A lógica dos monstros: de Aristóteles à Lady Gaga.

O que é um monstro? Qual é a lógica da monstruosidade? Antes de imaginarmos figuras ficcionais hollywoodianas, que somente nos afastariam da concretude dos monstros que habitam o nosso “mundo real”, tentemos enxergar essa monstruosidade justamente em pessoas como nós, que, entretanto, por algum(ns) motivo(s) assim são consideradas.
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 Hitler, aqui, não seria o exemplo de monstro ao qual queremos chegar. Antes, o líder nazista seja talvez o maior produtor de monstros da história. Ora, o que foi o Estigma Judeu, na Segunda Grande Guerra, senão a maior empresa de monstruosidade da história? Para construir o seu ideal, Hitler precisou produzir a monstruosidade dos judeus, a “desnormalização” absoluta deles, para com isso dar algum sentido à estratégica “normalidade” alemã – que, na verdade, era um projeto de superioridade.
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Jota Mombaça, mais conhecido Monstra Erratika, corrobora com essa ideia colocando que os monstros são construções sociais produzidas por aqueles que desejam ostentar o rótulo da “normalidade”, cunhado, entretanto, às custas daqueles que a priori são privados do direito de definirem a si mesmos conforme suas naturezas individuais. Essa é uma definição moderno-contemporânea bastante apropriada. Todavia, não é a única.
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Aristóteles, há mais de dois mil anos, já havia escrito a sua Lógica dos Monstros, isto é, a sua Teratologia. Para o filósofo antigo, monstro era quem não tinha capacidade para atualizar a potência de sua natureza. Se, por exemplo, um homem devesse ser a atualização das potências de falar, caminhar, reproduzir etc., mas por alguma contingência da natureza é mudo, aleijado ou estéril, eis um monstro: aquele que nunca poderá atuar a potência humana em toda a sua plenitude.
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Se para Aristóteles os monstros eram produções da própria natureza, para Monstra Erratika, ao contrário, são construções sociais. O próprio Mombaça é um desses monstros socialmente construídos, pois, pelo fato de ser, segundo ele, uma “bicha gorda transex” em um mundo vitimado pela “normalidade”, ele é a priori tomado enquanto monstruosidade, pois ameaça justamente a pretensa normalidade a qual a humanidade crê que deve estar restrita.
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A Teratologia aristotélica, é preciso esclarecer, é física. Isto é, é a natureza, a própria “Physis”, que cria os seus monstros. Já os monstros de que fala Mombaça são produzidos socialmente, pela necessidade social de uma “atmosfera de normalidade” que, entretanto, precisa da anormalidade para se definir. Nesse caso, não seria a Teratologia Modernocontemporânea a própria Sociologia enquanto a Lógica da produção de monstros colaterais que sustentam a “normalidade central” da sociedade?
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Lady Gaga, musa Pop de adolescentes cujas sexualidades não encontram lugar no estreito hall da normalidade, chama seus milhões de fãs de “little monsters”, ou seja, pequenos monstros. Eles mesmos orgulhosamente se auto intitulam “monstrinhos”. Não seria essa aderência deliberada dos seguidores de Gaga à monstruosidade um ato absolutamente subversivo em relação à normalidade hegemônica de uns que, para ser, precisa pressupor a monstruosidade de outros?
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Mediante sua efêmera fama, Gaga ousou abrir num mundo verticalmente normatizado um espaço clandestino de conforto, de normalidade, quiçá de orgulho, àqueles que, por suas naturezas, sentem-se oprimidos pelo fato de não serem “normais”, nesse caso, Heterossexuais Cisgênero. Por isso, há uns três anos, Gaga lançou o álbum chamado “Born This Way”, cuja mensagem central era: não se culpe nem se deixe culpar pelo que você é, você é “Nascido(a) Assim”.
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Agora, não estaria Gaga, com o seu “Born This Way”, fazendo um Remix da teratologia de Aristóteles com a Sociologia-monstruosa-modernocontemporânea de que fala Mombaça ao dizer que, por um lado, a monstruosidade socialmente produzida é mentirosa, condenável, e, por outro, que o que realmente importa é o “jeito” como seus fãs nasceram, mas, ainda assim, chamando-os de “Monsters”?
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Gaga enfrenta a modernocontemporaneidade livrando os seus seguidores da monstruosidade justamente sem abrir mão do famigerado rótulo “Monstro” com o qual essa mesma modernocontemporaneidade tenta oprimí-los. E, ao sustentar que “normal” é qualquer “jeito” que uma pessoa nasça, e mesmo assim insistir que essa pessoa seja chamada de “monster”, outra coisa não faz senão levar Aristóteles ao extremo.
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A lógica dos monstros de Lady Gaga extrapola a teratologia aristotélica dizendo que, independentemente de como nascemos, ninguém é capaz de atualizar toda a potência disso que chamamos “Ser Humano”. Para a estrela Pop, a normalidade seria a assunção da impossibilidade de qualquer pessoa concreta atualizar, em si mesma, a potência dessa abstração que é conceito de humanidade que insiste em nos cercar.
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Para a “Mother Monster” Gaga, para a Monstra Erratika de Mombaça, e para o maior “monstro” da história da filosofia, Aristóteles – todavia, no caso de sua teratologia ser levada ao extremo -, ser “normal” é ser um monstro; é estar concretamente no mundo atualizando não exatamente a nossa potência de sermos humanos, mas principalmente a nossa impotência de sermos plenamente humanos conforme a abstração “Ser Humano” tenta nos convencer.
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