Um dualismo mente-mente (em quatro atos hobbesianos)

Ao contrário do que cogitava René Descartes, o nosso corpo e a nossa mente não são separados e independentes, mas, conforme o se contemporâneo Baruch Spinoza, corpo e mente são uma coisa só, que, entretanto, pela nossa capacidade intelectual, pode ser pensado ora materialmente, ora psiquicamente. Inclusive quando sonhamos não temos uma produção exclusivamente mental, mas um produto indiviso cuja autoria é também do corpo.

Agora, para investigar a tendência das nossas produções oníricas de parecerem coisas meramente mentais, proponho aqui um erro maior do que o de Descartes: imaginemos que a alma que sonha enquanto dorme é outra e diversa da que, em vigília, pensa os sonhos daquela. Para tanto, será preciso desconsiderar, ainda que indevidamente, a unidade corpo-mente spinozana e fingir um dualismo tão radical quanto o de Descartes, só que na mente.

Proponho esse despautério para melhor contemplar um fantasma dualista-mental que me assombrou a partir de uma frase que Thomas Hobbes traz em seu Leviatã: “acordado observo muitas vezes o absurdo dos sonhos, mas nunca sonho com os absurdos dos pensamentos despertos, contento-me com saber que, estando desperto, não sonho, muito embora, quando sonho, me julgue acordado”.

Com efeito, nessa frase o filósofo inglês faz parecer que a mente que sonha e a mente que vigia são seres distintos, e que, ademais, é lícito que uma questione a natureza e as ações da outra – muito embora a questão central da obra de Hobbes seja outra. De qualquer forma, vejamos o que a mente vigilante pode dizer da mente sonhante, e, talvez mais interessante do que isso, o que esta pode dizer daquela.

Tomemos então a frase de Hobbes em quatro atos. A afirmação 1) “acordado observo muitas vezes o absurdo dos sonhos” faz a mente desperta parecer, natural e psicologicamente, saudável, conhecedora da verdade e da estrutura da realidade; enquanto a sonhadora, coitada, figura enquanto uma maluca impertinente, cujas expressões são impróprias e, portanto, como colocado, absurdas.

Em resposta à crítica da mente insone, a onírica manda um “beijinho no ombro” dizendo: eu, da minha parte, 2) “nunca sonho com os absurdos dos pensamentos despertos”. Seria nobre, se na verdade não fosse irônico, ela falar que não perde o seu tempo sonhando com os pensamentos daquela. Porém, ao afirmar que as suas expressões não se pautam pelas leis da mente em vigília, a mente onírica age como uma diva rebelde que atua, livre e talentosamente, apenas o que tem em sua própria mente.

Provocada, a mente vigilante rebate: ora, mente sonhante, sonhe com o que você quiser, pois eu, 3) “contento-me com saber que, estando desperta, não sonho”. Agora, se a mente onírica é mesmo uma diva espetacular que só se apresenta no seu próprio teatro, a mente vigilante, ao dizer que não sonha, age como uma incompetente crítica teatral que discorre sobre os espetáculos daquela apenas a partir de relatos reminiscentes, mas nunca por assisti-los ao vivo e em cores.

A diva sonhadora, por sua vez, ciente de que é um sucesso de público, tampouco se importa com o fracasso apontado pela mente acordada, afinal, diz ela, 4) “quando sonho, me julgo acordada”! De fato, a mente onírica em ato é a única que está desperta. Por isso as vaias da mente vigilante, que sequer adentra no recinto espetacular da mente onírica, parecem outrossim absurdas.

Chegamos, portanto, ao clímax no qual uma mente parece absurda para a outra. Temos, aqui, o dualismo mente-mente, garatujado por Hobbes e arte-finalizado por mim, em sua expressão mais clara – muito embora Descartes, e mais ainda Spinoza, digam que absurda é essa ideia. Não obstante, a mente desperta e a mente sonhante seguem parecendo absurdas uma para a outra, e isso por dois motivos:

Em primeiro lugar, porque cada uma das mentes não consegue compreender a natureza da outra. Em segundo, porquanto nenhuma delas está presente enquanto a outra atua. É como se uma soubesse da outra apenas por meio de fofocas, já que uma não pode ser testemunha ocular da realidade atuante da outra. Observam-se, contudo, apenas mediante os rastros uma da outra. Até parece que esse palco mental não comporta diálogo, mas apenas monólogos!

Entretanto, se fizermos uma analogia entre o nosso o drama irredutível das duas mentes com o dos amantes de O Feitiço de Áquila, onde a amada deixa de ser precisamente quando o amado vem a ser, e vice-versa, podemos propor que o átimo reminiscente e sistemático que une os dois amantes de Áquila, mantido senão pelo amor incondicional deles, é o mesmo que une as nossas duas mentes, e também por alguma espécie de amor.

Portanto, se quisermos encontrar uma arena na qual a mente empírica e a mente onírica possam coexistir harmoniosamente, e assim darmos um passo para fora do nosso erro proposital que cindiu a mente em duas, teremos de instituir uma atração entre elas. Aí, só o amor na sua causa. Que romântico! Sartre, em A Imaginação, afirma justamente que “o romantismo se manifesta por um retorno ao espírito de síntese”. Se esse filósofo está certo, a síntese das duas mentes advém desse envolvimento romântico entre elas.

Ora, qualquer um sabe que não se vive sem pensar nem sonhar, e, mais ainda, sem sonhar com o que se pensa e pensar a partir do que se sonha. Por conseguinte, para abandonarmos o erro dualista, e voltarmos à unidade corpo-mente proposta por Spinoza, devemos compreender que, se realmente pensamento e matéria são uma coisa só, as mentes sonhante e vigilante, portanto, de forma alguma podem estar separadas ou serem distintas.

Então, se de fato corpo e mente são uma única e inseparável coisa, a discussão entre a mente que sonha e a mente que vigia é o drama dialético de uma mente só, acompanhada – e por que não dizer assistida – pelo corpo, o tempo todo. Entretanto, se Spinoza tem razão em afirmar que a mente é a ideia do seu corpo em ato, qualquer incompatibilidade na esfera mental outra coisa não é senão a ideia da mesma incompatibilidade atuada, entretanto, pelo corpo.

Desse modo, a absurdidade que a mente que sonha e a que vigia idealizam a respeito uma da outra é a mesma que o corpo adormecido e o corpo desperto atuam, materialmente, um em relação ao outro. Afinal, como o psicólogo francês Alfred Binet afirmou, “o pensamento tem necessidade de signos materiais para se exercer”. Spinoza, todavia, complementaria dizendo: assim como a matéria tem necessidade da mente para ser pensada!

Chegamos, finalmente, não só à coautoria do corpo e da mente em relação aos nossos sonhos, como também à participação conjunta dos dois na produção de quaisquer coisas que de nós se sigam. Absurdo, portanto, é uma mente, esteja ela em vigília, esteja sonhando, pensar que ela encena alguma coisa sem que toda ela, mais o corpo, sejam os atores do espetáculo mental-corporal único que somos.

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