depois, nunca escreveu uma linha do que filosofou. Era no diálogo com os outros que sua filosofia nascia, não para morrer no esquecimento, obviamente, visto que seu pensamento vive até hoje. Os acadêmicos, todavia, retrucarão seguros de si: se não fosse Platão ter escrito sobre a filosofia socrática não teríamos conhecimento dela! Contra estes, nas palavras de Tiburi, para o próprio Sócrates “a escrita era mera documentação, mera história, não filosofia. A filosofia não era algo que se realizava pelo texto”.
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Com efeito, conta-nos Tiburi, foi o “endeusamento” do livro pela tradição cristã medieval que deixou de herança para a tradição filosófica o texto escrito como lugar da verdade. Entretanto, a crença de que a filosofia devia ser escrita filosófica, além de levar à separação entre filosofia e realidade, separou também a filosofia de si mesma ao separá-la de seu modo primordial. Como se isso não bastasse, a modernidade filosófica, enquanto filosofia estritamente textual, acadêmica, finalizou burguesamente a cisão entre intelectuais e proletários, tão oportuna àqueles e tão desfavorável a estes.
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E não adianta dizer que os intelectuais tem grande conhecimento e que os proletários não, pois, de acordo com Tiburi, “filosofia é a liberdade do pensar; e que pensar começa com o pensar em nada”. Nietzsche mesmo, em pleno século XIX, dizia que filosofia outra coisa não era senão autoconfissão. E todos temos muito a confessar, seja na Academia, seja no botequim! Todavia, a Academia, por meio de sua filosofia exclusivista, quer mesmo esconder que qualquer um pode fazer a pergunta fundamental, qual seja, nas palavras de Tiburi: “a quem sirvo enquanto não acordo para o meu próprio potencial hermenêutico, ou seja, para a minha habilidade em interpretar o que há; em outras palavras, o que posso pensar e dizer sobre algo?”; sobre o mundo?; sobre a vida?
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Porém, onde podem filosofar os proletários, os bêbados, os leigos? Na Academia-bunker da “Intelligentsia”? Nas doze horas dentro da fábrica ou nas poucas horas em que dormem exaustos da fábrica? Obviamente não. A oportunidade de os “comuns” perguntarem-se e provocarem-se uns aos outros em função de um conhecimento que lhes falta, mas ao qual amam, é enquanto caminham juntos da cama ao posto de trabalho, quando fazem suas refeições juntos ou quando bebem em volta de uma mesa de bar nas suas parcas horas livres. É em circunstâncias banais como estas, na verdade, que vive o “o que é?” desacademicizado, que, no entanto, só não é considerado filosofia pela intelectualidade porque esta ainda deseja preservar a sua vã superioridade.
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Academia X fábrica, Academia X botequim, ou seja, Academia X vida enquanto manutenção da desigualdade social. No entanto, também desigualdade da filosofia em relação a ela mesma, pois, desqualificando as “filosofias de botequim”, a intelectualidade apenas nubla a universalidade da própria filosofia. Portanto, à moderna, acadêmica e burguesa filosofia que, com Descartes, nasce do “penso, logo existo” deve ser contraposta a sempiterna, leiga e sem classe filosofia que precisa de um único axioma para filosofar, qual seja, nas palavras de Márcia Tiburi: “Penso, logo penso”. Afinal de contas, diz a filósofa, “a filosofia é algo ‘em comum’ desde os seus primórdios”. Brindemos e filosofemos ao mesmo tempo! E que melhor lugar que o botequim para tal?
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