Natureza, morte de Deus e Capitalismo.

Da perspectiva da Natureza, enquanto os homens eram servos obedientes à Deus, seguindo à risca os Seus mandamentos, ela, a Natureza, era mais preservada do que hoje em dia, quando é no capitalismo – e no seu fantástico paraíso tecnológico – que acreditamos piamente. Ao ignorar os Pecados Capitais, nos alienamos apenas dos “pecados”, mas, infelizmente, não do “Capital”… Com ajuda da Ciência Moderna e de sua filha predileta, a tecnologia, o capitalismo desferiu o golpe fatal contra Deus, e, com a arena universal limpa de um “zelador’ transcendente, explorou e destruiu sistematicamente a Natureza. Entretanto, é urgente uma reunião de condomínio na Terra antes que ela seja totalmente destruída pelo seu profano síndico atual, o Capital.

Onde está a ecologia inerente à velha ficção chamada “Deus” que perdemos ao escrever a nova ficção chamada “Modernidade”? Sim, porque a “Moderna Morte de Deus” em outra coisa não resultou senão na morte da ideia de que a Natureza é o que há de divino. A vida simples outrora ditada por Deus direcionava colateralmente os homens a uma relação mais harmoniosa com a Natureza. Com Deus vivo e lá em cima nós, aqui em baixo, éramos mais ecológicos. Sem Ele, entretanto, e com o Capitalismo no seu lugar, ecologia passou a ser apenas mais um objeto-mercadoria inalcançável, senão para que seja compulsivamente consumida e descartada, conforme a cartilha do capital.

Entretanto, o contraponto que poderíamos chamar de divino em relação ao Capeta-capitalismo que destrói perversamente a Natureza só pode ser a Ecologia, uma vez que ela é a única razão que ainda se sustenta contra a imperiosa destruição capitalista da Natureza. O problema dessa nova deidade ecológica, todavia, é que quando no Mármore Ardente do Capital parece tão transcendente quanto o velho Deus que, frisemos, seria bom ela substituir. Afinal, no mundo em que vivemos, que melhor ópio do povo, como um dia Deus foi, que a ecologia?

É Slavoj Žižek que entende que a Ecologia hoje assume a autoridade inquestionável outrora encarnada em Deus, impondo-nos limites inexpugnáveis às nossas ações e nos convencendo da nossa finitude. Com efeito, não seguir a razão ecológica – ou o que é o mesmo, a razão! – é o que nos condena ao inferno (aquecimento global, desertificação das florestas, falta de água etc.). Se, antes, a ideia de Deus de certa forma limitava a destruição da Natureza por nós, hoje “a Ecologia funciona como ideologia no momento em que é evocada como um novo limite”, diz Žižek. Com efeito, é somente ela que nos avisa, o tempo todo, do pecado insustentável da nossa vida consumista-hedonista que só se sacia consumindo descontroladamente a Natureza.

E se, de fato, é bom e racional que a Ecologia seja o nosso novo Deus, é justamente por conta do mar de pecadores antiecológicos perdidos no mundo. Diante do Diabo Capitalista e de sua catástrofe ecológica infernal o maior pecado, largamente cometido aliás, é encobrirmos o Mal justamente com o falso Bem com o qual próprio o Mal nos engana (as nossas desejadas mercadorias!). Ou, como aponta Žižek, o nosso pecado ecológico engendra “até inclusive a vontade direta de ignorância”. Isso porque, conforme o ambientalista Ed Ayres, “o padrão geral de comportamento entre as sociedades humanas ameaçadas é tornar-se mais tacanha, em vez de mais focada na crise, à medida que desmoronam.”

Se há um paraíso, ele é e sempre foi a Natureza, desde muito antes da invenção de Deus por nós. Todavia, a histeria da modernidade nos fez esquecer de que o “Capetal” – perdoem-me o inevitável trocadilho – só reina roubando incessante e perversamente “da” Natureza. Em troca, se queremos ver o Deus Ecológico reinar e engrandecer “a” Natureza, devemos seguir o conselho de Žižek: “tratar a Terra com respeito, como algo fundamentalmente sagrado, algo que não deve ser de todo revelado, que deve permanecer para sempre um Mistério, uma força que deveríamos aprender a confiar, não dominar.”

Para isso, contudo, o luxurioso casamento entre o Capitalismo e a Tecnologia – cuja prole obscena é o mundo de mercadorias que nos aliena justamente da obscenidade dos seus pais prolíficos – deve ser desfeito. Melhor dizendo: “desdivinizado”; “dessacralizado”; reificado a ponto de restar claro que tal casal é a origem do Mal que profana a Natureza. Só não haverá Mal algum em termos matado o histórico Deus cristão se mantivermos intacta a sacralidade da Natureza, que, aliás, é bem mais antiga do que Ele. Eterna até, diz-nos Spinoza, para quem a eternidade, mas também a perfeição, são a própria Natureza.

Entretanto, as “religiosidades” estrategicamente laicas do capitalismo e da tecnologia ou pregam que nada é sagrado, “tudo deve ser descoberto,devassado, profanado!”, ou, o que é muito pior, afirmam mentirosamente que sagrados são exclusivamente eles dois. Diante de vis mandamentos, somos servos do Mal, estamos condenados ao horror de um futuro infernal em pleno paraíso terrestre, o qual, aliás, destruímos em nome desse Deus Mal. As profanações do capitalismo e da tecnologia juntos nos fazem esquecer da maior – e talvez a única! – utilidade do sagrado, qual seja, parafraseando o poeta Rainer Maria Rilke, que “o Sagrado é o último véu que cobre o horror profano”.

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