Verdade, opinião e comentário de Facebook

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Se, na realidade, muitas vezes é difícil para nós deixarmos de confundir verdade e opinião, imagina nas redes sociais virtuais, mais especificamente no Facebook, onde opiniões se empoleiram umas sobre as outras, relacionando-se entre si, cada vez mais distantes das pretensas verdades das postagens sob as quais opinam.

Acriticamente, partimos do pressuposto de que nossas opiniões atinam aos fatos, à verdades que carecem do nosso parecer para serem verdades de fato. Contudo, no Facebook é fácil perceber que muitas opiniões são dadas sem sequer levarem em conta fatos ou verdades alguns, mas somente outras opiniões.

A pecha entre verdade e opinião é bastante antiga, tem a idade da Filosofia aliás. Só que hoje, com a facilitada e banalizada intercomunicação virtual, temos um complicador novo, isto é, uma nova forma de nos relacionarmos com os fatos que os aliena tanto da verdade quanto da mera opinião. Qual seja: o comentários de Facebook.

Longe de convencerem de que atentam à verdade, e sequer de que são opiniões pertinentes, muitos dos comentários que lemos abaixo das publicações na mais popular das redes sociais, especialmente nas postagens que falam da política brasileira, dão a ver uma nova e bastante confusa forma de opinião que, para o bem da opinião, nem deve ser chamado assim.

O filósofo pré-socrático Parmênides de Eléia dizia que opinião é apenas uma ideia confusa acerca da realidade. Se é assim, os comentários de Facebook outra coisa não são que a confusão de uma confusão. Como estabelecer então, para o bem da opinião, uma distância entre opinião propriamente dita e comentário de Facebook, assim como, há 2500 anos, Parmênides distanciou verdade e opinião?

Para Platão, a verdade era assunto exclusivo da filosofia, e as opiniões, da sofística. Os sofistas, por suas vezes, contra-argumentavam que só havia opinião. Para os mestres do discurso, aquilo que os filósofos chamavam de verdade era apenas uma grande e potente opinião convencionada sócio-historicamente. Entretanto, a verdade platônico-filosófica venceu a batalha lá mesmo na Hélade antiga, reinando por milênios sobre as opiniões sofísticas.

Fazendo uma analogia da querela platônica-sofística com a atual realidade facebookiana, é como se os filósofos possuidores da verdade fossem, por exemplo, uma Folha de São Paulo ou um El País, cujas publicações se pretendem traduções da mais pura verdade. Já os sofistas, que eram da opinião de que só existia opinião mesmo, seriam os nossos comentadores de Facebook que acham que não precisam se fixar em verdade primeira alguma, apenas opinar indiscriminadamente.

A analogia, entretanto, falha no sentido de que os “sofistas atuais”, isto é, os comentadores de Facebook vão mais longe que os seus ancestrais gregos. A confusa inovação, hoje, está em que o objetivo principal não é ter uma opinião –inevitavelmente confusa, como diria Parmênides- sobre a realidade, mas justamente sobre as opiniões confusas que os outros “sofistas facebookianos” têm dessa realidade. O que importa mesmo é ter opinião sobre as demais opiniões. Dane-se a verdade.

Se, como disse Parmênides, a opinião é mesmo apenas uma ideia confusa acerca da realidade, o Facebook é o espaço excelente de sobreconfusão que distancia opinião e verdade como Parmênides e Platão juntos sequer poderiam imaginar. Por isso os comentários do Facebook não devem ser tomados por opinião de forma alguma, mas por algo muito mais confuso.

Tomemos os comentários de Facebook que se seguem de postagens sobre, digamos, a atual frente do governo federal brasileiro contra o Zika Vírus. Em vez de opinarem sobre as estratégias usadas para eliminar o Aedes Aegypti, se são eficazes ou não, precipitadas ou tardias, o que se vê são centenas de pessoas aproveitando o ensejo para falar da operação Lava Jato, do impeachment de Dilma, do helicóptero do Aécio, e por aí vai.

Em resposta a esses confusos comentários -que na verdade não comentam aquilo que deveriam comentar, afinal, o fato é sobre saúde pública-, outras centenas de pessoas -outrossim confusamente, isto é, sequer fazendo referência ao assunto primeiro- defendem, por exemplo, a Dilma ou governo do PT. Então, no meio dessa confusão generalizada, surgem outros comentários, contrários aos petistas de plantão, bravejando “Intervenção Militar Já”. E a verdade sobre o problema Zika Vírus, a opinião de cada um sobre a tática governamental no sentido de tentar ajudar a resolver o problema, onde ficou mesmo?

Ainda no mesmo exemplo, muitos dos confusos comentadores que, em vez opinarem sobre saúde pública pedem intervenção militar -embora muitos deles sejam acéfalos a ponto de realmente crerem que a ditadura é a melhor coisa para eles mesmos- sabem que, na verdade, pedir pelo fim da democracia é uma solução muito pior do que o problema que confusamente querem resolver.

No entanto, confundem deliberadamente aquilo que eles mesmos têm por verdade -que a democracia é melhor- em resposta às confusões de outros comentadores facebookianos, e assim por diante, restando claro que as opiniões de todos, desde o princípio, não visavam atinar à realidade, isto é, à ação do governo contra o Zika, tampouco à verdade, ou seja, as doenças que esse vírus traz à população, mas tão somente às opiniões confusas uns dos outros. A relação entre verdade e opinião, no Facebook, é uma confusa relações entre opiniões confusas.

A diferença entre verdade e opinião, tão obscura para os usuários do Facebook, para o filósofo alemão Immanuel Kant era claríssima. Para dele, a verdade era coisa exclusiva da ciência, sobretudo da matemática. Inclusive as verdades filosóficas outra coisa não eram que opiniões produzidas por uma razão metafísica que não sabia criticar a si mesma. Kant, nivelou sofistas e filósofos, e bem abaixo da verdade científica.

Fazendo mais uma analogia com o Facebook, agora a partir da crítica kantiana, não podemos tomar nem as postagens da Folha de São Paulo e do El Paí (só para não sairmos dos exemplos usados), que se colocam como verdadeiras! O que temos no universo facebookiano -mas infelizmente nõa no nele- desde o princípio são meras opiniões, que geram opiniões, que por suas vezes geram outras opiniões, e assim por diante: um universo de verdadeiras confusões!

Poderíamos até concluir que o Facebook é o apogeu da sofística. Não obstante, mesmo confundidos pelo universo confuso de Zuckergerg, ainda resiste a ideia de que existe uma verdade sobre os fatos em relação aos quais temos as nossas sobreconfusas opiniões. Só que hoje, com o Facebook, além de decepcionarmos Kant profundamente, envergonharíamos inclusive os próprios sofistas para quem tudo era opinião.

Escandalizaríamos sobretudo Parmênides. Afinal, se, como pensava o filósofo pré-socrático, a opinião é aquilo que confusamente achamos que é a realidade, com o Facebook a opinião gerou um duplo só seu, porém absolutamente mais corrompido e distanciado da verdade do que nunca, qual seja: aquilo que confusamente achamos do que os outros confusamente acham que é a realidade”. Em outras palavras: os comentários de Facebook.

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