Eu enquanto Blissett

Apesar de ter lançado vários livros, dentre eles Guerrilha Psíquica, e também assinado várias intervenções performáticas “worldwide”, Luther Blissett não é uma pessoa. É, generosamente, um espaço, vazio e universal, no qual qualquer um de nós pode atuar aquilo que, sob os nossos nomes batismais, não encontra espaço de atuação. Toda aparição de Blissett é a aparição de alguém qualquer. Porém, tudo o que alguém qualquer quer que apareça quando aparece em forma de Luther Blissett é aquilo que não aparece enquanto o si$tema funciona conforme o e$perado.

A primeira aparição de Blissett foi na Bolonha de 1994, assinando a notícia de que muitos animais haviam sido esquartejados e suas partes espalhadas pelos parques da cidade. A imediata repercussão da mídia deixou os italianos em polvorosa. Porém, um dia depois, esclarecido que nenhum animal havia sido morto, restou tácito que a mídia sabia muito mais ser sensacionalista do que verídica. Verdade alguma revelaria tal realidade; pessoa determinada nenhuma tornaria as ‘desnotícias’ da mídia em uma notícia tão palpável. Luther Blissett nessa causa!

Inspirado por essa tática de guerrilha psíquica, em 2002 a pessoa qualquer que eu sou foi Luther Blissett. Na época, eu era um estudante de arquitetura revoltado com os ditames do mercado imobiliário que, impertinente, constrangiam-me desde o início da minha formação. “Não, você não pode projetar um prédio dessa forma pois o mercado nunca o pagará”, diziam-me os meus professores, representando o si$tema em sala de aula. De nada adiantava eu contra argumentar dizendo, por exemplo, que era justamente a faculdade o lugar para se experimentar aquilo que no mercado de trabalho não encontraria parceiro$. Eu estava condenado a aprender aquilo que a mais vil das medidas, isto é, o capital, precisava que eu aprende$$e.

Então, secretamente, no meio de uma madrugada gélida do Sul, montei uma instalação no Departamento Acadêmico da Arquitetura da UFRGS. Em um monolito imitando um bloco de concreto, crucifiquei, numa cruz de sangue, uma galinha depenada devidamente identificada por um crachá que dizia: L. Blissett CREA n° 171 (CREA é o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura). Do ventre do animal dilacerado escorria sangue e caiam vísceras – simbolicamente, as mesmas que eu sentia arrancadas de mim, diariamente, nas aula que me tornavam um arquiteto devidamente si$tematizado. Deixei o local ainda na escuridão, sem que ninguém me visse, para retornar à paisana horas depois para às aulas.

Na minha ausência estratégica, quando os alunos abriram o D.A. e se depararam com a instalação, pelo fato de não saberem do que se tratava, nem como aquela coisa havia aparecido ali, não sabiam o que fazer nem como reagir. Restou-lhes polemizar acerca daquilo que não compreendiam. Quando, às 9hs da manhã, eu retornei à faculdade, aproximei-me do burburinho que se formou em volta da galinha arquiteta estripada, e um colega, muito indignado, disse, não só a mim, mas a quem estava perto dele: “eu acho um absurdo alguém querer se expressar e não assumir o que faz”. Outro disse: “eu não acredito em manifestação sem assinatura real”.

Como ninguém sabia que era eu o autor da obra, eu nada precisava dizer em minha defesa. Em troca, pude dar espaço para eles darem vazão às suas críticas ao até então não criticado nem imaginado por eles; expressões que sem um intervenção como aquela ficariam escondidas inclusive deles mesmos. Se a instalação tivesse sido anunciada previamente, lançada num verni$$age si$tematizado, e assinada por alguém que se responsabilizasse por ela, os meus colegas poderiam apenas gostar ou não do que viam, mas não se sentiriam comprometidos a esclarecer a eles mesmos o que viam e o que sentiam. Como a bola estava com ninguém mais além deles, as suas contribuições, de certa forma, eram as muitas assinaturas da obra.

Uma hora depois, decidiram tirar a galinha, pois alguns alunos estavam enjoando como cheiro. Deixaram, contudo, a estrutura ensanguentada e o crachá. Seria a carne morta a mais angustiante crítica? Pelo jeito sim. A minha instalação contra a arquitetura escravizada pelo mercado imobiliário, que tinha justamente na galinha crucificada no concreto a sua expressão mais pungente, findou sem a galinha, ou seja, sem o escravo da relação de escravidão. Em pé e à mostra, apenas o concreto e o crachá arquitetônicos, isto é, apenas os escravizadores.

O anonimato lutherblissettiano não só me permitiu atuar mais livremente, como também apreciar as opiniões dos meus colegas, sem filtro algum, em relação àquela atuação. Agora, se eu tivesse assinado a obra, conforme muitos deles queriam, jamais teria conhecido o que eles realmente pensaram dela, mas apenas aquilo de sistemático que todos tinham a oferecer, como ocorre com tudo aquilo que vemos a partir dos nossos olhos batizados com os nossos nomes.

Quais foram as minhas conclusões? Ora, primeiramente, que as pessoas não gostam de lidar com algo cuja autoria elas não podem atribuir a alguém. A ideia de Deus, aliás, é a prova máxima disso, pois não basta a natureza existir por si só, tem de ser obra de um criador determinado. Em segundo lugar, que ficar intrigado com alguma coisa que ao mesmo tempo causa repulsa – a carne morta e em putrefação – é angustiante para a maioria. Porém, tirando isso, o resto é suportável – o concreto ensanguentado e o crachá de nº 171.

Entretanto, em terceiro lugar, comprovei que a ação-putrefação e$tratégica do mercado imobiliário dentro da universidade que tanto me angustiava não era compartilhada pelos meus colegas. Em vez disso, eles faziam consigo mesmos aquilo que fizeram com a minha galinha dilacerada, isto é, suprimiam os seus próprios dilaceramentos acadêmicos para que o concreto e a carteirinha de arquitetos deles pudesse seguir expostos no hall nobre da arquitetura.

Obviamente, eu não mudei o mundo nem os meus colegas. Nesse sentido, Luther Blissett parece deixar a desejar. Todavia, por outro lado, somente através desse famoso anonimato eu pude expressar, da forma como me vinha, o modo como eu sentia a realidade ao meu redor. Nesse outro sentido, Blissett não só dá o que desejar, como também é a forma psiquicamente guerrilheira para fazer das nossas impressões balas impertinentes&inimagináveis contra os nosso inimigos, mesmo quando eles estão vencendo a batalha.

Há tempos eu não apareço como Luther Blissett, entretanto, nunca deixei de sê-lo, pois ser Luther Blissett é saber que algo inimaginável&incompreensível precisa ser feito sempre que houver um psiquismo sem livre espaço para se expressar. Contra o latifúndio do si$tema que só cria espaço para a sua própria expressão, guerrilha psíquica! Luther Blissett, eternamente.

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