Liberdade aquém-sentido

Algum sentido se apoderará desse texto a qualquer momento. Não por muito tempo estas letras enfileiradas permanecerão absolutamente livres. Apesar de eu, de fato, só escrever letras, que em si são vazias de sentido, é inevitável que, com elas, palavras surjam no caminho. Ainda bem que as palavras ainda guardam sentidos diversos do que elas têm quando muitas delas juntas! Mesmo estas quatro primeiras frases, apesar de expressarem sentidos só seus, ao final do texto se curvarão em conjunto diante de um sentido exigente mais imperioso do que elas. Como escapar disso?

Tento fugir do sentido final porque se ele se fizesse presente desde o início do texto, estas letras, palavras e frases já teriam se tornado escravas suas. Isso porque o sentido age como um Senhor Capitalista transcendente a subjugar a imanente mão-de-obra proletária através da qual devém, abstraindo-a, reificando-a, explorando-a, senão em função de um sentido maior e, infelizmente, unívoco. Por essa razão, uma letra proletária nunca será um poema capital! Que injustiça semântica.

No entanto, mesmo que o sentido deste texto esteja sendo preterido, obviamente para que ele não se assenhore cedo demais destas livres letras palavras e frases, elas, de certa forma, já são escravas suas, como eu e o leitor já desconfiamos. Entretanto, enquanto elas pensam que são livres, trabalham alienadas do sentido que as colocará cada uma no seu posto dessa linha de montagem textual. Afinal, somente enquanto o sentido deste texto aqui não se instalar definitivamente é que esta frase, por exemplo, poderá dizer mais do que ela dirá depois que o último ponto final for colocado.

No entanto, só consigo obscurecer o sentido desse texto, para deixar as letras, palavras e as frases em paz, fazendo do próprio sentido o assunto em torno do qual elas giram, com muito esforço, sem tocá-lo, abstraindo-o intencionalmente. Vingança? Porém, 1597 letras, 305 palavras, 13 frases e três parágrafos e meio depois o poder do sentido já se faz sentir. É inevitável. Diante do derradeiro, a única estratégia destas letras, palavras, frases e parágrafos contra o irremediável assenhoramento do sentido seria o “nonsense” radical, mas, com efeito, nesse caso, a união delas faz a sua fraqueza.

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