Mariana: o nosso Carma e a nossa lama

Com a minha fé na capacidade sustentável e ecológica do homem completamente soterrada pelas toneladas de lama contaminada que a Vale do Rio Doce esparramou pelas Minas Gerais, pelo Espírito Santo, e que jazerão indefinidamente no já bastante poluído oceano, só me resta fazer como os budistas: suprassumir as vicissitudes da “Roda de Samsara” (o ciclo existencial no qual reinam o sofrimento e a frustração produzidos pela ignorância), ao valioso desejo de encontrar o “Caminho da Libertação”. Em outras palavras, transformar o “Carma” dessa catástrofe ecológica em “Dharma”, ou seja, o “Caminho para a Verdade Superior”.

Entretanto, qual seria a verdade budista absolutamente elevada que superaria a verdade indesejada, e por isso baixa, do desastre ecológico mineiro? Com efeito, a primeira verdade dessa baixeza cármica é o “meio-ambiente capitalista” que, pelo que nós e a natureza podemos ver, parece ser o único que realmente importa para a Vale. Verdade também é que, se culpamos a Vale por ter despejado a sua lama no mundo de milhões de pessoas, antes, devemos culpá-la por ter produzido e estocado sistematicamente, em açudes/represas, toneladas de resíduo venenoso.

Agora, se a represa na qual a Vale estocava a fatídica lama tóxica não tivesse rebentado, a opinião pública em geral estaria hoje tão alienada em relação a esse monstro devastador como se ele nem existisse. Porém, o Monstro de Lama da Vale já estava lá, tóxico e ameaçador, sendo produzido, gerado, engordado, o tempo todo. A indignação que a opinião pública expressa agora, no entanto, não abarca essa parte, digamos assim, “a priori” do desastre. Nossas preocupações ecológicas parecem ser tão “a posteriori” quanto as da Vale: só depois de “a merda ser jogada no ventilador”, é que nós e a Vale paramos para pensar e para tentar remediar o problema.

No entanto, o budismo sussurra convincentemente que não há Caminho da Libertação apenas se nos revoltarmos contra o vazamento do resíduo mortífero da Vale. Se não houver a mesma revolta em respeito à longeva produção e à sempiterna estocagem desse veneno, ademais na natureza, estaremos eternamente presos em uma das trágicas estações de Samsara. Então, cativos de um dos estágios do Carma, não ascenderemos ao Dharma, que, nesse caso, deve ser entendido como “um mundo no qual a humanidade e a natureza convivam sem se destruir”.

Ademais, se quisermos atravessar o Carma, isto é, cruzar definitivamente o ciclo existencial no qual reinam o sofrimento e a frustração produzidos pela ignorância, não podemos deixar nós mesmos, cidadãos brasileiros, de fora desse indesejado “devir antiecológico” que, hoje, é representado pela Vale. Entretanto, por mais que essa empresa priorize sobretudo os seus interesses econômicos, ela só está aí porque interessa ao Brasil, portanto, aos brasileiros. Se, de um lado, temos a abjeta destruição da natureza pela Vale, por outro, temos as tão desejadas e necessárias divisas que esse antiecológico empreendimento traz ao Brasil, portanto aos brasileiros.

Quantas estradas, escolas, universidades, hospitais, só para citar algumas coisas que os brasileiros solicitam e necessitam, foram possíveis pelos impostos que a Vale paga? Desse ponto de vista, o brasileiro em geral, mais precisamente o seu silêncio ou ignorância em relação ao mar de lama que a Vale ia construindo paulatinamente nalgum lugar de Minas Gerais, também precisou desse lamaçal tóxico tanto quanto a própria Vale. Precisamente aqui é o lugar de não nos excluirmos dessa insuportável etapa cármica que gerou este último e maior desastre ambiental tupiniquim.

Por isso não podemos dizer que os antiecológicos interesses da Vale são tão diferentes dos interesses dos brasileiros em geral. De certa forma, ambos querem sobreviver e evoluir da melhor forma possível. Entretanto, pelo menos desde a modernidade, o modo de a humanidade realizar isso infelizmente se dá a despeito da natureza. Para ser mais preciso, explorando-a, destruindo-a.

