Feminista machista

Conversando sobre feminismo com uma mulher feminista, ouvi dela que eu, pelo fato de ser homem, não poderia falar da condição da mulher e do feminismo. Então, perguntei se ela realmente achava que havia coisas das quais somente as mulheres sabiam, mas não os homens. Pois, se assim fosse, ela teria de admitir, junto com isso, que há coisas das quais somente os homens sabem e têm direito de tratar. Entretanto, não é justamente esse fantasma que mente que algumas coisas são assuntos exclusivos de homens, e que outras são assuntos apenas de mulher, o inimigo contra o qual ela, uma feminista, deveria estar lutando?

Em vez de considerar a contradição que estava me propondo, e então assumir que o feminismo não deveria ser um latifúndio monocultor exclusivo das mulheres, a feminista com que eu dialogava sustentou que, embora os homens discorram sobre o feminismo, as opiniões deles deveriam estar subordinadas às das mulheres. Lembrei-me imediatamente de um conhecido meu, assaz machista aliás, que certa vez disse: “mulher até pode discutir futebol comigo e com meus amigos, mas somos nós [os homens] que entendemos do assunto”. Perguntei se era algo do gênero o que ela estava querendo em relação ao feminismo.

Ela bradou! Ofendeu-me até, dizendo que eu não sabia o que estava falando, que deveria me calar. A infeliz postura dela estabeleceu entre nós uma verticalidade bastante machista, porém, desta vez, com ela no lugar do machão dono da verdade, e eu, do meu lado, representando a mulher que nada sabe direito e que, por isso, deveria calar. A única virtude da atuação viciosa dessa feminista radical foi relembrar-me da “torturabília” com que muitos homens, historicamente, trataram as mulheres. Apenas nesse ponto eu sou grato a ela. Entretanto, em todos os outros, ela repetia o erro sexista contra o qual dizia lutar.

A história do feminismo pode ser dividida em três “ondas”: a primeira, no final do século XIX ; a segunda, na década de 1960; e a terceira, inciada nos anos 1990 e que segue em crista no presente momento. O primeiro feminismo, infelizmente, figurou às suas contemporâneas mais como uma excentricidade da já excêntrica Belle Époque do que uma realidade concreta e cotidiana em substituição à histórica sujeição da mulher ao homem. O feminismo dos anos 1960, entretanto, foi mais surfado. As mulheres banhadas por esta onda, sem embargo, passaram a se separar dos seus maridos, a trabalhar fora, a estudar livremente e a reconectar os seus desejos às suas práticas ordinárias.

Já as feministas da presente onda, herdeiras das conquistas das suas antecessoras, e usuárias da maior igualdade em relação aos homens em, no mínimo, trinta séculos de História – sem com isso dizer que hoje há uma igualdade satisfatória entre homens e mulheres – estas feministas são mais belicosas no trato com os homens do que as do passado. Em vez de seguir na luta pela igualdade, a única universalmente válida, as presentes feministas, em especial aquela que rebaixou as minhas opiniões pelo fato de eu ser homem, parecem tentar inverter a imprópria hierarquia histórica entre homens e mulheres, como se agora fossem elas a fonte da verdade.

Contra estas feministas eu lanço a pergunta: aderir ao movimento feminista significa ser agraciado necessariamente pela verdade? Ou, ao contrário, as feministas e as suas convicções seriam tão passíveis de erros quanto os machistas e as suas? Se alguma feminista sustentar que as mulheres detêm alguma verdade negada aos homens, estará apenas sendo fundamentalista, isto é, pretendendo fazer dos seus dogmas particulares a verdade universal, coisa bem machista inclusive. É exatamente disso que não precisamos mais! Quanto mais não seja, porque essa é a triste hierarquia legada pelo passado, verticalidade que sempre subjugou, não só as mulheres, mas também os negros, os gays, e todos aqueles oprimidos pelos valores socioculturais dominantes.

A socióloga Vanessa Sander apontou que as mulheres negras, por exemplo, se sentem invisíveis dentro dos discursos feministas, pois as reivindicações pautadas pela categoria “mulher”, que se pretendem universais, na verdade, atendem apenas aos anseios das mulheres brancas. Sander relembra que as feministas brancas, quando batalhavam para a trabalhar fora, sequer consideraram as mulheres negras, que sempre trabalharam fora, desde o passado escravocrata. Em relação aos transexuais e travestis acontece o mesmo. As feministas mais radicais também são contrárias à participação, no movimento feminista, de quaisquer pessoas que não nasceram com vagina.

