Dispensando Cunha “salvador”

A todos aqueles que gritaram e gritam que Eduardo Cunha, apesar dos seus ilícitos cada vez mais tácitos, é o “Salvador do povo”, começo dizendo a célebre frase de Bertolt Brecht: “O que é o assalto de um banco comparado à fundação de um novo banco?”, para, contudo, terminar perguntando a eles o que é ser assaltado por um corrupto senão a refundação de uma velha corrupção? Concidadãos, o que aconteceu com o sábio e econômico dito popular “dos males o menor”?

Quem, apesar de tudo, ainda prefere Cunha, escolhe, de fato, dos males o maior. Obviamente, o mal maior que preferem é algum bem menor para si mesmos; algum privilégio que, entretanto, pelo fato de ter Cunha como figura salvadora, é de imediato incompatível com a lisura e, portanto, com a democracia. Entretanto, “o sujeito que quer reduzir o Estado a um guardião de sua segurança privada e de seu bem-estar, tem de ser esmagado pelo Terror do Estado revolucionário, que pode aniquilá-lo a qualquer momento”, coloca Zizek, em Menos que Nada, discorrendo sobre o que é o Terror de Estado para Hegel.

Sim, chamam Cunha de “salvador” porque estão aterrorizados diante de um Estado que revolucionariamente ensaia – há pelo menos doze anos – ser bastião do bem-estar e da segurança da maioria, e não apenas dos da minoria historicamente favorecida pelo Estado reacionário que ensaia a sua própria morte. Os pretensos “protégé” de Cunha são, portanto, absolutamente negativos à evolução social brasileira. Com um salvador como este, o que estes “fiéis” querem é ser reconduzidos ao velho&obscuro Brasil que até bem pouco tempo só iluminava oligarquicamente.

No entanto, em respeito ao terror que leva alguém a desejar ser salvo por Eduardo Cunha, Zizek diria o mesmo que Hegel disse ao seu cidadão aterrorizado, isto é, que “o sujeito deveria reconhecer no terror externo, nessa negatividade que ameaça constantemente aniquilá-lo, o próprio cerne de sua subjetividade, deveria identificar-se diretamente com ele”, pois, só assim, dizem os dois filósofos, “o Senhor externo é substituído pelo interno”. Veria, portanto, primeiro, que o mal que teme está dentro de si, e, em segundo lugar, que não é o salvador diante do qual se ajoelha quem o salvará, mas somente a virtuosidade da sua relação individual com aquilo que o aterroriza, sem intermediários.

Por isso, quando Zizek diz que “o sujeito tem de se identificar plenamente com a força que ameaça exterminá-lo”, devemos ouvir que, em relação à grave graça de Cunha, é melhor que os brasileiros aterrorizados se identifiquem e se reconciliem com o problema que os aterroriza, e não com a velha&oligárquica máscara com a qual Cunha finge ser um salvador. Não, o evangélico Cunha de forma alguma possui ou sequer conhece a solução para a nossa realidade, assim como, para Zizek, nem a própria Igreja possui algum conhecimento superior; “ela é como uma carteiro que entrega a correspondência sem ter ideia do que ela diz”.

Por conseguinte, enquanto alguns crerem que alguém como Cunha os salvará do problema que os aterroriza, estão somente revivificando, em torno de si mesmos, tais problema e terror. Se fossem galinhas, seria como se escolhessem a raposa como salvadora. Por isso Zizek tem razão em dizer que o horror do homem é que, nele, o Mal torna-se radical, deixa de ser o simples mal egoísta, como o dos animais, e passa a ser o Mal mascarado, como acontece no totalitarismo, em que um agente político particular apresenta-se como salvador da humanidade. O problema, contudo, é que a máscara total não deixa ver quem a usa. Só assim as galinhas creem que uma raposa mascarada pode protege-las das raposas em geral. E, portanto, só assim, alguém pode querer um Cunha mascarado como salvador.

É por que o terror aponta senão para algo real que ele nos horroriza. Então, se é da verdade nua e crua que os que adoram Cunha têm medo, quanto mais mentirosa for a máscara dele, mais ela os alienará do aterrorizante real, todavia mentindo uma reconciliação com tal realidade. Entretanto, relembra Zizek, “para Hegel, para passarmos da alienação à reconciliação, não devemos mudar a realidade, mas o modo como a percebemos e [principalmente] nos relacionamos com ela”, pois, segue o filósofo, “a única coisa que muda na reconciliação é o ponto de vista do sujeito”.

Ok, nem tudo está perdido para os fiéis de Cunha, pois há salvação em relação à danosa “salvação” que ele oferece. A verdadeira salvação está em que, conforme Hegel, somente o gesto errado cria as condições que possibilitam que o sujeito realmente veja por que o gesto é errado. Portanto, apesar de a fidelidade a Cunha ser realmente errada – pois ser fiel à raposa é o erro máximo da galinha – tais crentes, no entanto, só podem partir dela para então chegarem a ver que estão errados. Como dizem vários filósofos, “todas as coisas, retroativamente, terão sido necessárias”, inclusive o absurdo de ver em Cunha espécie de salvação.

Ora, galinhas de Cunha, o salvador de vocês não é solução para os seus problemas, quiçá para os dele próprio, que, aliás, estão cada vez maiores. O problema de vocês é o mesmo que o de todo cidadão, e não só os brasileiros. Para Hegel, conta-nos Zizek, o Estado em geral é que é o problema. As soluções que se busca para tal problema algumas delas até se parecem com o que Cunha representa, mas transcendem a miséria que ele oferta. Com efeito, o Estado tenta resolver o problema insolúvel que ele mesmo é em forma ora de tirania, ora de oligarquia, ora de aristocracia, ora de democracia. No entanto, cada uma destas tentativas de solução apenas mantém o problema sempre vivo.

Um passo adiante, uma elevação em relação a esse problema sempiterno que é o Estado, portanto, dizem Hegel e Zizek, “ocorre exatamente quando, em vez de continuar procurando uma solução, nós problematizamos o problema em si”. Sendo assim, não só os fiéis de Cunha, mas todos nós, em vez de nos apegarmos à soluções fáceis, que geralmente são máscaras paliativas, deveríamos encarnar, encenar, protagonizar ao máximo o problema do Estado que somos, sem elencarmos, estratégica ou covardemente, atores-representantes que atuem transitivamente os fantasmas que qualquer Estado emana. Só desse modo o nosso galinheiro “brasilis” estará não só livre de Cunhas, mas, principalmente, apto a dispensar tais raposas.

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