Coleira de pérolas coléricas

Pior do que as atuais crises política e econômica brasileiras juntas é a crise humana que marcha em “mani-infestações” como a deste domingo, repleta de gentes e discursos desumanos e antidemocráticos. Alguns minutos assistindo aos absurdos que desfilavam orgulhosamente pela orla de Copacabana foram suficientes para juntar pérolas não menos absurdas para montar não um colar, mas uma coleira de pérolas de ignorância que outra coisa não faz senão agrilhoar as ostras políticas que as produzem às suas próprias ignorâncias.

Pedir por um país mais democrático destruindo a democracia; lutar por um país menos corrupto desmerecendo um governo que combateu a corrupção mais do que qualquer outro; clamar livremente por uma intervenção militar que, como a história recente do Brasil pode mostrar, suprimiria justamente tal liberdade; foram apenas algumas das bijuterias contraditórias com as quais os mani-infestantes verde&amarelos adornaram as suas livres, todavia absurdas, expressões.

Tais pérolas malogradas, no entanto, parecem mais as simbólicas bolas de ferro com as quais os condenados eram impedidos de escapar da servidão forçada. Só não desejo que as bestas políticas sejam aprisionadas às joias impróprias pelas quais clamam colérica e contraditoriamente porque, como se diz, têm coisas que não se deseja nem para o seu pior inimigo. Além do que, se, ali, eles perdessem as suas liberdades e direitos democráticos, como a “intervenção militar já” pela qual pedem fatalmente traria, aqui, infelizmente, todos os demais cidadãos estariam sujeitos à mesma privação.

As crises fazem parte das vidas política e econômica de qualquer país. Entretanto, embora repitam o vício de não poupar aqueles que já vêm afetados política e economicamente desde antes das crises, elas têm ao menos a virtude de colocar os que acham que a realidade é insuportável apenas sazonalmente no mesmo país daqueles. A diferença é que para uns as dificuldades conjunturais são estrangeiras intoleráveis que dificilmente adentram nos seus condomínios murados, enquanto que para outros, ou melhor, para a maioria, as dificuldades são vizinhas conhecidas e próximas que a qualquer momento podem bater palmas no portão de casa.

Agora, quando os mais privilegiados são abordados pelas mesmas vulnerabilidades, velhas conhecidas dos desprivilegiados, e isso pela crise da sórdida ordem que estrategicamente faz com que os problemas sociais passem ao largo das suas torres de marfim burguesas, estes, ao contrário daqueles, não sabem o que fazer. Então, batem panelas que nunca estiveram vazias e gritam histericamente pelo fim da democracia que lhes permite gritar democraticamente. Isso porque eles não suportam estar expostos às vicissitudes da realidade como a maioria das pessoas cotidianamente está.

Preferem, portanto, trocar a liberdade democrática e a dignidade humana que têm em comum com os desprivilegiados pelas privações de uma ditadura militar qualquer conquanto esta lhes garanta seus velhos e insustentáveis privilégios. Só mesmo um grande absurdo para sustentar outro! Não enxergam, contudo, que as pérolas impróprias com as quais montaram o cordão que mente isolá-los da realidade com a qual não estão acostumados são os elos de uma coleira colérica que os prende, como cães sarnentos e raivosos, a uma realidade ainda mais vil do que aquela contra a qual protestam.

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