A pirrônica Filosofia do Agora

A busca da Filosofia pelos universais é tão antiga quanto ela própria, afinal, para ser uma ciência, melhor dizendo, “A ciência primeira”, como queria Aristóteles, ela deve tratar daquilo que, do Ser, valha universal e eternamente. Do contrário, as verdades filosóficas valeriam apenas em determinados casos e para determinados indivíduos, ou seja, em nada difeririam das múltiplas, contingentes, e portanto descartáveis opiniões humanas. Desse ponto de vista, uma filosofia que pressuponha apenas o agora como limite aos seus objetos, limita-os à validade desse mesmo agora. Por isso, tradicionalmente, o pensar filosófico prioriza o que é sempre.

Todavia, qualquer filosofia só pode ser feita a partir de um agora determinado ou outro, pois o filósofo, assim como o ser humano em geral, está sempre contingenciado por um agora específico. Logo, a despeito dos superestimados e abstratos universais eternos subsistem, de modo concreto, apenas os particulares e todavia efêmeros “agora”. De maneira que é sempre em um agora determinado que a Filosofia tanto pergunta pelo Ser como encontra predicados para ele. Portanto, se a filosofia pretende ter validade universal, deve considerar apenas o universo do Ser que há agora. Todo resto outra coisa não é senão ficção, melhor dizendo, mito.

Entretanto, o que é exatamente o agora absolutamente válido? Ora, o agora pode ser qualquer coisa, ou o que é o mesmo, nenhuma delas necessariamente. Todavia, a única coisa que não se pode negar do agora é que ele “é”, necessária e universalmente! Chegamos, portanto, à encruzilhada paradoxal na qual a efemeridade do agora encontra o seu corpo eterno e necessário: o agora é não só o momento exclusivo do Ser como também aquilo que lhe atribui essência, pois o Ser só é dentro de um agora qualquer. Fora deles, não é, apenas foi ou será.

Agora, se só o Ser “é”, mas não “enquanto” é os seus muitos predicados, ele só “é” o que é agora, pois “só o agora é”. Embora os filósofos se utilizem dos predicados para iniciarem suas relações com o Ser, o respeito a ele, todavia, pede para que tais predicações desapareçam o mais rápido possível. Do contrário, o Ser passa de um agora a outro “na forma” de seus predicados que, entretanto, são contingencias dos limites do agora a partir do qual foi predicado. O Ser, por conseguinte, para “ser”, deve ser livre das vestes predicativas, sempre obsolescentes, cosidas pelos incessantes e diversos “agora”.

Talvez seja o caso de a nada científica Filosofia do Agora não ser nada além do velho ceticismo de Pirro de Élis, cujo radicalismo o impedia inclusive de pronunciar qualquer juízo acerca das coisas, o que o levou ao silêncio absoluto. A filosofia pirrônica via pertinência na silenciosa percepção da existência presente e no exercício sistemático de não predicá-la. Tal ceticismo emudece pois, por um lado, acredita não ter como saber o que o Ser é em si mesmo – pelo menos com a validade e a universalidade que uma ciência pede -, e, por outro lado, uma vez que não se sabe o predicado eterno do Ser, qualquer predicação que se dê a ele desvaneceria já no instante seguinte.

Seria justamente Pirro o primeiro e excelente Filósofo do Agora, ou seja, o primeiro a recusar o antes e o depois como terreno possível aos predicados que o Ser angaria para si no gora em que se apresenta? Se sim, é por que foi ele quem se calou primeiramente sobre o que o Ser é afora o exato agora. Para esse filósofo, para além de um agora “X” decerto se aventuram as predicações com as quais este agora vestiu o Ser. Todavia, o que vale para um agora é impertinente aos demais, pois cada agora é um guarda-roupas exclusivo cujas vestes são apropriadas apenas para o seu próprio e efêmero baile de máscaras predicativas.

Portanto, no intuito de não travestir o Ser com predicados obsolescentes, mais vale a nudez silenciosa na qual a filosofia pirrônica o mantém, e isso em todos os “agora”. Do contrário, predicando-se “agora” o Ser para que ele seja tal predicado nos “agora” subsequentes, quiçá eternamente, faz-se do Ser os seus predicados. Aí há só falatório, ou pior, fofocas. Uma Filosofia, portanto, para ser universalmente científica, deve ser silenciosa acerca do que, a respeito do Ser, há para além das fronteiras do exato agora no qual ele é. Dentro destes limites, entretanto, o silêncio pode ser tão estridente quanto se desejar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s