O design do dasein

Dasein é uma palavra alemã que significa ser-aí ou ser-aí-no-mundo. Expressão sobejamente “latifundiada” por Heidegger para significar “homem enquanto ser que pode questionar os outros seres”, no contexto geral da filosofia, no entanto, é sinônimo para existência. Mais especificamente, aquilo cuja existência pode ser conhecida por nós. Baseado nesta última significação, a água, por exemplo, é indubitavelmente existente, é-aí-no-mundo pois é conhecida por nós por ser líquida, incolor, insípida e inodora, tal é o seu ser-aí.

Já da controversa quintessência, isto é, aquele quinto elemento do qual, segundo Aristóteles, seria composto o universo, ou, para os místicos, a essência que comporia os espíritos, dela podemos dizer o quê? Como conhecê-la, ou sequer ter certeza de sua existência, se ela não tem um dasein, ou seja, um ser-aí-no-mundo mediante o qual possamos conhecê-la?

O que tem a água, e o que falta à quintessência, para que sejam conhecidas por nós? Dasein! Existência! Um ser-aí-no-mundo! Responderiam, sem erro, os dois parágrafos acima. Materialidade, ora bolas! Diria um materialista. Porém, a existência é um conceito metafísico, isto é, está para além da física. Então, seres imateriais, como o amor, a justiça, a esperança, também são-no-mundo, pois fazem-se conhecer apesar de suas tácitas idealidades.

Agora, o que faz com que o amor seja-aí-no-mundo, e a quintessência não, visto que ambos são ideias? Em outras palavras, qual a forma de um Ser para que ele possa cumprir a função de ser-aí-no-mundo, de ser conhecido por nós? Ora, quando falamos de forma e função, e da relação de uma com a outra, não estamos mais no terreno da metafísica apenas, mas também no do design. Então, metafisicamente falando, qual é o design do dasein?

Design, todavia, é uma palavra inglesa, oriunda do Latim “designare” (de=fora; signare=sinalizar) que, ordinariamente, quer dizer: desenho; plano; projeto. Uma análise mais conceitual, porém, dirá que “designar”, ou seja, “sinalizar-fora”, significa “expressar”. Então, a pergunta: “qual é o design do dasein?”, também é esta: qual é a expressão do dasein? Ou ainda: o que expressa o ser-aí?

O conceito clássico-bauhausiano de design diz que “a forma deve seguir a função”. O design de uma cadeira, por exemplo, deve fazer com que ela realize apenas as funções de assentar e recostar uma pessoa. Para tal, um acento, um encosto e quatro pés bastam. Qualquer coisa além disso, como ter braços, ser estofada ou giratória está para além da função de uma cadeira, para além do seu design; não pertence, portanto, à essência da cadeira.

Aqui, metafísica e design se encontram na busca das essências; tratam do que é fundamental a uma existência qualquer. Embora o design seja vulgarmente relacionado ao que tem materialidade, o seu ideal primeiro são as essências das coisas. O design, portanto, possui  uma dimensão assaz metafísica: pensa para além do que é físico, material. Por isso o design, que é a racionalidade entre forma e função, pode participar filosoficamente da explicação da forma mínima da função “existência”, isto é, do dasein.

Qual é, então, a forma mínima à função “existência”? O que a existência não pode dispensar para continuar existindo? O que o ser-aí precisa ter para seguir sendo-aí? A metafísica pura titubeia nesse momento, pois, para ela, a existência já é “a” forma mínima de todo ser-aí. O design, por sua vez, pode dizer mais, pois, para ele, o que realmente importa é o ser-aí-NO-MUNDO das coisas, ou seja: o ser-aí-das-coisas-para-nós-humanos-na-nossa-mundanidade.

Então, para o design, o dasein, ou seja, o ser-aí-no-mundo, deve constar de, no mínimo, três existências: a nossa, a do mundo, e também a existência de uma relação entre aquelas duas existências. Aqui, para a graça da filosofia, os conceitos genérico e heideggeriano de dasein se reencontram! A função “existência”, o dasein, portanto, para ser um objeto de puro design, deve se realizar minimamente com as formas humana, mundana, e com a forma do homem se relacionar com o mundo que ele mesmo é/cria/conhece.

Revisão: Sarah Barreto

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