O nirvana, oficina do diabo.

“Mente vazia, oficina do diabo”, definitivamente, não é um lema budista. Na verdade, essa é a primeira ideia que deve ser jogada fora por qualquer um que almeje o nirvana. Isso porque o diabo, para essa filosofia oriental, é justamente a presença constante de pensamentos, visto que são justamente eles que impedem que estejamos livres em relação às nossas mentes.

Já aqueles cuja filosofia pessoal leva o provérbio à risca se dão conta, cedo ou tarde, de que a mente lotada também é um inferno. Esse atribulado hades, na verdade, é o éden pervertido que a pós-modernidade hiperocupada construiu para si, cuja constelação reluzente são as infinidades de informação e atividades com as quais as nossas mentes são obrigadas a se ocupar.

Hoje em dia, quando queremos esvaziar a cabeça, outra coisa não fazemos senão enchê-la com toneladas de informação e atividades. Ora, para um contemporâneo hiperconectado de nada serviria adentrar o nirvana sem fazer o devido “check in”, postar fotos e “comments”, comprar a camiseta do nirvana, etc., etc., etc., e, além do mais, etc. Os anacrônicos tédio e ócio, atividades excelentes da mente vazia, de forma alguma encontram “app” na superfície “touch screen” desse atribulado planeta.

Ora, os capetas que as nossas mentes vazias temem são os nossos próprios desejos e paixões. O diabo, com efeito, é só um eficiente totem, sobejamente esculpido pelo Deus cristão, cujas funções são apontar e espantar estes sentimentos. Além do que, estar à toa também é pecado capital para o Deus Capital, pois, para este, mentes vazias não enchem shopping centers, agências de viagem, nem os desejosos bolsos dos pontífices capitalistas apaixonados por si mesmos.

Entretanto, como um budista apontaria, uma mente absolutamente vazia não deve comportar nem desejos, nem paixões. Aliás, o trabalho de esvaziar a mente visa, sobretudo, livrá-la dessas solicitantes afecções. Sendo assim, o diabo que aterroriza a cabeça vazia, coitado, é apenas um totem solitário, que, nesse universo mental esvaziado, pode espantar apenas a si mesmo.

Se, conforme o ditado, a mente vazia é a oficina do diabo, e se, como quer o budismo, o nirvana é a mente vazia, o nirvana, portanto, é a oficina do diabo: o local perfeito para ele agir livre, porém solitariamente, espantando, contudo, apenas a si próprio. Essa é a sua oficina! Desse modo, só o diabo pode alcançar o nirvana, todavia, enquanto o crítico solitário e impertinente desse esvaziamento da mente, que nos liberta dela, mas, infelizmente, para um pós-moderno, não do diabo.

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