Imigrantes Clandestinos na Imigração Capitalista

-Quem são vocês? – perguntou o Senhor Capitalismo a milhares de pessoas empoleiradas em uma casca de noz clandestina que boiava na parte mais profunda do Mar que separa os mundos humanos.

-Somos Imigrantes fugindo da guerra e da miséria – disseram eles, amedrontados.

-E para onde vocês pensam que vão? – indagou o Capitalismo.

-Para o Primeiro Mundo – disseram eles timidamente -, o lugar onde a vida é melhor!

-E quem disse que vocês podem zanzar pelo mundo, assim, na hora que lhes dá na telha? – insiste o Capitalismo.

-O próprio mundo, ora bolas. A gente nunca teve internet, sabe, mas mesmo assim ouvimos que o mundo agora é globalizado. Então, achamos que seria natural migrar. Poderíamos até dizer que as migrações sempre foram naturais à humanidade. Entretanto, como sequer estudamos, nunca aprendemos isso – responderam os Imigrantes.

-É, vejo que vocês estão por fora do que é globalização… Mas eu vou explicar. Na verdade, o que é globalizado, minha gente, sou eu. Somente eu posso atravessar todos os mares do mundo sem ser barrado. Sem mais, almoço um “paiseco” latino-americano subdesenvolvido, faço a digestão nos EUA, tomo a Inglaterra no chá das cinco, janto Paris, e, se me parecer mais lucrativo, madrugo nas terras de vocês raspando as migalhas que ainda lhes resta. Isso é globalização, nenéns! – desdenha o capitalismo.

-Ah! Disso nós já sabemos – disseram os pobres coitados. -Mas também sabemos que hoje em dia qualquer pessoa pode viajar pelo mundo. Tá certo que não nessa casca de noz aqui, mas de avião, transatlântico, carros esportivos…

-Hahahaha! – Riu o capitalismo. –Vocês acham que basta ser “pessoa” para poder viajar livremente pelo mundo? Digam-me: sem o quê, exatamente, elas não poderiam deixar os buracos de onde partem e para onde voltam, hein?

-Dinheiro? – perguntaram eles, inseguros.

-Exatamente! – Respondeu o Senhor, seguro de si. – É só por causa do dinheiro, melhor dizendo, do capital, que os viajantes são aceitos. Se gastarem bastante em passagens aéreas, hotéis, restaurantes, turismo sexual, por exemplo, é que podem viajar o quanto quiserem. Agora, sem lenço nem documento, como vocês, não, né!

-Mas Senhor Capitalismo, nós estamos indo para o primeiro mundo justamente para nos capitalizarmos, para podermos viajar na sua primeira classe, hospedarmo-nos nos seus hotéis, comermos decentemente nos seus restaurantes… e também aquilo que o Senhor disse por último também, afinal, também somos gente, né…

-Vejam bem, – o Capitalismo os adverte -, é somente a partir de determinada quantia de money que alguém pode ser considerado “gente”. Com um patrimônio um pouco maior esse alguém até pode comprar os Direitos Humanos Universais. Mas de bolsos completamente vazios, desculpem-me, sem essa de “também somos gente”.

-O Senhor não escutou o que dissemos? Estamos migrando justamente para trabalharmos e juntarmos essas quantias mínimas de dinheiro para assim comprarmos a nossa humanidade! – Disseram eles, começando a perder a paciência.

-Vocês são muito tolos mesmo – diz o Capitalismo, interrompendo os Imigrantes. –Onde vocês ouviram essa besteira de que é através do trabalho que se ganha dinheiro? Essa é boa! Olha, vou falar um vez só, viu, escutem bem: o trabalho é o modo através do qual EU ganho dinheiro. Vocês, reles mortais, e tanto faz se forem africanos subnutridos ou norte-americanos obesos, enquanto trabalham, só fazem me enriquecer. Portanto, esqueçam essa história de irem para o Primeiro Mundo para lá serem “gente”. Vocês, de um jeito ou de outro, terminarão mais miseráveis do que já são. Sem dizer que a miséria de vocês já é bastante lucrativa para mim com vocês no submundo onde nasceram.

