Invejas tonalizadas

Inveja tem cor? Antes de responder que sim, vale lembrar que, para Spinoza, a inveja é uma tristeza que diminui a potência de agir de quem a sente. Talvez por isso seja tão vergonhoso confessar que sentimos inveja, afinal, é um afeto produzido por nós mesmos que produz a nossa própria impotência. Já aqueles por quem sentimos inveja não é afetado negativamente. Aliás, quando alguém percebe que está sendo invejado, geralmente experimenta aquele orgulho abjeto chamado vanglória.
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Então, quando alguém sente inveja, está se rebaixando, voluntariamente, e, ao mesmo tempo, elevando aquele a quem inveja. Podemos pensar inclusive que não é a inveja que gera o rebaixamento, mas que este é primeiro. Porventura não é isso que Spinoza queria deixar claro quando disse que “ninguém está mais propenso à inveja que aqueles que se rebaixam”? Com efeito, aquele que sente inveja outra coisa não faz além de dizer a si mesmo que já se julga inferior àquele a quem inveja.
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Entretanto, por mais que desejemos secretamente não sentir inveja dos outros, Spinoza afirma que “a natureza dos homens está, em geral, disposta de tal maneira que eles têm inveja pelos que vão bem”. Sendo a inveja, portanto, uma disposição natural do ser humano, mas, por outro lado, algo que o diminui, rebaixa, refreia a sua potência de agir, sentimo-la e, ao mesmo tempo não queremos senti-la. Por isso é tão difícil sentir e, mais ainda, confessar que sentimos inveja de alguém, tal é a natureza dos sentimentos ambíguos.
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Para amenizar o drama solipsista no qual a inveja nos coloca, muitas pessoas usam um subterfúgio que, no entanto, não deve passar sem ser questionado. Para assumirem esse afeto natural e espontâneo do qual, ao mesmo tempo, desejam estar livres, dizem que sentem “inveja branca”. Entretanto, o que é a “inveja branca”, e em que medida ela é diferente da inveja, essa bem conhecida nossa, e que não precisa de cor alguma para nos afetar nem para nos envergonhar?
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Ademais, haveria uma “inveja preta” que completasse, por oposição, o sentido da tal “inveja branca”, ou, antes, a “inveja preta” já seria a própria inveja? Assumamos, por enquanto, que há somente a inveja e, oposta a ela, a dissimulada “inveja branca”: aquela, o afeto de que temos vergonha de confessar, e esta, uma vergonha minimamente confessável.
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Entretanto, qual o critério para classificar o rebaixamento no qual nos colocamos de inveja ou de “inveja branca”? Bem, Spinoza diz que “ninguém inveja a virtude de um outro, a menos que se trate de alguém que lhe seja igual.” Ou seja, não invejamos uma montanha pela sua imponência, um gato pela sua elegância, tampouco uma flor pela sua cor, mas apenas seres iguais a nós. Portanto, só podemos invejar pessoas; mais especificamente, aquelas nas quais percebemos virtudes que nós, justamente por sermos iguais a eles, deveríamos ter, mas, como a inveja deixa bem claro, acreditamos que nos falta.
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Agora, se a inveja é mesmo um afeto que se interpõe entre iguais, porém pelo fato de um deles se sentir desigual, melhor dizendo, inferior, podemos colocar que ela instaura uma desigualdade justamente onde não deveria existir. Uma vez vítima da inveja, aquele a quem invejamos nos parece, todavia por pressuposição nossa, contrário à igualdade. Spinoza nos garante isso ao propor que os homens que são movidos pela inveja são “reciprocamente contrários”.
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Portanto, é o invejoso que traz contrariedade às suas relações, porquanto não são os invejados que partem do pressuposto de que são carentes de alguma coisa nem que são inferiores a alguém. A inveja, com efeito, faz aquele que a sente ver contrariedade onde há igualdade. Indo mais longe: a inveja tem duas faces. Uma mentindo uma desigualdade, a outra escondendo uma igualdade. A “inveja branca”, por sua vez, não seria a inversão dessas duas faces da inveja, uma estratégia para vermos uma igualdade justamente onde nós mesmos colocamos a desigualdade?
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Entretanto, não nos enganemos, pois a “brancura” de uma inveja não faz com que esse afeto alcance um estatuto de maior dignidade. Ela ainda é inveja; ainda nos rebaixa; ainda rouba a nossa potência de agir, mesmo que a confessemos. A “inveja branca” é apenas a “inveja normal” fingindo uma dignidade que não lhe cabe. Ora, se, como disse Spinoza, a inveja é um afeto que faz parte da natureza dos homens, mas que não obstante os rebaixa, não estaria a tal “inveja branca” querendo assumir e dissimular, simultaneamente, a baixeza de quem a sente?
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Portanto, sentir essa coisa chamada “inveja branca” é apenas o modo de seguirmos alienados do rebaixamento a que nós mesmos, por nosso esforço, auto imputamo-nos em relação a quem invejamos, sem, contudo, ocuparmos assumidamente esse lugar inferior. O invejoso “branco” é aquele que sente inveja e ao mesmo tempo finge não ser carente daquilo que acredita que só o invejado tem. Desse modo, a “inveja branca” é um sobre-rebaixamento: invejar é o rebaixamento primeiro, e “clarear” esse afeto para que não pareçamos tão rebaixados assim, o segundo.
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Se o “invejoso branco” fosse um criminoso, seria aquele que comete o crime deliberadamente mas que prefere se fazer de vítima das circunstâncias. Em vez de confessar o ilícito de modo transparente, tonaliza-o com cores, digamos, mais absolventes. Em troca, se assumisse opacamente que a inveja que sente não tem cor apaziguadora alguma, que é só inveja mesmo, obviamente não escaparia de se apossar desse espaço de rebaixamento que a inveja lhe lega. Todavia, desse chão inglório não passaria.
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Porém, branquear estrategicamente esse afeto outra coisa não é que reduzir ainda mais a própria potência de agir. Ora, se invejar é o primeiro sinal de que já nos sentimos rebaixados, dissimular este afeto apelidando-o com uma tonalidade mais amena apenas nos aliena ainda mais da baixeza que nós mesmos inventamos para nós. Ao contrário, assumindo a inveja, nua, sem fantasias coloridas, podemos enxergar melhor o desnível que inventamos entre nós e aqueles a quem invejamos. Desse modo, fica bem mais fácil superá-lo, isto é, agir contra aquilo que rouba a nossa potência de agir.
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