A caverna X

“The X-Files”, o antológico Arquivo X de Chris Carter, está de volta, 23 anos depois, com Dana Scully e Fox Mulder novamente envolvidos com casos de fenômenos paranormais sistematicamente ocultados pelo governo americano. Está de volta também o mais famoso slogan da série: “The Truth Is Out There” (A verdade está lá fora). Aqui, a analogia com a alegoria da caverna, de Platão, na qual a verdadeira realidade “está lá fora” da caverna, é inevitável. O que Platão teria a dizer sobre a volta do Arquivo X? Provavelmente, que o seriado, em 2016, está mais platônico do que nunca. Por quê?

Ora, em 1993, os investigadores lidavam com fenômenos paranormais que não podiam ser revelados. Agora, em 2016, eles tratam de fenômenos demasiadamente normais e sistemáticos do próprio governo americano que, ocultando-se sob a provável existência de seres extraterrestres, busca ocultar senão o seu plano, assaz humano e nada secreto aliás, de dominar da humanidade. Hoje, os desconhecidos extraterrestres são só os bois-de-piranha do sórdido poder terrestre. Todavia, por que isso é mais platônico?

Na alegoria do pai da filosofia, os homens viviam no interior da caverna, entretidos por um ininterrupto espetáculo de sombras projetado no fundo da caverna por titereiros – políticos? -, cujo objetivo era fazer com que as sombras fossem tomadas pela realidade em si. Desse modo, ninguém desconfiava que havia uma realidade verdadeira “out there”, e assim os manipuladores – políticos? – sustentavam o mundo mentiroso no qual os homens permaneciam ignorantes acerca do real. Então, um dos iludidos – Platão? – percebe a farsa na qual está imerso, levanta-se, deixa o teatro de sombras para trás e, saindo da caverna, encontra a dura luz da realidade verdadeira, para, só então, retornando à caverna, contar aos demais que lá dentro há só mentiras.

Na alegoria de Carter, enquanto na sua primeira versão eram os extraterrestres a verdade oculta que estava “lá fora”, que nem o governo americano nem os investigadores-x conseguiam entender e esclarecer plenamente, toda a humanidade era cativa da caverna. Se “todos nós somos essas pessoas da caverna, então, como poderíamos, mergulhados no espetáculo da caverna, subir em nossos próprios ombros, por assim dizer, e entrar na realidade verdadeira?”, pergunta Slavoj Žižek, na sua “A visão em paralaxe”,

No primeiro Arquivo X, portanto, a humanidade inteira estava alienada da verdade alienígena externa. O governo americano, embora ciente da existência dos E.T.s, permanecia ignorante em relação aos propósitos deles e manipulados por eles. Ou seja, ainda preso na caverna. Até Fox Mulder, o investigador obsessivo que bem poderia fazer o papel do filósofo que desconfia da ilusão intracavernosa e que dela escapa, mesmo repetindo incessantemente outro slogan famoso, “I Want to Believe” (eu quero acreditar) – na existência de alienígenas -, inclusive ele permanecia cativo da caverna, uma vez que era sistematicamente desencaminhado de sua intuição pelo governo americano.

Agora, com os E.T.s sendo só mais uma das sombras mentirosas projetadas pelo titereiro governo americano, senão para que as pessoas não desconfiem da sórdida realidade política que este mesmo governo empreende “out there”, temos que o seriado assume de vez a ideia da caverna platônica: são sempre titereiros terráqueos, e não alienígenas, que criam o espetáculo mentiroso que aliena o restante da humanidade da verdadeira realidade.

O “Trust No One” (Não confie em ninguém), outro slogan que sempre estruturou a trama do seriado, na sua versão atual faz com que a caverna na qual os cidadãos americanos se encontram seja mais parecida ainda com a caverna platônica. “Não confie em ninguém” não quer dizer que não devamos confiar uns nos outros, afinal, como apontou Žižek, estamos todos acorrentados e iludidos pelos titereiro-mor. Enquanto iludidos, somos, uns para os outros, a obscura, porém resistente verdade da mentira da caverna.

“Trust no one”, agora, refere-se apenas ao titereiro-mor, qual seja, o governo americano, que, mais do antes, precisa que permaneçamos na caverna, bastante iludidos, obesos, sedentários e consumidores. Mais do que ocultar uma verdade extraterrestre que, se aclarada, abalaria a humanidade, o governo americano precisa ocultar uma verdade absolutamente terrestre: a verdade dos seus planos. Esta sim, se iluminada, causaria uma perigoso abalo, não à humanidade, que estaria como que liberta da caverna, mas nos planos do próprio governo americano e na sua estratégica caverna.

Mulder nunca confiou no seu governo. Porém, sua desconfiança nunca o levou para fora da caverna, onde a luz da verdade brilha gratuita. Também pudera, desde 1993, esteve procurando por verdades extraterrestres, que, somente hoje, em 2016, mostram-se plenamente terráqueas. Não saiu da caverna porque, esse tempo todo, esteve entretido com uma sombra! Agora, pelo menos sabe que a escuridão da qual nunca se viu livre não se dá porque ele desconhece os aliens, mas porque estes foram a sombra com que o titereiro-mor manteve viva a escuridão mentirosa.

Saber disso, entretanto, é o início da trilha que levará Mulder definitivamente para fora da caverna, ou, antes, já é o próprio exterior iluminado? Se, na alegoria platônica, quando o filósofo sai da caverna a luz é insuportável, e se, na alegoria X, Mulder sente mais vontade de luz ao ver o lampejo da verdade, temos que a sordidez aclarada dos desígnios do governo americano não é o “out there” ainda. Até porque tal sordidez atravessa a realidade X, e um seriado que retornasse depois de 23 anos para se resolver no seu primeiro episódio, estaria completamente fora da realidade que quer aclarar.

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