-É justamente por isso que estamos indo embora de lá – gritou um dos Imigrantes -, porque quando o Senhor vai lá lucrar com a gente, o nosso muito pouco se transforma em absolutamente nada! Agora, se estivermos ganhando um salário de fome nível Primeiro Mundo, podemos ser melhor explorados pelo Senhor e, quem sabe, com um trocado ou outro que reste, comprarmos alguns Direitos Humanos. Não todos, obviamente, pois sabemos que a humanidade total é coisa de rico.

-Hum… – balbucia o Capitalismo, coçando o seu cavanhaque burguês ao analisar a proposta do lumpemproletário Imigrante. Aproveitando o inesperado silêncio do Capitalismo, os demais Imigrantes suplicam:

-Isso mesmo, seu Capitalismo, deixe a gente seguir viajem, por favor! Faremos qualquer coisa. Juramos que trabalharemos feito escravos seus; pagaremos os altos preços de suas capitais; nos esconderemos em favelas, bem longe dos seus centros gentrificados urbanos; não usaremos os seus hospitais e escolas. Deixa a gente tentar te enriquecer mais um pouquinho, vai…

-Isso começa a cheirar bem – diz o Capitalismo, baixando um pouco a guarda. -Agora vocês estão falando a minha língua! Mas, esperem! Não basta um subemprego e uma vida miserável. Se a gente não pensar muito bem aonde a miséria de vocês é mais lucrativa, vocês acabam me desequilibrando todo. Deixe-me pensar bem para onde eu mando vocês.

-Ué – diz outro Imigrante -, mas o Senhor não contou que está em todos os lugares, que é a globalização em pessoa? Que diferença faz então se a gente for para um lugar ou para outro? Deixe-nos pelo escolher para onde.

-Nã, nã, nã, nã, nã! – falou verticalmente o Capitalismo. Deixe de ser impertinente, menino. Se não, afundo essa casquinha de noz aí de vocês, hein?

-Não, Senhor Capitalismo! Não nos mate, por favor! – gritaram em coro os milhares de Imigrantes. –Tudo bem – disseram alguns deles -, a gente aceita que o Senhor nos leve para onde achar mais adequado. Mas, por misericórdia, não nos faça voltar para casa.

-Ah bom! Assim é melhor – disse o Capitalismo, já pensando qual seria o melhor destino para a cambada de imigrantes clandestinos. Prossegue:

-Não sei se vocês sabem, mas nos países mais ricos do mundo a tecnologia tirou todos os verdadeiros seres humanos das minhas mais desumanas tarefas. A Alemanha, por exemplo, é tão rica que as pessoas não precisam nem mais procriar. A população desse nobre país está encolhendo, o que é um problema sério para mim…

-É para lá que queremos ir então! – Interpelam os Imigrantes.

-Combinado – disse o Capitalismo. -Deixe-me contatar as forças humanitárias para que elas venham com os meus barcos superpotentes, devidamente uniformizadas, e resgatem vocês dessa casca de noz ridícula, antes que vocês se afoguem. Do contrário, vai parecer que sou cruel. Sabe que não precisa muito para os comunistas falarem mal de mim, né

-Isso, tire-nos rápido daqui, Senhor! Por favor.

-Calma, gentalha. Preciso repercutir o problema de vocês antes. Tenho uma voraz mídia sensacionalista que precisa divulgar a miséria de vocês, para lucrar bastante com ela antes de vocês caírem novamente no esquecimento do mundo, e antes que eu siga lucrando com vocês até as suas mortes – pede calmamente o Capitalismo.

-Não, Senhor Capitalismo, nós já estamos expostos demais, não faça troça internacional com a gente – suplicam os Imigrantes.

