Toda nudez será sabida

A natureza não fez nenhum animal nu, tampouco o homem, pois afirmar isso significaria dizer que ela fez um trabalho incompleto, o que é um absurdo. Entretanto, o homem, quando está somente com a sua pele animal&natural, tem a ideia da nudez. Já os demais animais, cuja natureza é não questionar a alfaiataria da Natureza, não são nem estão nus, mas eternamente vestidos com suas peles, pelos, plumas, escamas ou cascos. Jacques Derrida disse aquilo que somente um homem poderia dizer dos animais, que “o próprio dos animais, e aquilo que os distingue em última instância dos homens, é estarem nus sem o saber”.

No entanto, se considerarmos que a sabedoria é uma indumentária propriamente humana, é impróprio dizer que os animais sabem ou não sabem de qualquer coisa, inclusive de suas próprias nudezes. O que podemos desconfiar de imediato é que talvez tenha sido justamente a sabedoria humana a inventora da nudez, contrariando a Natureza cujo costume, aliás, nunca deixou nenhum dos seus seres despidos do essencial. Porém, para o homem vestido, todo resto parece estar nu, ou melhor, precisa estar nu, exposto em sua verdade natural. O saber absoluto, qual seja, a ciência humana, é o grande alfaiate, todavia invertido, que desnuda sistematicamente o corpo pleno do universo.

No paraíso, Adão e Eva não eram nus até cruzarem a fronteira do saber, isto é, a casca da maçã da sabedoria. Uma vez violada a pele da fruta proibida, o casal primordial soube que já sabia demais, ou pelo menos tanto quanto o seu Criador. Então, imediatamente, precisaram esconder tal impertinência. Uma vez que tudo estava descoberto, as únicas coisas que eles ainda podiam cobrir eram os seus corpos, antes paradisiacamente inocentes, agora sabidamente culpados. Tal sabedoria os levou a se esconderem detrás da folha da videira. Eis a invenção da nudez! Depois, quando Caim matou Abel, e soube o que era o assassínio, fugiu, fazendo da distância a veste mais apropriada à nudez do seu corpo fratricida. Noé, por sua vez, sabendo que Deus inundaria o mundo, fez de sua arca a roupa impermeável com a qual protegeu as nudezes das criaturas do olhar do Criador.

Portanto, há nudez apenas mediante o saber. E como a sabedoria é uma confecção meramente humana, só há nudez mediante a humanidade. Por que, contudo, essa nudez sabida precisa ser coberta? Seria ela vergonhosa por natureza? Claro que não, respondem-nos os demais animais. Derrida diz que a maior vergonha do homem é estar nu como um animal. Porém, para um animal, aquilo que nós chamamos de nudez é o seu nome, sobrenome e, ademais, o seu ser. Já para nós, homens, nome e sobrenome são as nossas primeiras vestimentas, customizadas, contudo, com o tecido roto da cultura. Depois desse primeiro hábito, as demais vestes são as fantasias com as quais seguimos escondendo de nós mesmos que, naturalmente, somos apenas animais, nus ou não.

Entretanto, uma vez figurinada a nossa animalidade, para não sufocar ela precisa respirar. Mesmo sem tirarmos a roupa, o animal escondido debaixo dela respira, seja através da filosofia, da ciência, da arte, ou da moda. Somos os únicos animais que inventaram a vestimenta para tapar o nosso sexo; os únicos que inventaram a cultura para tapar esse tapa-sexo; e os únicos que inventaram a moda para tapar sazonalmente essa cultura. Com a moda, aliás, vestimos a nossa vergonha animal com o prêt-à-porter cultural, fingindo que nos vestimos simplesmente porque, a cada estação, há novidades para vestir, mas, na verdade, é porque a nossa animalidade nos parece insuportavelmente démodé.

Alain Badiou diz que jamais há nudez no teatro, pois a nudez é, ela própria, o mais escandaloso&vistoso traje. Podemos concluir então, a partir das palavras do filósofo, que o figurino do ator, mas também as nossas roupas cotidianas, têm por função nos despir do imponente&inalienável traje com o qual a natureza primordialmente nos vestiu: a nossa animalidade. E, para um animal fantasiado de homem, somente um espelho, seja ele teatral, cultural ou científico, para refletir essa nudez sem que ela nos envergonhe. Entretanto, vergonha e nudez são coisas das quais só o ser humano sabe.

Sendo assim, os animais não são animais porque estão nus sem o saber, como queria Derrida. E nós não somos homens porque sabemos que estamos nus debaixo das nossas peles artificiais. Ora, se na Natureza não há nudez – pois se houvesse ela estaria em falta com as suas criaturas, o que é um absurdo – não há de ser justamente a nudez inventada tardiamente pelo homem um critério válido para ele se distinguir do animal.

Entretanto, Derrida aponta para um caminho bastante provável ao dizer que a vontade do homem de se vestir fala de um sentimento de pudor ligado ao fato de estar em pé, ou seja, ereto. Essa ereção evolucional, por conseguinte, evidenciou outra, a ereção sexual. E esta, por sua vez, evidencia a natureza animal do homem. Ora, sobre quatro patas, o ventre animal estava sempre voltado para o chão. Nessa configuração, os olhos e os sexos de um animal não se enquadravam em uma única visada. Porém, uma vez eretos, o homem e o seu sexo animal estavam expostos aos olhos e aos sexos dos outros homens. Então, só a folha de videira, o fino linho, e posteriormente a moda para vestirem essa animalidade impertinentemente ereta que o homem chamou de nudez.

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