A forca e a gravata

A forca e a gravata são feitas para serem usadas em torno do pescoço das pessoas, e, ademais, simbolizam poder. As semelhança entre elas, contudo, não vão muito longe. Todavia, ao contrário do que vulgarmente se pensa, a forca oferece uma espécie de liberdade que a gravata só faz furtar. Cabe explicar, então, de que modo a forca que dá fim a alguns sujeitos é preferível à gravata que potencializa outros.

Original e institucionalmente, a forca era um instrumento de execução usado em cerimônias públicas, nas quais os príncipes, enforcando àqueles que infringiam as suas Leis, mostravam ao restante dos seus súditos o alto preço da impertinência social. Já a gravata, que deriva do francês “cravate”, nome dado aos mercenários croatas que traziam o acessório do oriente aos burgueses parisienses, era usada – e ainda é – como objeto de distinção social.

A corda que enforcava devia ter determinada espessura e comprimento para que o condenado fosse executado de forma rápida e limpa. Se muito fina e comprida, o condenado, ao cair do cadafalso, era decapitado, e o seu sangue lambuzava o estratégico palco dos príncipes punidores. Em contrapartida, se grossa e curta demais, a morte seria lenta. Porém, nessa situação, conforme relatos, o enforcado liberaria fezes e urina devido à perda gradual do controle sobre os esfíncteres, configurando, desse modo, uma “morte suja”, escatologia que reduziria a semidivindade principesca.

A gravata, por sua vez, também deve ter determinada espessura e comprimento, pois só assim garante que o seu usuário comunique eficientemente a distinção social desejada, outrossim de forma rápida e limpa. Se curta ou comprida demais, o engravatado outra coisa não denotará senão mau gosto, inadequação e ignorância. Ou seja, o efeito contrário a que o acessório se propõe. Ora, assim como a forca errada maculava a pretensa superioridade dos príncipes, a gravata errada também macula a dos engravatados.

Do ponto de vista do pescoço, a forca aponta para cima, para o céu, enquanto a gravata, para baixo, e, dialeticamente, para o inferno. Temos aí uma diferença bastante instigante e subversiva, pois aqueles que morrem na forca são puxados em direção ao éden, ao passo que aqueles que vivem em gravatas tendem pendularmente para o sentido contrário, qual seja, para o hades.

Simbolicamente, a forca descola&desloca o enforcado da terra em direção ao paraíso, e, paradoxalmente, coloca-o mais próximo do céu do que o príncipe. A gravata, em troca, outra coisa não faz senão atar&enterrar os seus usuários no lodo infernal da desigualdade entre as pessoas. Outrossim paradoxalmente, o engravatado está enforcado pela distinção social que ele mesmo atou em torno do seu próprio pescoço.

Ora, o mesmo enforcamento que colocava um condenado numa extremidade da forca, na outra, simbolicamente, tinha a mão punitiva de um príncipe em plena manutenção de sua superioridade, cujo preço, contudo, era o de estar condenado a punir todos aqueles que desafiassem a hierarquia encimada por ninguém menos que ele. Já o engravatamento, que numa ponta da gravata mente que uma pessoa comum é uma espécie de príncipe, na outra, carrega o peso morto de todos aqueles que jazem desqualificados em função dessa mentira.

O enforcado, entretanto, no ato do seu enforcamento, liberta-se do mundo das hierarquias, enquanto o engravatado, no ato do seu engravatamento, aprisiona-se a este mundo hierárquico. Com efeito, conta-nos Foulcault em Vigiar e Punir, os condenados à morte encontravam, no mesmo cadafalso que os matava, o palco no qual desfrutavam de um liberdade negada inclusive aos príncipes, pois, no derradeiro, o condenado podia xingar não só o príncipe que o punia, mas inclusive a Deus, coisa que príncipe algum podia fazer.

O engravatado, em contrapartida, ao enrolar em torno do seu pescoço a corda que faz dele um ser pretensamente superior, compromete com isso a sua própria liberdade, pois, doravante, é preciso manter tal distinção, e a qualquer custo, dado que ela é antinatural, isto é, insustentável. Assim como os príncipes, o engravatado deve vigiar e punir todos aqueles que ousem se equiparar a ele. Do contrário, a igualdade entre as pessoas se manifestará verdadeiramente, e ele será, a contragosto, apenas igual aos demais.

Sendo assim, a forca é mais libertária do que a gravata. Tal liberdade, obviamente, é mundanamente efêmera, mas, como é o meu objetivo apontar, paradisiacamente eterna. Já a gravata, que mente uma espécie de liberdade ao mentir uma pretensa superioridade, é, verdadeiramente, uma prisão, e que, ademais, perdura pelo tempo em que o pretenso superior estiver enforcado por ela.

Se a nossa imaginação for capaz de fazer da gravata e da forca uma única e mesma coisa, teremos, em uma ponta, os enforcados, paradisiacamente livres, enforcando, na outra, os engravatados justamente com a pretensa superioridade que mundanamente os aprisionam. Portanto, a forca do engravatado é a sua superioridade mentirosa, cujo preço, entretanto, é a gravata do enforcado, a verdade eterna dessa mentira.

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