Os dois lados do Túnel dos Direitos Humanos

A praia é o lugar mais democrático do Rio de Janeiro. Só que não! No último domingo, 23 de agosto de 2015, negros pobres suburbanos da Zona Norte, por ordem do rico e poderoso Governador Pezão, foram impedidos, às portas do Túnel Rebouças que liga o subúrbio à Zona Sul carioca, de usufruírem do “Direito Universal” – que, portanto, deveria ser também deles – de irem e virem, justamente, à praia. Para estes, de fato, os Direitos Humanos universais outra coisa não foram além de uma boa história para burguês dormir – ou tomar banho de mar – sossegado.

Já do outro lado do Rebouças, da perspectiva dos burgueses ricos cosmopolitas cariocas da Zona Sul, apólogos mentirosos da democracia praiana, a mesma ordem do rico e poderoso Governador Pezão possibilitou, melhor do que nunca, que eles fossem à praia e voltassem dela conforme a cartilha dos Direitos Humanos prega. Pelo mesmo em relação ao direito dominical de ir e vir livremente à praia resta muito claro a favor de quem os Direitos Humanos Universais funcionam prioritariamente.

Por isso Slavoj Žižek faz questão de não nos deixar esquecer de que essa coisa chamada “Direitos Humanos Universais” é, na verdade, uma instituição feita pelos ricos e poderosos para, sob a pressuposta universalidade da proteção que ela oferece, permanecerem absolutamente desumanos e, ademais, desumanizando os há muito desumanizados sistematicamente por eles, com a garantia de que se porventura forem punidos pelas suas desumanidades, o sejam “humanamente”.

Entretanto, se de fato os Direitos Humanos Universais são o escudo criado e empunhado pelos os ricos e poderosos para que eles possam ser desumanos à vontade, a humanidade abstrata deles, que, do lado desejado do Túnel Rebouças, lhes assegura o paradoxal direito de serem desumanos, ali, do lado indesejado do mesmo túnel, tal humanidade é concretamente desumana.

Uma vingança ao estilo “olho por olho” por parte dos suburbanos barrados somente os afastaria ainda mais dos já distantes Direitos Humanos que mentem muito bem serem também deles. Talvez a poderosa desumanidade da Zona Sul até achasse essa desforra apropriada, conquanto, é claro, houvesse um túnel privado que os conectasse diretamente ao aeroporto internacional, que, por ironia urbana, fica justamente na Zona Norte.

A ideia, obviamente, não é retornar à barbárie do “olho por olho dente por dente”, mas, ao contrário, desnudar a desumanidade travestida de humanidade sob o privilegiado manto dos Direitos Humanos Universais, para assim, livres de tal andrajo excludente, os seres humanos em geral terem o direito de vestir a tão alardeada humanidade que, entretanto, só será verdadeiramente humana e democrática no dia em que todos puderem ir e vir livremente, seja à praia, seja aonde for, independente do lado do túnel social em que se encontrem.

Temos, portanto, de confrontar estas duas “humanidades” cindidas pelo privilegiado túnel dos Direitos Humanos Universais – no caso carioca, pelo Túnel Rebouças – e esclarecer quem de fato está sendo humano, desumano, desumanizador e desumanizado. De tal esclarecimento depende a instituição de Direitos Humanos VERDADEIRAMENTE universais e, sobretudo, o fim dessa utopia ideológica que ilude os pobres e desapoderados de que eles têm os mesmos direitos que os ricos e poderosos.

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4 comentários sobre “Os dois lados do Túnel dos Direitos Humanos

  1. Eu sou de Belo Horizonte e não entendi direito. O túnel foi fechado no dia em que os moradores da zona norte vão para as praias da zona sul? é isso? Com qual justificativa o governador fez isso?

    1. Olá Ozimarbovio. Não o túnel não foi fechado. O que aconteceu é que o Governador, na tentativa de evitar assalto nas praias da Zona Sul aos domingos, colocou barreiras policiais do lado norte do Túnel Rebouças e antes do centro para impedir que possíveis assaltantes se dirigissem à “nobre” Zona Sul. Então, os policiais, sei lá com que instruções e treinamento, escolhiam aqueles que lhes pareciam ameaçadores, que, como não podia deixar de ser, foram negros, pobres em sua totalidade. Dois absurdos: 1) se é marginal não deve sair da Zona Norte, é para ficar por lá, e não nalguma cadeia, e 2) julgar alguém por um pré-crime é coisa que só em Minority Report, aquele filme do Tom Cruise, acontece sem que haja injustiça… A justificativa cara-de-pau do Governador é que a ordem da ZS deve ser mantida e que pré-selecionar possíveis marginais não fere o direito de ninguém. Acredita nisso? Abraço.

  2. Nossa, preconceito de classe e provavelmente de raça também! Conversei com um segurança sobre os critérios p identificar um indivíduo suspeito ele disse o problema é que alguns policiais e seguranças exageram na abordagem antes de verificar a causa do comportamento suspeito deste. Disse também q o correto é desconfiar do comportamento e não da aparência do indivíduo. Logo indo pelo raciocínio deste concordo com vc que é um absurdo a atitude do governador. O que deve ser feito é melhorar o treinamento policial e o efetivo em dias mais cheios!

    1. Com certeza. Além do mais, essa polícia também deveria averiguar o comportamento dos ricos da Zona Sul para que eles não vão até a Zona Norte cometer crimes, como Thor Batista, há dois anos, lembra? Não só estes, também a politicagem que mora em frento ao mar mas que, “trabalhando” assalta os suburbanos.

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