O complexo de Édipo do coxinha

É bem difícil encontrar um território não paradoxal aos desejos manifestados pelos brasileiros que, democraticamente, pedem a volta da monarquia e da ditadura militar. Com efeito, agem como crianças mimadas que desejam mais do que é razoável, ou seja, coisas que se autodestroem: por um lado, precisam da democracia para poderem desejar livremente outras formas de governo, e, por outro, desejam justamente formas de governo que automaticamente suspenderiam a democracia que lhes deu o direito de desejá-las livremente.

Se tal infantilidade política se deitasse num divã, para então conhecer as causas da insustentabilidade dos seus desejos, o infeliz psicanalista provavelmente começaria complexificando-a edipianamente. Claro, não sem o protesto de Gilles Deleuze, para quem a fácil forma “papai, mamãe e eu” é mais um vício $i$temático do que uma virtude libertária. Entretanto, a “esquizoanálise” proposta pelo filósofo em substituição à psicanálise seria demasiado agorafóbica ao coxinha; ele sequer voltaria para a segunda sessão. Então, se, como é fácil observar nas avenidas brasileiras, o coxinha é aquele que prefere a claustrofobia do $i$tema, façamos como o psicanalista e o prensemos entre seu papai ideal e sua mamãe problemática.

Os paradoxais coxinhas, obviamente, fariam o papel do bebê pleno de desejos ainda impossíveis de serem expressos de modo pertinente ou sequer atinentes às possibilidades do real. Abaixo deles, a mãe-material, Dilma Rousseff, que de forma alguma poderia deixar de saciar, imediata e imanentemente, os seus muitos e conflituosos desejos. Finalmente, acima dele, o pai-ideal, monarca ou ditador, que, por conta da sua natural transcendência em relação a unidade primeira “mamãe e eu”, poderia, com seu falo despótico, ou impor à mamãe a realização dos desejos não atendidos do bebê, ou puni-la caso não o faça. Isso porque o falo do pai faz o papel de um ídolo salvador.

Como bem observou Deleuze, é nessa fase fálica edipiana que uma nítida diferenciação dos dois pais começa. Subterraneamente, a mãe é aquela incapaz de fazer o bebê absolutamente feliz, e, nas alturas, o pai é aquele que pode introduzir o seu falo na jogada e tornar Lei vertical a realização dos desejos do neonato. O complexo de édipo é o mesmo que o complexo dos coxinhas enquanto a incapacidade de Dilma-mãe, que frustra materialmente os seus elevados ideais, tiver de ser corrigida senão pela pretensa capacidade de um ditador-monarca-pai, que idealmente promete lhe a realização material das suas necessidades.

Com efeito, para o bebê-coxinha, o falo ideal do pai-monarca é o instrumento perfeito destinado a reparar a incapacidade da mãe-Dilma de suprir materialmente a sua voraz sede por uma cidadania conjunturalmente irrealizável. Não sabe, contudo, que a realidade para além da crísica bolha <Dilma-mamãe e eu-coxinha> será tão plena de privações quanto essa mãe mesma já expressa através da sua impossibilidade de saciar plenamente os desejos do seu rebento-cidadão. Ignora, outrossim, que em relação à realidade concreta que o circunda, e que o circundará até o fim de sua vida, esse falo idealizado em forma de um pai-tirano tampouco abstrairá as vicissitudes da vida, muito pelo contrário.

Entretanto, enquanto o falo salvador do papai-monarca for a única punição à mamãe-Dilma, e isso tudo em função dos desejos frustrados dos bebês-coxinha dela, estes estão tão presos a um complexo político quanto Édipo está ao seu. Isso porque, parafraseando Deleuze, todo Édipo-coxinha conjura a potência infernal das profundidades impossíveis de sua mamãe-Dilma à potência celeste das alturas prometida pelo falo despótico de um papai-ditador idealizado. Esse coxinha, assim como Édipo, reivindica para si um terceiro império, a superfície ideal entre mamãe e papai. O preço dessa superficialidade, contudo, é a mesma cegueira auto imposta da qual o personagem mitológico não se viu livre.

Se, conforme Deleuze, no complexo de Édipo “jamais a criança teve melhores intenções na sua confiança narcísica”, mediante a atual complexidade política brasileira, jamais o bebê-coxinha teve melhores intenções na sua confiança egoística. Com efeito, o seu ego só será “super” se o corpo incapaz da mamãe-Dilma for corrigido pelo falo poderoso do papai-rei-general. Todavia, de um só golpe, o coxinha se aliena de sua realidade material imediata e se refugia na idealidade de um salvador transcendente, que, entretanto, imanentemente, é igualmente incapaz de satisfazê-lo absolutamente.

Essa fé cega em um pai-ditador ideal, por conseguinte, é apenas a antessala na qual qualquer pai-ditador real inevitavelmente comprovará que é tão ou mais ineficaz do que a mãe-Dilma contra a qual o Édipo-coxinha se vinga. Desse modo, o coxinha, a exemplo do que Deleuze disse de Édipo, é um “Eventum tantum”, cuja superficial complexidade se resume em castrar a mãe, matar o pai, ser castrado e morrer. Ou pelo menos permanecer cego em relação à realidade que ele mesmo não suporta, como Édipo depois de furar os seus olhos com uma flecha, que, aliás, bem pode simbolizar o falo ideal que não o salvou, mas, muito antes disso, já havia lhe cegado.

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