O Tinhoso no divã Hollywood

Não se faz mais diabos como antigamente, graças à Deus! O primeiro internacionalmente conhecido, descrito por Dante Alighieri como um ser horrendo, de três cabeças enormes e que jazia solitário no centro da terra preso da virilha para baixo num lago eternamente congelado, em nada se parece com o diabo que a Fox mostra na sua mais nova série de TV, Lúcifer, a estrear oficialmente em 2016. Entediado com a sua eternidade subterrânea, o Belzebu mais contemporâneo de que se tem notícia escolheu Los Angeles para “dar um tempo” longe do seu inferno, presente maldito de seu autoritário Deus Pai.

De diabólico, Lúcifer Morningstar – o nome estiloso como o qual “o Coisa-ruim” se apresenta na terra das celebridades – mantém apenas a sua imortalidade e a capacidade de fazer com que as pessoas expressem os seus mais secretos e pecaminosos desejos. De resto, ele é demasiado humano. Melhor dizendo, o Asmodeus é aquilo que quase todos os humanos desejam ser em demasia, isto é, jovem, rico, belo, sedutor, inteligente, espirituoso, dono de um Porsche conversível e de trajes Armani negros impecáveis.

Com esse cacife, o Belzebu contemporâneo não poderia deixar de frequentar “nightclubs” da moda repletos de gente bonita e bem vestida. Entre um drink e outro, uma famosa cantora Pop, viciada em heroína e descontente consigo mesma, apaixona-se por ele – como, aliás, todas as demais mulheres -, sem, contudo, saber quem ele é. A dúvida que a angustiava era se, em troca do sucesso, havia vendido a sua alma ao Diabo. Ele ri e diz que o diabo não compra almas humanas, apenas se apaixona por elas.

Lúcifer, contrariando a sua fama, sensibiliza-se com miséria espiritual da bela garota, aconselhando-a fraternamente para que se recompusesse na vida. Porém, no instante em que ela aceitou os bons conselhos do Demônio, Deus designou o traficante a quem ela devia dinheiro de droga a disparar uma rajada de tiros contra eles dois. Ela, como era de se esperar, morreu na hora. Morningstar, contudo, imortal e hollywoodiano que é, não teve sequer o seu Armani amarrotado. Mesmo assim – espanto! – prometeu fazer justiça.

Uma policial humana que investigava a morte da cantora assassinada não entendia como Lúcifer Morningstar havia escapado ileso do ataque. Ele repetia que era imortal, o que ela, obviamente, não levava a sério. Porém, doravante, em todos os passos da investigação, Lúcifer estava sempre um passo à frente dela. “Long Story Short”, os dois se veem irremediavelmente envolvidos pelas circunstâncias. Todavia, diferente de todas as mulheres do mundo, ela não é seduzida sexualmente por ele. Não entendendo por quê, é ele que cai seduzido por ela, e, surpreendentemente, passa a ser o seu anjo-da-guarda.

Só aí os arcanjos divinos abordam o Capiroto. Pelo jeito, para Deus o fato do Sete Peles ter abandonado o inferno não é tão grave quanto ele sentir compaixão por quem, ao contrário, deveria infernizar. Lúcifer, então, entra em uma crise existencial e, pasmem, procura uma psicanalista. Esta, antes mesmo de tratar da alma do Diabo, ou de vender a sua, entrega “de bandeja” o seu corpo a ele. Prometendo pagá-la com sexo, o Cadreel entra no consultório, fecha a porta e o episódio piloto de sua mais nova série.

Um Satanás livre, compassivo, desejável, e sobretudo desejoso por analisar a sua própria consciência, arruinaria não só o totêmico Inferno de Dante, como também o bendito protagonismo de Deus, pois ambos precisam do antagonismo maldito do Diabo para serem convincentes e consistentes. Ora, o Bem só se revela através do matiz contrastante do seu oposto, o Mal. Isso vale, aliás, para todo par de contrários. O Bem absoluto, ou seja, Deu, é criticamente ameaçado pelo desejo de bondade e correção do Mal absoluto, qual seja, o Diabo.

Agora, se o mundo do espetáculo dá aos seus habitantes-consumidores justamente aquilo que eles mais desejam consumir, que desejo consumista seria esse, então, de ver o Mal absoluto se curvar diante do Bem senão o desejo, de mesma intensidade, de ver o Bem ceder espaço ao Mal? Nada mal se ver livre do totem claustrofóbico do Mal. Porém, nada bem se tornar assim órfão do ícone refrescante do Bem. O alto preço daquele, contudo, só é pago com a moeda deste.

Entretanto, numa história na qual Deus assassina friamente uma alma atormentada, ao passo em que é justamente o Diabo que se atormenta e se envolve com tal injustiça, o que se tenta, com efeito, é trocar os dois de lugar. Eu, particularmente, prefiro ter um Diabo desses olhando por mim nas ruas da minha cidade do que um Deus que me puna pelas minhas misérias lá da sua alienada esfera celeste.

Mais ainda quando o Coisa-ruim aceita até se deitar num divã para se livrar do peso que Deus Pai, da sua julgadora, porém distante área V.I.P, colocou nas suas costas. Com efeito, Satanás só tem a fama que tem por conta do julgamento de seu Pai que não aprovou o fato de seu filho preferir os humanos a Ele. O divã, decerto, é o lugar para se livrar do asfixiante e paralisante simbolismo com o qual todo pai assombra verticalmente seus filhos.

Entretanto, Complexo de Édipo algum teria vez nesse inédito tratamento psicanalítico uma vez que não há mãe alguma por cuja posse esse filho caído tenha precisado, primeiro, disputar com o seu Pai, segundo, matá-Lo para tomá-la para si, e, terceiro, ostentá-la como o troféu objetivo de sua vitória subjetiva sobre Ele. Em troca, a psicanalista caída pelo Demônio, por um lado, deve tratá-lo como o filho renegado de um Pai solteiro, distante e sumamente despótico, e, por outro, fazer o papel da Jocasta conquistada que o Édipo-Evil nunca teve, o que, entretanto, não pareceu ser um problema para ela. Muito pelo contrário!

O divã psicanalítico talvez ponha fim ao trauma subterrâneo e até então eterno de Lúcifer, causado senão pela a mentira-vingança de seu Pai solitário que, das nuvens, diz ser o amor irresistível de seu filho à humanidade o pior dos pecados. Entretanto, se o Inferno foi a vingança de Deus Pai contra o filho Lúcifer que preferiu o caótico mundo ao harmonioso paraíso, agora, com a psicanálise, este filho pode se vingar dEle e dizer, primeiramente à sua terapeuta, depois a todo mundo – visto que fala de Hollywood – que seu Pai só o puniu porque em uma eternidade inteira foi incapaz de se apaixonar pela humanidade como ele.

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