Burramente, como se fossem machos reacionários, estas feministas radicais pretendem manter a condição sexual natural dos indivíduo enquanto a chancela às suas interações sociais futuras. Se ter uma vagina é a condição para ser feminista, então abre-se aí um mundo inteiro de coisas e atividades que pessoas que têm essa genitália devem estar condicionadas, coisa que feminista alguma deve aceitar. Para não serem tão limitadas, estas fundamentalistas deveriam considerar, como colocou Sander, que o termo “mulher” denota experiências universais, e não apenas experiências de quem nasceu com uma buceta. Ou, porventura, a jornalista Rachel Sheherazade seria mais apropriada ao feminismo do que a cartunista e chargista Laerte Coutinho, que recentemente assumiu a sua identificação com sexo feminino?

Se as mulheres precisam do feminismo para lutar contra o machismo que historicamente as oprime, outrossim os homens precisam do feminismo para libertarem-se da opressão que o próprio machismo, sintomaticamente, também imputa a eles. Afinal, quando um homem nasce em uma conjuntura machista, também ele é obrigado a encarnar um papel universal predeterminado que dificilmente concorda com os seus desejos particulares e sempre dinâmicos. O machismo, portanto, é um inimigo contra o qual homens e mulheres devem lutar. Muito melhor se essa luta for conjunta, pois quanto mais forte e numeroso o exército, mais facilmente se vence a batalha.

Desse modo, quando aquela feminista com quem eu conversava disse que eu, por ser homem – por não ter nascido com uma vagina -, não poderia falar de feminismo e da condição da mulher, estava, com efeito, dispensando contingente à sua própria batalha, que, no caso, é a mesma que a minha, isto é, a busca pela liberdade definitiva do falocentrismo histórico. Entretanto, diferente dela, eu não acredito que devemos instituir um “vulvacentrismo” no seu lugar, pois seria trocar seis por meia-dúzia. A mim, parece muita tolice, ou talvez fruto uma histeria colateral, essa recusa das feministas radicais em sustentarem as suas identidades femininas precisamente em meio à diversidade absoluta em relação à qual, aliás, elas querem igualdade.

Inteligência, ao contrário, seria receber quaisquer pessoas e opiniões que encorpem a luta e a discussão das mulheres contra o machismo. Eu, mesmo não tendo uma buceta, acredito e apologizo que a posse de uma não deve significar subjugação social, cultural, econômica, política alguma. Não obstante, depois de ter a minha opinião masculina acerca do feminismo reduzida pela visão feminina e fundamentalista sobre o feminismo da minha interlocutora radical, a minha batalha pessoal contra o machismo se desdobrou em duas. De um lado, sigo lutando para que homens e mulheres estejam em pé de igualdade, mas, de outro, encampo a batalha na qual a minha vitória é ser bem-vindo, mesmo sem possuir uma vagina, no front feminista contra o machismo.

Restou claro que a feminista radical que tentou me calar com a sua verdade não quer que eu, ser despossuído de buceta, lute ao seu lado, ou sequer tenha direito à voz. Essa sua posição particular, entretanto, outra coisa não é senão um machismo às avessas, que eu, aliás, repudio, pois dizer que certas verdades só são acessíveis às mulheres apenas substitui o pênis do falocentrismo pela vagina. Sim, a vagina pode ser falocêntrica desde que Freud esclareceu a independência entre o falo e o pênis: falo é uma condição de poder, homens e mulheres podem usufruir dele, enquanto o pênis é apenas o órgão sexual dos homens.

Para a virtude do feminismo, portanto, aliados deveriam ser todos aqueles que têm capacidade para se colocarem, nem que seja reflexivamente, no lugar das mulheres. Desse modo, qualquer histeria fálica de mulheres dogmáticas&fundamentalistas, que recusam abraçar os “desvaginados” que solidariamente abraçam a causa das mulheres, deve ser tão condenada e combatida quanto o machismo. Afinal, é machista aquela feminista que, ao aderir ao seu “ismo”, acredita que aderiu automaticamente à verdade. Em contrapartida, é verdadeiramente feminista aquela mulher, homem, travesti, transexual, gay, seja lá quem for, que crê que a igualdade entre homens e mulheres não deve ser construída a partir da contraditória construção de diferenças entre eles.

