Realeza X realidade

Real se diz tanto daquilo que existe, que é, como também daquilo que envolve os reis. Estes, intrigantemente, são os dois reais ao mesmo tempo: primeiro, porque existem, e, segundo, devido às suas respectivas realezas. Por isso os reis eram considerados sobre-humanos pelos seus súditos, afinal, duplamente mais reais do que eles. Entretanto, essa sobre realidade régia é uma construção assaz contraditória, portanto, insustentável.
 
A realidade física que os reis compartilham com seus súditos faz deles seres tão ordinários quanto estes. Tal é a natureza. Porém, os reis escapam dessa ordinariedade existencial por via de suas realezas, que, metafisicamente, fazem com que eles, e somente eles, tenham uma outra realidade que a dos súditos, uma sobrenatural, por meio da qual jazem acima da existência banal, primeira.
 
Deparei-me concretamente com a dupla realidade da realeza no Palácio de Versalhes, construído por e para Luís XIV, rei da França. Na materialidade do palácio, nas suas formas assaz requintadas, reconheci o original de que muitos cenários de filmes e óperas, e também os pastiches arquitetônicos, são cópias. Que Versalhes é real porque existe, não há dúvida. Que é real por ser a residência de Reis, também. Todavia, aqui vimos que é real também por ser o original de onde suas muitas cópias/imitações provieram.
 
Primeiramente, fiquei intrigado com a imensidão e o luxo do palácio de Versalhes. Seus setecentos aposentos, todos revestidos com mármores raríssimos e brocados caríssimos, os magníficos candelabros de cristal, a mobília extravagante, chamada de Estilo Luís XIV em homenagem ao rei que construiu e decorou o palácio para si, e, sobretudo, o estonteante Salão dos Espelhos, tudo isso me dizia uma única coisa: sofisticação!
 
Vulgarmente, falamos que uma coisa é sofisticada quando queremos dizer que ela é chique, requintada. Não obstante, “sofisticar” deriva de “sofismar”, ou seja, de falsificar. Platão deixou bem claro nos seus diálogos: um sofisma é um argumento falso. Então, afirmar que a realidade exclusiva dos reis precisa de sofisticação para existir acima da realidade dos súditos, outra coisa não é que dizer que os reis precisam de falsidade para serem reis.
 
Por que, então, tal falsidade, tal sofisticação, é chamada de “real”, se a falsidade, que é oposta à verdade, também o é em relação à realidade? Ora, o que não existe, não é real, tampouco verdadeiro. A realidade sofisticada dos reis, portanto, precisa envolver uma contradição, visto que não é possível algo falso, sofisticado, ser real. Todavia, é justamente essa “realidade contraditória” que faz com que o reis sejam duplamente reais.
 
Aqui é preciso perguntar: é o rei que gera a contradição, ou, antes, é esta que gera aquele. Bem, nem sempre houve reis, e, nessa época, uma única realidade era compartilhada por todos. Porém, historicamente, a concentração de poder nas mãos de alguns fez com que a realidade destes parecesse ou devesse parecer diversa da realidade dos desapoderados. E, no limite do poder, os reis, aqueles cujas sobre realidades falsificadas, produzidas estrategicamente em função do poder, são mais importantes que a realidade ordinária, primeira, natural.
 
A contradição intrínseca da realidade exclusiva dos monarcas produz uma “realidade” mais real que a própria realidade. No entanto, como vimos, sofisticada, portanto falsa. O problema dessa falsidade, é tornar menos real justamente a realidade primeira e inalienável que lhe tornou possível. Desse modo, a realidade régia, diminuindo a realidade ordinária sobre a qual se fundamenta, apenas reduz a estabilidade dessa sua realidade forjada. Por isso insustentável;
 
Talvez por isso a realidade sobrenatural de reis, como por exemplo a de Luís XIV, que construiu o Palácio de Versalhes precisamente para estimular tal sobrenaturalidade, venha desaparecendo ao longo da história. Não que a república, forma de governo que superou a monarquia absoluta, deixe de prescindir de uma realidade ligeiramente outra que a dos cidadãos. A diferença, entretanto, está em que a realidade republicana não está aí para reduzir a realidade comum dos cidadãos, mas, ao contrário, fazer com que ela seja, de fato, “o” real, sem nenhum real ulterior.
 
Portanto, se “real” se diz daquilo que existe e daquilo que envolve os reis, mas esta última realidade, a da realeza, é falsa, sofisticada, essa última significação não possui um objeto real por natureza. Em segundo lugar, pelo fato de a sofisticação do real intrínseca à monarquia estrategicamente reduzir a realidade do real primeiro, visto que só assim pode ser mais real do que ele, outra coisa não faz senão tentar eliminar o único objeto verdadeiramente real, qual seja, a realidade ordinária da natureza compartilhada por todas as pessoas.
 
A república foi resposta história para esse problema. Entretanto, a superação da monarquia não eliminou a possibilidade de alguns poucos produzirem e vivenciarem realidades exclusivas, superiores, que, entre outras coisas, permite-lhes ir contra a lei comum. A diferença entre o cidadão e o súdito, entretanto, está em que o real mais elevado, para aquele, é res pública, enquanto que, para este, é res exclusiva do rei. Portanto, a sofisticação de templos do poder, como Versalhes, é a falsidade de uma realidade imprópria minando e solapando a realidade propriamente dita, inalienável: o real ele mesmo.
 
 
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