Pandorgas cariocas

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A minha janela, doze andares acima do asfalto, encara anã o imponente Morro do Cantagalo, pedra incrustada no coração da zona sul carioca, tão alta e íngreme que sequer a vegetação consegue se fixar. Pedra estéril? Muito pelo contrário! No seu topo, acumulada feito neve perene, a favela Pavão-Pavãozinho, cobertura artificial que antagoniza com a não menos artificial Copacabana asfaltada.

A dialética favela-asfalto resiste à síntese na cidade maravilhosa que pretere os seus pobres bastardos urbanos. Cientes da falácia-placebo homeopaticamente repetida no asfalto, qual seja, “a praia é o lugar mais democrático do mundo”, os “favelados” só encontram essa coisa chamada cidadania dentro dos limites das suas comunidades

Por isso a molecada do Pavão-Pavãozinho gosta brincar lá em cima da enorme pedra mesmo. Em dia de vento, empinam pipa e colorem o céu com brinquedos de uma infância não totalmente digitalizada. Não adianta, para mim, será sempre lindo ver uma criança brincar com um brinquedo analógico, coisa cada vez mais rara nos playgrounds do asfalto.

As pipas cariocas, no entanto, não são só brinquedo de criança inocente, mas também instrumento de gente grande, usadas para comunicar, qual sinal de fumaça, ou algum acontecimento à própria comunidade, ou, ao asfalto, que “chegou droga na favela”, mais ou menos como os chineses que, em 1200 a.C., já as usavam como sinalização militar: cada movimento e cor era uma mensagem estratégica específica.

No sul do Brasil, “pipa” é chamada de “pandorga”. Oriunda do espanhol, pandorga significa cantoria, serenata ruidosa, mas também bebedeira, boemia. Por isso o brinquedo aéreo foi chamado de pandorga, afinal, seu voo sacudido lembra o andar incerto de um bêbado. As errantes pipas, além de fazem a alegria da molecada -carioca-, relembram-nos do significado -espanhol- de “pandorga” e também mantêm viva a função -chinesa- primeira do objeto.

Uma dessas pandorgas cariocas erráticas “da favela” entrou pela minha janela “no asfalto”. Tomei-a nas mãos e fiquei, por alguns instantes, observando, nostalgicamente, a simplicidade acessível do brinquedo feito apenas com duas varetas de bambu, um losango de papel-seda vermelho, cola, uma “rabeta” e uma linha.

Quantas tardes inteiras a minha infância não ganhou com esse artesanato-brinquedo que em meia-hora eu mesmo conseguia confeccionar! Hoje em dia, infelizmente, a minha “pandorga” vespertina oficial é o iPad, brinquedo sofisticado que, no entanto, eu não sei nem nunca poderei produzir.

De repente, a pandorga é puxada. Seguro-a mais firmemente. Outro puxão. Aproximo-me da janela e observo a linha até onde ela parecia desaparecer no ar. Mais um puxão. Minha curiosidade se aguça e meus olhos avançam um tanto mais no sentido da quase invisível linha. De puxão em puxão, encontro, do outro lado da linha esticada sobre os altos prédios de Copacabana, uma criança, sobre a laje de uma casa, lá de cima da pedra do Cantagalo. Embora os mais ou menos quatrocentos metros que nos distanciavam não permitissem que eu visse a “cara” da criança, é como se ela me encarasse.

Antes de eu descobrir o “pandorgueiro”, ele já havia me descoberto. Fiquei absorto na singela conexão entre favela e asfalto que a pipa havia proporcionado. No entanto, o garoto não parava de pedir de volta o seu brinquedo por meio de puxões cadenciados lá da outra ponta da linha que ainda tinha em mãos. Eu ainda mantinha a pandorga nas minhas não porque a queria para mim. Sabia que era dele e que a ele deveria retornar. Era a magia da conexão que eu não queria perder.

Ele começou a puxar o fio cada vez mais forte. Então, com medo de que a linha se rompesse, e que o moleque ficasse sem o seu brinquedo, entrei no ritmo dos seus puxões solicitantes e, na hora que me pareceu a “H”, soltei a pipa para que ela alçasse voo novamente. Deu certo! Mal a pandorga voltou ao céu, achei ter visto o moleque sorrir. Porém, como na verdade eu não conseguia ver nada além de sua silhueta magrela, tive certeza de que esse sorriso moleque meu.

De mãos vazias, mas com o sorriso cheio, debrucei-me na janela, feito busto-de-mulata, “brincando” de ver o garoto brincar, como se a brincadeira fosse minha e dele. Frágil síntese entre o asfalto-tese e a favela-antítese. Acidente feliz que trouxe, pela janela, a lembrança das tardes simples da minha infância à uma tarde complexa da minha vida adulta. Linha do tempo? Sim! A errática pandorga me distanciou décadas do meu “assertivo” iPad.

Conexão inócua, dirá o comunista que não viu reduzir a diferença entre o asfalto e a favela na efêmera brincadeira dos dois. Porém, assim como a linha que os conectou materialmente não foi arrebentada, mas, antes, serviu para que o o brinquedo voltasse ao brincante, deixo aqui o companheiro comunista a sós com o seu lema: “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”.

Que a praia não é o lugar mais democrático, como insiste o asfalto, a cisão favela-asfalto ainda deixa bem claro. No entanto, aquela pandorga que entrou pela minha janela pelo menos criou uma ágora etérea e efêmera onde dois cidadãos, social e urbanisticamente cindidos puderam se encarar e, mediados pela retórica ritmada do cerol, decidirem que a brincadeira na polis podia e devia seguir. O moleque, brincando com a sua pandorga de verdade, e eu, com a minha, o meu iPad, no qual brinco de contar da brincadeira que tive com ele.

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