As nossas tão desejadas viagens de avião ao exterior, por exemplo, só são possíveis ao custo de uma tonelada de monóxido de carbono lançados no ar por viajante, em um único voo. Porém, antes, durante e depois dos nossos passeios por Paris ou Londres, por exemplo, não nos culpamos diretamente pelo aquecimento global. Nem precisamos ir muito longe: os nossos ambientes artificialmente refrigerados, hoje em dia, também só são possíveis se queimarmos toneladas de carvão nas usinas termelétricas, aliás, cada vez mais usadas no Brasil. Por aí vai o homem. Entretanto, por aí também se esvai a natureza.

Desse modo, o aviltado sentimento ecológico que reclama nos nossos peitos é um afeto extremado cujo excesso, não obstante, visa justamente nos alienar do fato de que somos nós, e somente nós, homens e mulheres, os promotores concretos da destruição da natureza. Entretanto, a nossa ignorância faz com que o Monstro Antiecológico seja bem melhor representado em abstrações como, por exemplo, a Vale. Porém, enquanto não computarmos nós mesmos nesse devir antiecológico, nossa ignorância em relação a ele não nos levará a outro lugar senão a mais antiecologia. Por isso a solução para o atual desastre ocorrido em Minas deve compreender não só a Vale, mas os brasileiros, quiçá a humanidade em geral.

Ora, enquanto insistimos em deslocar a culpa da destruição da natureza para empresas ou instituições, como se se tratasse de um inimigo transcendente e Mau, deixamos de fora da tão necessária revolução ecológica os únicos que realmente podem mudar os tortos rumos do nosso mundo: nós mesmos; indivíduos que, de um lado, destroem a natureza, e, de outro, não querem tal destruição. Querer estas duas coisas é senão estar preso na Roda de Samsara. É estar tão distante do Dharma quanto da verdade, portanto, do Caminho da Libertação.

A antiecologia da Vale é a mesma que a nossa na medida em que destruímos a natureza para construir um mundo dito melhor para todos. Resistir em aceitar profundamente esse fato é manter-se senão na senda da ignorância e da alienação. Só existe uma Vale porque existem pessoas, que precisam umas lucrar astronomicamente, outras trabalhar arduamente em troca de salários miseráveis, e, todos, de um país que tenha uma receita gorda o suficiente para que todos tenhamos aquela “vida com um mínimo de qualidade” que, entretanto, sabemos ser a maior destruidora da natureza.

De modo que, para atravessarmos o Carma do desastre ecológico mineiro, brasileiro, e porque não dizer mundial, devemos nos colocar como corresponsáveis por ele. Afinal, por um lado, é o mundo no qual vivemos, do qual fazemos parte, mas também e principalmente o mundo do qual solicitamos a satisfação das nossas necessidades individuais, das mais básicas às mais supérfluas, o produtor do mar de lama tóxica que ninguém queria que existisse. Porém, uma vez existindo, e espalhado pela natureza, imediatamente queremos que seja só da Vale. Ora, se o mundo é feito senão pelos homens, temos que são estes, todos nós, aliás, os responsáveis pelas toneladas de lama tóxica em questão.

A sabedoria elevada do budismo, o seu Caminho da Libertação, no entanto, deve tornar verdade o fato de que tanto faz se a lama venenosa permanecesse contida/escondida em uma represa ou tragicamente espalhada pelo mundo. O Mal não é a lama ter rompido a represa. Somente a produção dessa lama também não é todo o Mal. Antes, o Mal absoluto é esse modo humano de viver no mundo que não consegue respeitar e proteger o meio-ambiente do nosso mundo, isto é, a natureza.

O Dharma que deve se seguir do presente Carma que nos atormenta desde que a represa tóxica em Minas Gerais rompeu é justamente a assunção de que, hoje em dia, mais do que nunca, o Mal concreto da natureza somos nós, os humanos. Podemos, com efeito, abstrair essa nossa culpa; culpar uma empresa particular ou uma instituição qualquer pelas vicissitudes ecológicas que nos ameaçam. Todavia, agindo assim, apenas mantemos a Roda de Samsara girando contra a natureza, e, no fim das contas, contra nós mesmos. Será esse o nosso Carma?

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