A nudez da nudez

O homem não é nu. Entretanto, quando veste o animal que subsiste inquieto em sua pele – e isso maximamente no sexo – apenas está nu. O inverso disso é o animal cuja nudez natural de forma alguma faz dele algo outro, pois, de acordo com Derrida, “o próprio dos animais, e aquilo que os distingue em última instância dos homens, é estarem nus sem o saber”.

Algo muito próprio do homem, qual seja, a sabedoria, parece ter papel fundamental da invenção da nudez no cerne da natureza desde sempre nua. Para o homem, excluído ele mesmo, tudo mais deve estar nu, exposto em sua verdade, sendo a ciência o eficiente costume humano para desnudar absolutamente o corpo do universo.

assim como os animais, Adão e Eva eram nus sem o saber. Até que souberam demais. Uma vez sábios, tinham tudo a esconder. Sintomaticamente, cobriram seus corpos, as únicas coisas que restavam serem cobertos quando tudo mais estava revelado. Da mesma forma, Caim, quando matou Abel, envergonhou-se irremediavelmente, e fugiu para esconder sobremaneira seu ser assassino então desnudado. Para esse fratricida, nem o linho esconderia a sua animalidade exposta. Ainda nos mitos, a Arca de Noé foi o que senão a épica tentativa humana de vestir a natureza – e os animais – contra ela mesma?

Há nudez apenas no pensamento, não na natureza. E como o pensamento é algo humano, só há nudez humana. Entretanto, o que há, para nós, nessa nudez exclusiva, que demanda constante cobertura? Seria a nudez vergonhosa por natureza? “Vergonha de que?”, pergunta-nos Derrida; “Vergonha de estar nu como um animal”, responde o filósofo.

A nudez do animal é seu nome, sobrenome e sobretudo o seu ser. Já para o homem, nome e o sobrenome são as primeiras vestimentas com as quais o seu ser naturalmente despido é definitivamente encoberto. Essa primeira fantasia nominal, por sua vez, é customizada a partir dos andrajos da cultura, e, uma vez em tais hábitos abstratos, as demais vestes concretas são apenas efêmeros disfarces com que o homem finge não ser “da” natureza.

Entretanto, figurinada a nossa existência natural sufoca. Precisamos, por conseguinte, expressá-la, deixá-la respirar, desesperadamente. Para isso inventamos filosofia, arte, consumismo, a fim de que possamos ser sem sermos exatamente aquilo que, por natureza, somos, isto é, absolutamente nus.

O homem é o único animal que inventou uma vestimenta para esconder o seu sexo; o único que inventou uma cultura para esconder de si a sua vestimenta; o único que inventou a moda para vestir sazonalmente a sua cultura. A humanidade converteu o desconforto com a sua nudez em vitimização em relação à moda, fingindo assim que se veste simplesmente por haver o que vestir. Contudo, esconde de si mesmo que a humanidade mesma é desde sempre nua.

Alain Badiou diz que “jamais há nudez no teatro, tampouco, mas trajes obrigatórios, a nudez sendo ela própria um traje, e dos mais vistosos”. Podemos concluir, então, a partir das palavras do filósofo, a veste do humano, assim como o figurino do ator, é a fantasia com a qual o homem melhor se despe do imponente traje com o qual a natureza primordialmente o vestiu: seu corpo irremediavelmente nu. Doravante, “é necessário uma psique, um espelho que o reflita nu dos pés a cabeça”, alerta-nos Derrida.

Os animais não estão nus porque eles são nus sem o saber, mas nós, em troca, estamos nus porque o sabemos. E diante deste saber, fazenda alguma dá conta de tamanha sabedoria. Derrida condicionou a vontade de vestir-se a “um sentimento de pudor ligado ao [fato de] estar em pé”, à ser ereto. E… a ereção estrutural do macaco-homem desembocou em outra: a ereção do sexo do homem-macaco: a intumescência espontânea de sua natureza selvagem.

Enquanto o ventre do bicho que somos esteve voltado para o chão, os olhos e o sexo de um indivíduo não se enquadravam, ao mesmo tempo, no olhar de um outro indivíduo. Porém, uma vez em pé, ambos passaram a estar disponíveis aos olhos – e também aos sexos – dos outros. E a folha-de-videira tornou-se, ainda que miticamente, o primeiro hábito e o primeiro símbolo da nudez da nudez.

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