O Rio Olímpico e a caverna de Platão

A alegoria da caverna, de Platão, fala de como podemos nos libertar da escuridão, melhor dizendo, da ignorância na qual nos encontramos aprisionados, e que caminhar para fora da caverna é o meio de encontra a luz (o sol) da verdade. O breu de que fala o filósofo grego pode se justificar no fato de o seu Sol ser deveras brilhante, ameaçando inclusive cegar quem se aventure a sair da caverna escura para encará-lo. Com efeito, em Platão, a metáfora da fotofobia é o meio para pensarmos a “sapiofobia”, isto é, o medo do saber com que muitos de nós, quiçá todos, nos mantemos prisioneiros da ignorância.

Podemos usar essa “sapiofobia” de que fala a alegoria platônica para pensar uma “urbanofobia”, ou seja, um “medo da cidade”. Para tanto, esse real de que somos ignorantes deve ser pensado enquanto o real das cidades nas quais vivemos. Que real seria este? E que caverna faria o papel de aprisionadora, de alienadora da verdadeira Luz Urbana? Uma vez que a compreensão do mito platônico se dá no traslado entre dentro e fora da caverna, a analogia com a nossa condição dentro das nossas cidades deverá repetir tal promenade.

Todavia, seria ingênuo demais pensar que as nossas casas são as cavernas, que são elas que obscurecem a iluminada verdade urbana, que a cidade é o local da verdade, e que fora das nossas casas-cavernas jaz a Luz desejada. Antes, a cidade toda deve ser vista como A Caverna: suas ruas, praças, equipamentos, shopping centers etc. Inclusive os caros metros quadrados nos quais nos refugiamos, e que inocentemente chamamos de casa, são senão a forma escura com que nos mantermos distantes da Luz.

Se na caverna de Platão os homens vivem acorrentados e voltados para uma parede na qual titereiros (ideólogos?) projetam sombras para que creiamos que elas são as coisas reais, na caverna urbana, outrossim, estamos acorrentados e voltados à sombras que chamamos banalmente de ruas, praças, hospitais, escolas, shopping centers e casas; sombras estas que são projetadas pelos nossos titereiros (especuladores imobiliários e políticos) para que pensemos que a cidade é, e deve ser, somente isso que vemos e experienciamos enquanto cativos dela.

No gentrificado teatro de sombras urbano carioca, por exemplo, o vulto do aluguel mais caro do mundo, o fantasma da segregação espacial que nos finais de semana barra cidadãos suburbanos às portas da elitizada Zona Sul, o monstro dos congestionamentos em que nos aprisionamos em cada deslocamento, só para citar alguns urbano-personagens do Mal, são, sem dúvida, grandes sombras. Porém, são as mais verdadeiras, pois revelam a Luz mentirosa que tenta nos convencer de que a cidade é um espaço pleno de liberdade e de oportunidade para todos os que nela vivem.

Slavoj Zizek, na sua “A Visão em Paralaxe”, pergunta se a caverna de Platão não seria, antes de ser aquilo que nos afasta da verdade, a construção propriamente humana para nos protegermos do excesso de luz do Sol platônico. Desse ponto de vista, a caverna seria o primeiro estágio da civilização, aquilo que nos diferencia dos demais animais. Aqui a minha analogia agradece, pois a cidade é propriamente a construção humana feita para o homem se proteger das verdades/vicissitudes da natureza. A caverna platônica, portanto, é a natureza civilizada: a cidade.

Entretanto, a cidade-sombra, na qual a maioria das pessoas vive aprisionada, é efeito colateral da projeção de uma cidade-Luz gentrificada a uma minoria que, esta sim, pode pagar o aluguel mais caro do mundo, não ser barrada nas praias da ZS – porque já vive lá -, e com seu helicópteros fugir das avenidas congestionadas, etc. De modo que, na cidade, para alcançarmos alguma Luz, é preciso sair dela. Não é nela que reside a verdade. Antes, nas cavernas-cidades permanecemos cegos em respeito àquilo que as nossas vidas poderiam ser de verdade.

Porém, quando um cidadão qualquer, imerso na escuridão urbana e acorrentado por ela, decide romper os grilhões, levantar-se e sair, os titereiros urbanos projetam novas sombras que mentem novas verdades. No caso carioca, o tal legado dos jogos olímpicos é a mais nova e forte sombra insistentemente projetada para fazer com que os cidadãos dessa cidade acreditem que estão mais distante das trevas e mais próximos da Luz. O que vemos, no entanto, são sombras ainda mais negras: alugueis ainda mais caros, a Z.S. ainda mais gentrificada, o trânsito mais caótico que nunca etc.

O grande teatro do Rio Olímpico mostra muito bem que não há Luz a ser encontrada na cidade: a cidade é a Sombra-em-si. Portanto, fora da Caverna Urbana não faz sentido algum procurar por alguma Luz Urbana. O Urbano é já-sempre A Sombra. Ao deixarmos tal escuridão, o Sol que encontraremos é aquele que diz que a Luz está fora e longe da urbanidade; que nos limites citadinos estaremos sempre aprisionados às sombras enganosas dos especuladores imobiliários e da corja política que lhes servem.

E porventura não é exatamente isso que sentimos quando, por poucos dias, deixamos a cidade para gozarmos as nossas cada vez mais raras férias, seja no campo, seja nalguma praia deserta? Pode até ser que o tal “campo” e a tal “prainha” sejam sombras de uma caverna ainda maior. Entretanto, como Platão e a sua alegoria me levam a crer, a promenade que afasta das Trevas e aproxima da Luz não precisa ter um final definitivo para se dar. Apenas recusar sistematicamente as sombras que são colocadas diante de nós já é sair da caverna, pois esse é o passo que evidencia a existência da própria caverna.

Em respeito ao Rio de Janeiro, sair da caverna seria deixar para trás todas as suas sombras, estar a salvo delas. Não obstante, como o mito platônico mostra, isso é um processo! Antes de abandonar a Cidade Maravilhosa, cabe primeiro evidenciar que esse “Maravilhosa” já é uma sombra, a mais projetada, aliás; que a Luz olímpica não chega agora para iluminar a cidade “para” os cariocas, mas apenas para fazer com que as sombras que todos eles veem sejam mais eficientemente projetadas, para que os cariocas sigam acreditando que a sua cidade é Maravilhosa, embora ela não seja nem deles, nem Maravilhosa.

A Luz verdadeira, que fica obscurecida pela estratégica escuridão urbana, é a gentrificação da própria Caverna. A Caverna Carioca não escapa disso! E para que os cariocas não descubram que a cidade não tem nenhum Sol ideal no fim do túnel, a politicagem imobiliário-especulatória coloca na porta da caverna urbana um pelotão armado impedindo os “aprisionados” de sair, assim como fez o governador do Rio de Janeiro: proibiu os suburbanos – vítimas excelentes da gentrificação – de acessarem o sol dominical da Z.S.; essa Luz mentirosa que cria/projeta a sombra suburbana. Esta sombra, no entanto, é a primeira verdade que devemos conhecer – e iluminar! – dentro da obscura, todavia pretensiosa, Caverna do Rio Olímpico.

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