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3 comentários sobre “Feminista machista

  1. Oi Rafael, tudo bem?

    Eu gostaria de, quem sabe, acrescentar alguma coisa à sua reflexão. Eu também já tive uma conversa algo semelhante a essa sua, uma vez falando com duas feministas.

    No meu caso, o assunto girava em torno da possibilidade, viabilidade, conveniência etc de se ter um homem comandando um movimento feminista (a conversa se desenrolava no campo hipotético). As duas moças defendiam a não possibilitação de uma liderança masculina num movimento feminista, ao passo que eu, externo ao mundo dos movimentos feministas, perguntava os porquês.

    Um dos argumentos delas me chamou a atenção e me fez inclinar um pouco mais em direção à posição delas: o simbolismo. Pra um movimento que defende o empoderamento feminino com fins de igualdade de gênero, pode ser de um simbolismo um pouco perverso ter um homem ditando os rumos ou comandando, de alguma forma, as discussões. Não que eu pense que isso impossibilita tal situação, mas passo a concordar que, por hora, esse não é o ideal.

    Outro argumento levantado por elas, com o qual concordo, e que é talvez mais consistente do que o usado pela moça com a qual você teve contato, é o de que o machismo causa opressões diferentes aos dois gêneros e que, naturalmente, apenas os integrantes de cada um dos gêneros pode sentir a opressão direcionada especificamente a si. Sendo assim, não é ter ou não ter vagina, mas é a existência como mulher numa sociedade machista, sentida plenamente apenas por quem é mulher e entende a opressão, o que seleciona ou, talvez melhor, completa o entendimento do que é essa injustiça. É claro que racionalmente todos podemos entender uma opressão, seja qual for; mas se tem por pressuposto que sentir tal opressão, ou seja, ser o oprimido, é diferente (alguns movimentos negros usam argumentos semelhantes quando perguntados sobre a atuação de brancos).

    Como aconteceu com o primeiro argumento, esse segundo também me fez ponderar e “centralizar” um pouco minha posição. Entendo o que elas dizem. Mas penso que elas falham em considerar algo que pra você parece óbvio (e pra mim também é): o machismo afeta a todos; de formas diferentes, é verdade, mas a todos. E por afetar a cada “grupo” de formas diferentes, sentimos, cada um, o machismo (racismo, homofobia etc), com sensações diferentes. E se sentimos diferente, pode ser que tenhamos algo de diferente a dizer, algo que, considerando um homem inteligente, honesto e que sinta empatia para com a causa, possa acrescentar à própria estratégia de ação feminista – repito, não por sermos supostamente melhores ou qualquer coisa do tipo (sabemos que não somos), mas apenas por sentirmos um mesmo problema a partir de um ângulo diferente, o que naturalmente pode gerar opiniões diferentes, não necessariamente opostas. Você mesmo pontua um problema de representatividade das mulheres negras em parte do movimento feminista. Pois bem, me parece que o motivo é exatamente o mesmo. Certamente, mulheres de lugares diferentes, com culturas diferentes e arcabouços teóricos, religiosos e/ou ideológicos diferentes, terão o mesmo “problema”.

    No fim, acho que chegamos à mesmo conclusão. Quanto mais plural um grupo que se mobilize em função de uma tal finalidade, tanto melhor e mais completo será o percurso de discussões e ações.

    Parabéns pelo Laboratório! É muito interessante.
    Abraço.