-Vem cá, vocês não entendem que sem o problema de vocês ser bem banalizado as pessoas do Primeiro Mundo não se sentirão superiores a vocês, privilegiadas a ponto de poderem consumir burguesamente a prática do humanitarismo? Se esquecem de que quando um rico ajuda um pobre, ajudar senão a si mesmo? É que esses burgueses são muito românticos… Veem alguém miserável e já ficam sofrendo só em imaginar o que seria a miséria. Ademais, ser humanitário de vez em quando faz com que os ricos se sintam ricos justamente naquilo em que são absolutamente pobres, isto é, em humanidade. Tá! Vai dizer que vocês acharam que algum rico ia ajudar vocês para que VOCÊS fossem felizes? Façam-me o favor…

-É que estamos com sede, com fome, com sono – explicam os Imigrantes. -Não podemos esperar o mundo ler jornais e rolar os seus feeds de notícias do Facebook até que se torne natural aceitar Imigrantes desesperados dispostos a serem explorados.

-Ui, Ui… Vocês já não estavam com fome, sede, e já suficientemente miseráveis antes? – Pergunta jocosamente o Capitalismo. -Que história é essa de achar isso estranho justamente agora? Eu Hein. Se fosse pela miséria “natural” de vocês eu e burguesada geral já teríamos ido no fim do mundo de onde vocês brotaram para buscá-los.

-E por que não fizeram isso até agora? – perguntam os esfomeados.

-É que… – titubeia o Capitalismo, procurando a melhor maneira de dizer o pior. Todavia, sem conseguir, diz do seu jeito mesmo: -Miséria pouca é bobagem!

-Ah! – exclamam em coro os Imigrantes. Pode crê! Miséria pouca é bobagem. Se a gente for mais miserável do que já somos obviamente as coisas podem ir mais rápido!

-Ignorantes espertos vocês, hein! – completa o Senhor impiedoso.

-Gente, gente! – Gritam os imigrantes uns aos outros. –Vamos pular, uns de nós, no mar e morrer. Assim as notícias correm mais rápido, e mais rápido quem restar chega ao Primeiro Mundo!

-Isso! – diz o Capitalismo. -Se a metade de vocês morrer a outra metade chega mais rápido ao meu destino! Mas, claro, a pressa é de vocês.

-Já sei! – Exclama um dos Imigrantes lá do fundo da casca de noz. –Falta-nos um símbolo universal com o qual o mundo não resista e não demore em nos ajudar.

-Mas nós já estamos morrendo, idiota – diz um Imigrante ao se lançar ao mar. -O que mais podemos fazer?

-É que a morte anda tão banalizada hoje em dia – responde o primeiro -, que precisamos de uma morte que fique bem na foto, abaixo da manchete internacional que somos.

-Estou gostando disso – disse-lhes o Capitalismo. –Posso dar uma sugestão? Afinal, sou um ótimo publicitário…

-Claro, Senhor, ajude-nos!

-Um bebê! – Diz o Capitalismo, como se imaginasse um comercial de TV. – Um bebê imigrante clandestino morto, levado pelas marés, chegando a uma praia europeia, em pleno verão… Voilá! Tenho certeza que com algo assim nós sensibilizamos a insensibilidade do mundo.

-Mas… – dizem os pobres Imigrantes, olhando-se uns nos olhos dos outros, aturdidos com a proposta absurda feita pelo Capitalismo -, ninguém merece isso, nem mesmo os burguesinhos…

-Não interessa! – impõe o Capitalismo.

-Não! Isso nós não aceitamos – dizem os Imigrantes. – Nossos bebês já são maltratados demais pelo Senhor. Poupe pelo menos os nossos bebês!

-Calem a boca vocês que restam vivos e me deem esse bebê aqui – ordena o Capitalismo.

-Não! Não! Não! Tenha piedade de nós! – Pedem os coitados

-Piedade? Vocês não estão trocando os deuses, hein? Piedade é coisa que se pede para o pai ausente daquele hippie crucificado. Como é mesmo o nome dele?

Enquanto os Imigrantes pensavam qual deus seria piedoso para com eles já era tarde demais. O bebê que o Capitalismo escolheu para ser o símbolo de mais recente crise humana já boiava, inanimado, seguindo em direção à uma praia turca.

E não é que o Capitalismo estava certo? Dias depois, a imagem da pobre criança estava na capa dos jornais de todo o mundo, sensibilizando até as almas burguesas mais egoístas, levando-as a terem vontade de consumir a nova mercadoria da moda, qual seja, o humanitarismo para com os Imigrantes Clandestinos. Humanidade paliativa!

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