O Europeu-hegeliano e a Populaça Imigrante

-Que novidade é essa? O que você faz aqui, Populaça Imigrante, dentro das minhas muralhas felizes?

-O Europeu-hegeliano me chamou de quê? Pergunta o Imigrante clandestino.

-De po-pu-la-ça. O nome que há muito dei para gente como você, excesso humano produzido pelo meu Estado moderno, gente para a qual não há lugar no meu mundo civilizado, Muito embora, é claro, a civilização do meu mundo não se dê sem a estratégica barbárie exportada para o mundo de vocês – Explica o Europeu.

-Deixe-me ver se entendi – interpela o imigrante. -Eu sou aquele que não tem lugar dentro do seu rico mundo, mas também aquele sem o qual o seu mundo não é rico?

-É por aí, Populaça clandestina, pois não é a minha riqueza isolada, mas o contraste dela com a tua miséria que faz de mim rico – confessa o Europeu.

-Se é assim, deixe-me entrar, pois se a minha pobreza estiver bem próxima de você, parecerás mais rico do que se eu estiver lá no meu distante submundo – propõe o Imigrante.

-Não é tão simples assim, Populaça. A minha riqueza é muito exigente, egoísta até.

-Ah, mas de que serve a tua riqueza se ela desaparece ao lado dos miseráveis? – Provoca o Imigrante.

-Não é que eu não seja rico suficiente para cuidar de você – perde a paciência o hegeliano. – O problema é que eu sou rico demais, e, como você e eu sabemos, quanto maior a riqueza, menos se sabe o que fazer com a pobreza.

-É, de fato, disso eu já sabia – completa o Imigrante, fitando gravemente os olhos do Europeu. – O meu problema é justamente esse. Você está tão rico que nada mais faz em relação a enorme pobreza que gera, no caso, a minha, né… Por isso eu estou aqui! Para que você e a sua riqueza sujem as mãos com a insuportável miséria que não conseguem deixar de produzir. Você tem que reconhecer a sua responsabilidade na minha desventura.

-Ah! Então o que você quer, Populaça Imigrante, é que eu reconheça que sou a causa da sua miséria? Quer dizer que o seu problema não é a miserável condição material com a qual você desde sempre esteve acostumado, mas, em vez disso, esse desejo subjetivo de ser reconhecido enquanto empobrecido por mim?

-Gente europeia rica tem a mania de abstrair tudo mesmo – diz o Imigrante. – O meu problema são as duas coisas, mané. Ó aí o burguesinho achando que a minha miséria concreta é menos sofrível do que a miséria de reconhecimento abstrato que ele pode me dar…

-Desculpe-me – interrompe o Europeu-hegeliano -, mas eu tinha consciência de que a pobreza objetiva não era suficiente para gerar você, Populaça. Achei que você só aparecia quando essa pobreza fosse subjetivada, vivenciada como injustiça radical.

-É, mas enquanto o senhor fica achando que somos o que somos apenas por questões subjetivas, a nossa pobreza objetiva segue firme e forte, e insuportável!

-Tá – rebate o Europeu -, mas não é culpa minha que, quando uma sociedade enriquece, a pobreza tome a forma de uma injustiça cometida pela riqueza. Por aqui, costumamos dizer que injusto é alguém querer ser rico, ou até mesmo reconhecido sem trabalhar arduamente para isso.

-Sempre trabalhamos, senhor – responde o Imigrante. –O negócio é que lá onde vivíamos o trabalho ou não existe, ou, quando existe, não compra nem reconhecimento nem comida. Além do mais, pelo que sabemos, aqui tem gente tão rica que nem precisa trabalhar, como os artistas contemporâneos, os especuladores financeiros, os grandes herdeiros e tal. Sendo assim, se é injusto ser reconhecido sem ser por meio de trabalho árduo, como o senhor diz, a injustiça é coisa dessa terra aqui. Vai vendo…

-Olha, Populaça, vou ser sincero com você. Eu não estou preparado para ver as minhas contradições com elas assim tão perto de mim, vivendo junto comigo. Enquanto você permanecia lá no submundo miserável de onde nunca deveria ter saído, nós lidávamos muito bem com as nossas contradições, ou o que é o mesmo, com a tua miséria. Escrevíamos livros, fazíamos documentários, ou seja, teorizávamos. E, como costumo dizer, se a teoria não se encaixa nos fatos, tanto pior para os fatos.

-Ha, ha, ha! É por isso mesmo que eu vim para cá, seu escroto, para que, pelo menos “teoricamente”, sejamos felizes juntos – debocha o Imigrante.

-Populaça, desculpe-me, mas a história do mundo não é um teatro da felicidade – adverte o Europeu. –A felicidade só acontece quando esquecemos das contradições, ou quando elas estão tão longe que podemos fazer de conta que não existem. Agora, com vocês aqui, fica muito difícil ser feliz.

-Olha, senhor, se eu não me tornar feliz aqui, a coisa não muda para mim não, fica elas por elas…

-Então – contra-argumenta o Europeu -, se tanto faz você ser infeliz aqui ou lá onde nasceu, porque não permanece infeliz lá?