    1. Olá Lucas. Prazer em te ler e saber das suas ideias. Uma dela, aliás, não me sairá da cabeça, a do simbolismo (em relação a uma figura masculina representar um movimento feminino).
      Eu sou homem, homossexual, de 43 anos, e mesmo gay o machismo em mim sobreviveu viveu firme e forte, infelizmente, o que muito me surpreende. Há dois anos comecei a cursar filosofia e entrei em contato com muita gente mais nova do que eu. E essa questão do feminismo entre os mais jovens é muito genuína, presente. Desde então, meu machismo foi confrontado como nunca antes. Esses jovens colegas, no momento em que percebem uma manifestação machista, de quem quer que seja, imediatamente a criticam. Desse modo eu não tive mais como escapar de me confrontar com o meu machismo. A certa altura, tive certeza de que não importava o que eu, homem, acho a respeito do machismo, mas do que as vítimas desse machismo acham e dizem dele. Atualmente (e isso é recente) mulheres são as pessoas que mais e melhor podem falar de machismo; os homens devem calar diante delas nesse assunto. Desse modo, se eu fosse escrever esse texto hoje, certamente seria mais complacente com a “feminista machista” com a qual eu topei. Na verdade, uma metáfora do que eu penso é mais ou menos assim: piso no pé de alguém. A pessoa reclama do pisão. OU a) eu digo que ela está errada, que não pode/deve estar doendo; b) ou acredito na reclamação desse alguém, me sensibilizo com ele. Se a pessoa está reclamando do pisão, não cabe a mim julgar sua dor.
      Enfim, gostaria, finalmente, de dizer que nesses tempos fascistas de diálogos belicosos, o seu texto é prova de que pode haver diálogo. Obrigado por suas colocações.

  2. Agradeço muito os elogios e fico feliz por acrescentar algo.
    Sim, pode haver diálogo. Ele é, inclusive, parte da resistência, em tempos como o que entramos… ou estamos entrando? Sei lá… tudo parece ter aparecido tão rápido. De fato, como bradado em 2013, o gigante acordou. Eu só não sabia que era esse.

    Sobre a sua mudança de opinião e a metáfora usada, penso que é, sim, positivo e necessário, que as principais vítimas tenham seus discursos integralmente ouvidos; penso que não podemos menosprezar o sofrimento de ninguém e devemos partir do pressuposto de que não entendemos o que uma opressão significa pro outro, seja ela qual for. Mas acho também, como disse acima, que o machismo nos afeta a todos.
    Se usarmos os termos com sua significação plena, o machismo nos oprime a todos. Através dele se impõe/espera um papel e uma postura para a mulher, e isso significa, necessariamente, que é pressuposto um papel pro homem. A engrenagem que é gerada pela estrutura patriarcal é danosa a ambos, e isso se reflete claramente no tipo de homem que ela tende a formar: criatura dependente nos aspectos mais básicos da vida cotidiana, um homem machista por excelência não sobrevive sem mulheres que façam sua comida, cuidem de sua casa, roupa, eventuais filhos etc – talvez seja a criatura adulta mais dependente do nosso planeta; figura reprimida emocionalmente, escrava dos próprios preconceitos e fechada, nos mais variados aspectos, na sua única interpretação possível de mundo; a própria manifestação do amor ao próximo, seja ele uma esposa, amigo, amiga, é cerceada pela imposição de posturas, pensamentos e até de sensações que, ironia ou tragédia, é feita pelo próprio indivíduo (fazer x é coisa de menina, pensar y é coisa de mulher, se sentir z é coisa de bicha); até mesmo âmbitos explorados no discurso machista, como a vida sexual, são amplamente afetados (que vida sexual saudável pode ter um homem machista, se não enxerga no seu par um igual? Msm a satisfação que ele pode alcançar – e busca o tempo todo – nunca será a maior possível – e todos que nos livramos pelo menos um pouco desse machismo sistêmico sabemos disso).
    Por isso e por mais tantos outros pontos que podem ser levantados sobre os reflexos do machismo nos homens, volto a dizer que penso que os homens podem ter algo a acrescentar em discussões feministas. Não precisamos (não devemos) nos calar. Somos todos frutos do msm mal, só estamos em posições diferentes nessa relação dialética (ou pseudo-dialética) de opressão, onde oprimido e opressor se misturam o tempo todo. Discutir sobre quem oprime mais e quem é mais oprimido me parece tão injusto, desnecessário e improdutivo quanto essas discussões malucas atuais sobre quem matou mais na ditadura, militares ou guerrilheiros; quem matou e oprimiu mais através da máquina do Estado, Stálin ou Hitler etc.

    Por fim, digo que é um prazer enorme conversar com você, Rafael. Esse exercício de diálogo, seja com quem secundamos quase todas as palavras, como parece ser o nosso caso, seja com quem discordamos em tudo, é essencial e, volto a dizer, parte da solução pra o nó social-político-jurídico-midiático-etc no qual nos percebemos agora.
    Grande abraço!

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