Deus, a ideia ecológica

Deus existe? Para o crente, sim. Para o ateu, não. Já para o agnóstico, impossível dizer que sim nem que não. Porém, uma coisa nenhum dos três pode negar: a existência da ideia de Deus, a partir da qual, aliás, uns podem crer nEle, outros, negá-Lo, e outros ainda serem céticos a Seu respeito. Portanto, antes de sabermos se Ele existe ou não, devemos prestar atenção na ideia que temos dEle para sabermos se esta ideia convém ou não a um Deus existente. Caso contrário, crer, descrer ou ter dúvida a Seu respeito é só uma postura vã diante da nossa própria ignorância acerca do teor de uma ideia nossa. E uma vez ignorantes em respeito à maior ideia que podemos ter, qual seja, a de Deus, tudo o que é igualmente imenso, por exemplo, a natureza, também é ignorado. E como temos sido ignorantes em relação a ela!

Preterir a existência de Deus em função de Sua ideia, entretanto, não é tarefa fácil. René Descartes, filósofo que inaugurou o pensamento moderno, não escapou de colocar a carroça na frente dos bois e privilegiar a existência de Deus em detrimento da ideia dEle. Depois de metodicamente excluir qualquer certeza de sua mente, para ficar com apenas uma, a respeito da qual não tinha como haver dúvida, qual seja, a de que ele, Descartes, pensava, logo existia, o filósofo quis saber se as suas demais ideias, das quais não tinha a mesma certeza, eram verdadeiras ou falsas. Sua solução: se verdadeiras, Deus não lhe enganava, era veraz; se falsas, em troca, Deus seria enganador.

A existência de um Deus enganador, entretanto, é contrária à perfeição de um Deus. Como poderia Deus prescindir da verdade? Porém, o Deus cartesiano, em determinado momento, esteve sob suspeita de ser enganador, mentiroso. O despautério da dúvida cartesiana acerca da veracidade ou da falsidade de Deus se deu porque o filósofo partiu da existência certa de Deus antes de verificar se a ideia que tinha dEle, que lhe convencia de que Deus existia, estava ou não errada, se cabia só a Deus ou se, antes, era a ideia de um ser imperfeito que, por algum motivo, precisa enganar para ser. A onipotência dEle dispensa a mentira, e a Sua onisciência, o priva disso.

Foi Baruch Spinoza, um filósofo judeu, que esclareceu a confusão de Descartes: se Deus, por um instante sequer, pode parecer enganador, a ideia de Deus da qual se parte é que está errada. Ora, se a ideia de Deus é a mais perfeita ideia que podemos ter, aponta Spinoza, dizer que Deus não é enganador depois de haver suposto que Ele poderia nos enganar só comprova que não se tem a ideia verdadeira dEle, mas uma ideia cujo ideado bem poderia ser um homem, este sim capaz de mentir e de toda a sorte de imperfeição.

O feito de Spinoza, portanto, foi ter deslocado a questão acerca da existência de Deus para a da ideia de Deus. Nas palavras de Marilena Chaui, “de nossa ignorância quanto à existência de Deus para a ignorância quanto à ideia verdadeira de Deus”. Para Spinoza, ainda que Deus pudesse não existir, Sua ideia nas nossas mentes, que existe, é que deve ser perfeita. Do contrário, como foi dito, o crente, o ateu e o agnóstico estarão apenas tomando postura em relação às suas respectivas ignorâncias, assim como Descartes, que, guiado por sua ideia inadequada de Deus, cogitou a possibilidade de Ele ser enganador.

Embora Spinoza tenha sido acusado de ateísmo, excomungado pela Igreja Católica e expulso de sua comunidade judaica, o filósofo acreditava tanto na existência real de Deus que, para ele, Deus era a própria natureza: Deus sive natura (Deus, ou seja, a natureza). Então, não é que Spinoza achasse que existia apenas a ideia de Deus, mas que ela deve ser a primeira coisa que devemos observar antes de acreditarmos ou não na existência de um Deus conforme essa ideia. Não obstante, o que prova que Spinoza tenha partido da ideia verdadeira de Deus para, por meio dela, chegar à existência verdadeira de Deus enquanto a natureza?

Pensemos nas coisas que existem na natureza: as pedras, as plantas, os animais, os planetas, as galáxias até. O que as causou? A natureza. Quem mais? E esta, que tudo causa, quem a causou? Para não ficarmos pressupondo naturezas criadoras de naturezas, o que seria absurdo, além de um trabalho infinito, Spinoza resolveu essa questão provando que a natureza não foi criada por nenhum outro ser senão por si mesma. Para o filósofo, a natureza é causa de si mesma e de todas as demais coisas. É dessa ideia de natureza causadora de si mesma que Spinoza partiu para nunca duvidar de que ela, ou Deus, pudessem ser enganadores.

Com Spinoza podemos perceber que, acreditando-se ou não em Deus, uma ideia inadequada de Deus produz em nós uma ideia outrossim inadequada da natureza. Então, tanto o crente, quanto o ateu e o agnóstico, de posse de vil ideia, outra coisa não são além de vilões da natureza, podendo até cogitar, como Descartes, que ela engana, que pode nos fazer algum mal, ou que é preciso nos proteger dela, quando, na verdade, é apenas uma ideia errada de Deus na nossa mente, à qual nos atemos, que inicia a confusão toda.

E em tempos de destruição da natureza pelo homem, temos de nos perguntar se a sistemática antiecologia humana não é fruto direto da má compreensão da ideia de Deus que temos em mente. Pensemos, portanto, não se Deus existe ou não existe, mas, antes, na ideia dEle, que existe em nossas mentes, independentemente de sermos crentes, ateus ou agnósticos, até que tenhamos uma ideia de Deus que não comporte nenhuma imperfeição ou dúvida. Desse modo, partindo dessa ideia, é à existência da natureza conforme ela causou a si própria que chegaremos. E diante de tal perfeição, quem sabe, não a destruamos mais.

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