-Vou te dizer por que, bobalhão – engrandece-se o Imigrante Clandestino. –Por que a felicidade teatral do seu mundo é muito mais triste e real para mim se eu ficar lá no meu submundinho, custeando-a à distância. Aí é muito pior. Agora, mesmo que aqui eu não seja feliz como você, pelo menos a minha tristeza miserável talvez seja um pouco menor. Sem falar que comigo aqui você não terá para quem exportar as suas tristeza e miséria proletárias produzidas colateralmente pelas suas riqueza e felicidade burguesas.

-Mas, Populaça, olhe a “big picture”. Você aqui não será mais feliz nem rico do que sempre foi. Ao contrário, essa sua tristeza inerente pode inclusive arruinar a única felicidade e riqueza que existem, que, no caso, são as minhas. Como alguém como você, cujo status social oscila entre o de vítima carente de assistência humanitária e o de terrorista que deve ser contido, pode fazer alguém feliz? Não percebe que, na verdade, você é uma ameaça às minhas perenes felicidade e riqueza?

-Ah, desculpe-me, senhor, a sua felicidade e a sua riqueza não são ameaçadas por mim não. Eu sou apenas um lembrete, só que agora insistentemente presente, de que elas são extremamente frágeis e insustentáveis em si. Não sou eu quem as ameaça, mas você mesmo, Europeu, com essa sua essência imperialista e egoísta.

-Ok, eu sei muito bem que é o meu próprio estilo de vida que me ameaça, mas, como falei, sempre coloquei os meus problemas vivendo bem longe de mim. Então, alienado deles, pude inclusive fingir que me importava com você, Populaça estrangeira. Quando ficava muito chocado com a tua miséria, enviava os meus humanitaristas, distribuía gratuitamente o excedente da minha indústria farmacêutica e até alguns Direitos Humanos Universais que não me faziam falta – explica o hegeliano. –Afinal, é assim que eu sempre fui. Esse é o meu velho jeito, não te lembra dele?

-Mas saiba, senhor, que o novo surge justamente a partir do velho. E eu sou a novidade impertinente que aparece repentinamente nesse seu confortável e velho teatro burguês inerte! – Provoca o Imigrante. –Eu, Imigrante, ou como o senhor quiser me chamar, seja de Populaça, seja de “a nova crise da humanidade”, apareci justamente por que o senhor não vem mudando esse seu jeito insustentável de ser. Entretanto, eu sou essa mesma insustentabilidade, antes continentalmente alienada, agora clandestinamente imanente, apresentada em sua mais nova forma nova: a de refugiado humano contemporâneo! Acostume-se, pois eu sou a novidade crítica e verdadeira que veio acabar com essa sua velharia harmoniosa e falsa.

-Populaça, você está coberta de razão. Mas é que eu estou desabituado a considerar outras razões que não a minha própria. Faz tanto tempo que você não bate assim à minha porta… Conhece aquele ditado: “longe dos olhos, longe do coração”? Pois então… Agora, uma vez que você está aqui para ficar, dê-me tempo até eu saber o que fazer com você, ou, como você mesmo diz, comigo mesmo enquanto produtor desse problema único que somos nós dois juntos – disse o Europeu, rendendo-se à pressão da Populaça Imigrante.

-Ah, quer dizer que agora o senhor começa a se preocupar comigo – provoca o Imigrante. –Engraçado, eu tenho o mesmo valor que tinha quando você não me queria ou sequer se lembrava de mim. Mas só agora, comigo no seu pé, o senhor me trata diferente. Ainda bem que eu me arrisquei para chegar até aqui, hein!

-Não é nada disso, Populaça. Mesmo que demore para que eu entenda objetivamente que a sua miséria é causada pela minha riqueza, no exato momento eu estou subjetivamente comovido pela sua miséria. Por enquanto te ajudarei sob o pretexto de que somos irmãos, afinal, não é isso que todos somos todos aos olhos de Deus e da opinião pública? – Despista o Europeu. – Vamos botar um ponto final nessa história?

-Calma, senhor! Primeiro precisamos deixar bem claro que você não me quer aqui, Populaça clandestina, por mim mesma, porque sou a mesma que você não queria antes. Não se esqueça de que o senhor me quer por outra coisa, por algo que não sou eu!

-Mas que coisa seria essa, Populaça?

-Ah, Europeu-hegeliano de uma figa, você não desconfia de nada?

-Deixe-me ver – pensa o Europeu por vários instantes -, por que eu… sou rico, inteligente, privilegiado?

-Sem essa, mané – irrompe a Populaça. É que você, Europeu, é hegeliano demais, é viciado em colocar um ponto final nas histórias em geral, mesmo que teus “finais felizes” se deem apenas depois dessas suas longas dialéticas humanitárias paliativas e aristocráticas. Se liga: a minha presença aqui é uma contradição concreta que não será sintetizada numa historinha abstrata para você dormir em paz. Enquanto eu estiver aqui, é por que a nossa história não chegou ao fim que você tanto deseja. Ao contrário, essa história está bem em seu insuportável meio, mesmo que você não goste sequer de ouvi-la, muito menos eu de vivê-la.

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