Educação: preocupação ou ocupação?

Em vez de nos perguntarmos, passiva&reacionariamente, que educação queremos para os nossos filhos, a questão deveria ser colocada de forma mais ativa&revolucionária: de que educação queremos ser pais? Essa resposta é pertinente à vida contemporânea que obsoletou o “penso, logo existo” cartesiano em benefício de um oportunista ‘me especializo, logo existo no mercado de trabalho’. Zigmunt Bauman discorre acerca dessa nova ordem socioeconômica na qual um profissional que se mantém, digamos, trinta anos na mesma função ou na mesma empresa, tem, nessa antiquada estabilidade, o seu maior inimigo, isto é, a desvalorização da mercadoria profissional que ele é.

Baumam, para tal, usa uma interessante metáfora. O sociólogo polonês, na sua teoria da liquidez, diz que, hoje em dia, não existe mais o moderno solo seguro sobre o qual um profissional edificava a sua única, longa e segura carreira. Em contrapartida, na contemporaneidade líquida, diz Bauman, o único chão de um profissional é uma cada vez mais fina&frágil camada de gelo que só não se quebra, e na qual somente não se afunda, movimentando-se com cada vez maior velocidade sobre ela, como um patinador sobre um lago em desgelo no final do inverno. A velocidade de que fala o pensador, no entanto, é a da transformação do profissional em muitos outros profissionais, e o gelo delgado, as demandas do mercado.

Para dar conta dessa mudança, a universidade, por exemplo, precisa deixar de ser aquele lugar no qual o indivíduo ingressa e se prepara, uma única vez, para uma carreira outrossim única, para se tornar o meio-ambiente de vários reingressos, pois só assim o indivíduo poderá ser tantos profissionais quanto a realidade atual demanda. Os processos de formação acadêmica, portanto, precisam entremear as cada vez mais curtas e obsolescentes aventuras profissionais que o sujeito pós-moderno deve empreender simplesmente para se manter na superfície da realidade sem nela afundar e desaparecer. Daí a necessidade de reavaliarmos o papel das universidades na vida das pessoas e, não menos importante, na da sociedade.

Heidegger, já em 1920, dizia que a universidade era uma instituição esclerosada que ainda atendia às necessidades de uma indústria da segunda metade do século XIX. As nossas universidades, ainda hoje, reproduzem tal práxis, pois, com muita precariedade, mal conseguem oferecer a um cidadão uma única formação profissional adequada, novamente, para uma única&perene&condenada carreira. Já a indústria – aqui querendo significar o mercado de trabalho atual -, pelo contrário, tem como demanda urgente um profissional que seja muitos profissionais em um. Necessidade, porém, que ainda não é acompanhada pelas universidades. Se em 1920 o filósofo alemão chamou a universidade de esclerosada por ela atender às necessidades de uma indústria de cem anos antes dele, hoje, com as nossas universidade não atendendo às demandas do mercado de trabalho atual, mas, em troca, as dos anos 1920, a universidade segue tão esclerosada como há cem anos.

Como, então, as universidades devem formar as pessoas hoje em dia? Produzindo, em regime de linha de montagem, profissionais razoáveis&hiper-especializados em um único assunto ou atividade, ao velho modo fordista de produção, cuja mercadoria primeira é o assassínio definitivo do artesão medieval que fazia, digamos, todo o sapato, para, nessa limitada sobrevida contemporânea, produzir apenas o cadarço do mesmo sapato? Profissionais que, de tão especializados&limitados em suas performances, só conseguem se libertar dessa limitação comprando um iphone por ano e acumulando carros na garagem até uma sonhada&gorda aposentadoria, todavia, privada?

Faz no mínimo cem anos que isso já era, relembra-nos Heidegger. A universidade, hoje, deve formar pessoas com potencialidades múltiplas que atendam a multiplicidade de demandas, não só as do mercado de trabalho, mas também as das próprias pessoas. Todavia, enquanto nos preocuparmos com o futuro, isto é, com a educação dos nossos filhos, estamos, na verdade, nos alienando de que nós mesmos já somos filhos-reprodutores dessa educação que, de tão esclerosada, não garante futuro promissor algum, em primeiro lugar, a nós mesmos, e, em segundo, aos nossos filhos. Se essa preocupação faz algum sentido, todavia não aponta para tranquilidade alguma.

Se, até aqui, as universidades foram feitas para produzir profissionais-mercadorias altamente especializados – já para Heidegger isso era uma esclerose -, a partir de agora, em troca, elas devem superar esse ambiente árido&solitário da especialização, pois, só assim, os profissionais estarão à altura dos múltiplos&conectados desafios da contemporaneidade. Que desafios são esses? Ora, a desigualdade socioeconômica, a destruição da natureza, o individualismo egoísta, as guerras, e muitos outros. Por tudo isso é que não precisamos de universidades que gerem profissionais superespecializados que consigam dar conta apenas de um desses urgentes problemas, mas cidadãos que integrem, não só em suas carreiras, mas também em suas vidas, capacidades&atividades&compromissos para, ao mesmo tempo, trabalharem em função da igualdade social, da preservação da natureza, da paz, e assim por diante.

A universidade, que para Heidegger era a cereja vintage&esclerosada do mofado bolo industrial do século XIX, e que, hoje, é o lugar da hiper-especialização que visa tratar de particularidades cada vez mais particulares, e que, por isso mesmo, produz massivamente a alienação do profissional em relação ao todo do qual ele faz parte, essa universidade deve, imediatamente, atender não só à multiplicidade de demandas do presente, como já queria o filósofo alemão nos 1920, como também da multiplicação futura dessa multiplicidade presente. Afinal, o presente é um vestíbulo que já se encontra pleno de demandas múltiplas, convidadas e penetras, que, sem dúvida, adentrarão impertinentemente no salão de espelhos desse futuro.

É exclusivamente com esse lugar chamado futuro que se preocupam aqueles que se preocupam somente com a educação de seus filhos. Esquecem-se, todavia, de que a educação futura será, inevitavelmente, os reflexos da educação do passado e do presente combinados; combinação, aliás, da qual esses preocupados presentes são os personagens em ato. Há um gozo, no entanto alienante&infrutífero, em deixar de se preocupar com o presente para se ocupar do futuro; em esquecer-se de si e lembrar apenas dos filhos; em ignorar o sistema educacional do qual devemos ser parte cada vez mais atuante&presente para atentarmos somente à educação que se dará à nossa prole futura.

Entretanto, a resposta à pergunta “que educação queremos para os nossos filhos?” já está dada se a preocupação presente for exclusivamente essa – e ela, por sua vez, é nada animadora. Talvez a educação presente deva ensinar, do maternal à universidade, que não adianta nada nos preocuparmos com o futuro da educação enquanto não nos ocuparmos do seu presente. Por isso, eu acredito que as perguntas mais apropriadas, e inclusive mais producentes, sejam elas em relação ao presente, sejam em respeito ao futuro, devam ser: de que educação somos filhos?; de que educação queremos ser filhos?; de que educação seremos os pais?; de que educação queremos ser os pais? A preocupação com a educação dos nossos filhos, portanto, deve ser a ocupação da nossa própria educação.

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