Uma pequena história da Moda

Nem sempre a Moda esteve “na moda”. Antes dela, o mundo e as coisas eram de determinado modo, e, ademais, deveriam ser exatamente do modo que eram. Mudá-los era ou burrice, ou pecado. Porém, nalgum lugar da história, as coisas precisaram mudar. Não para doravante serem de um outro modo e não mudarem mais, mas, ao contrário, para poderem mudar o tempo todo. Estamos falando, obviamente, da Modernidade, época na qual a humanidade passou a seguir modas, a inventar novos modos, novas maneiras para o mundo ser e de ser no mundo.
Antes da Modernidade não faz sentido falar em Moda. Para os gregos antigos, por exemplo, era irracional viver em função daquilo que muda o tempo todo. Racional, para eles, era se voltar para o que é sempre, o tempo todo, e não para o que muda constantemente. Aliás, não temos aqui o cerne da filosofia grega: a questão entre o Ser e o devir, ou seja, entre “o que é sempre” e “o que muda o tempo todo”? E Platão, por desprezar mais que todos o mundo da mudança e ser absolutamente fiel ao imutável mundo das ideias eternas, porventura não seria o “Inimigo Número 1” da Moda?
Já para os medievais, seguir modas seria, no mínimo, um grande pecado. Ora, se os cristãos da Idade Média aderissem às modas, outra coisa não estariam fazendo senão afirmar que aquilo que Deus criou certa vez, e que obrigatoriamente deveria ser perfeito e eterno, não era bom o suficiente, precisava ser mudado, melhorado. A perfeição divina, por conseguinte, desqualificava a priori qualquer outro modo de as coisas serem. A moda, a mudança, na Idade da Trevas, poderia apenas tornar o mundo menos perfeito do que já era. Por isso, enquanto Deus esteve vivo a Moda não entrou “na moda”.
Entretanto, na Modernidade, como Nietzsche deixou bem claro, Deus morreu. E “se Deus está morto, então tudo é permitido”, escreveu Dostoiévski no seu Os Irmãos Karamazov. Então, sem perfeição divina alguma solicitando que as coisas continuassem do modo irretocável como Deus as havia criado, a humanidade pode mudar o mundo e a si mesma a seu bel-prazer. Esse foi, portanto, o momento no qual a Moda entrou “na moda”.
A Pós-modernidade, que insiste em se colocar como sucessora da Modernidade, não deve todavia ser entendida como a Idade na qual a humanidade deixou de seguir modas. Aliás, o atual fluxo de mudanças que atravessa e constitui o nosso mundo deixa isso bem claro, não? Antes, a pós-modernidade deve ser vista como uma modernidade excessiva, uma “sobremodernidade”, como diria Marc Augé. Com efeito, a Pós-modernidade é a época na qual se é mais moderno que os próprios modernos. Portanto, a Moda está mais “na moda” hoje em dia do que na própria Idade das modas.
Atualmente, o suceder incessante das modas, a mudança contínua do mundo, se dá não por que o mundo-ele-mesmo se mostra defeituoso, carente de mudança, de melhoria. A Moda dos nossos dias muda o mundo simplesmente porque pode mudá-lo. Mesmo que as coisas estejam de modo que nos pareçam satisfatórias elas devem mudar. Sabemos, obviamente, que a histeria da Moda é aliada fiel do capitalismo. De outra perspectiva, Moda, Modernidade e Capitalismo podem ser vistos como um único Ser Histórico. Porém, isso já é outra história.
O objetivo aqui é ressaltar que se com os modernos a Moda entrou “na moda”, e isso porque as coisas deveriam mudar, entretanto, para serem de outros modos, necessariamente diferentes do já foram – “por que mudar”, perguntariam os modernos, “se é para voltarmos ao que já fomos?” -, para os pós-modernos, em troca, não há problema algum em elas serem novamente o que já foram em outras épocas. É perfeitamente normal a moda dos anos 1950, por exemplo, ser “a” Moda em algum momento dos anos 2015.
“Por que mudar somente no sentido de sermos diferente de tudo o que já fomos”, perguntariam os pós-modernos, “se podemos mudar inclusive para voltarmos aos nossos antigos modos de ser?” A Pós-Modernidade, portanto, é o espaço/tempo no qual a Moda é circular pelas modas, isto é: “ser de tal modo” que seja possível ser os diferentes “modos de ser” da humanidade; sejam eles atuais, sejam inéditos, sejam ainda aqueles que já experimentamos. Pecado, ou burrice, hoje em dia, é se privar dessa livre circulação pelos diversos modos de o mundo ser e de sermos nele.
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