Dialética do grevista e do kamikaze

Não pude deixar de fazer uma dialética grevista-kamikaze depois de ouvir, de um companheiro de luta, que “grevista tem de estar disposto a arriscar tudo”. Concordaria, entretanto, se ele tivesse dito que grevista tem de arriscar muito. Porém, “tudo”, penso eu, ultrapassa o limite do conceito de grevista. Se os proletários porventura arriscassem tudo, e, por algum revés, tudo perdessem, perderiam, por conseguinte, não só suas vidas, mas inclusive a sua classe. Sendo assim, posso concordar apenas que um grevista tem de estar disposto a arriscar seja lá o que for, porém, até o limite de não arriscar a sua vida, a sua capacidade de estratégia, a resistência que só existe dentro de si, o seu amanhã – revolucionado ou revolucionário.

Se tentássemos ser kamikazes verdadeiros, aqueles cujas vidas são destruídas para que as dos inimigos também o sejam, talvez esse “arriscar tudo” fizesse sentido e fosse eficiente. Vale notar que, na Segunda Grande Guerra, 2500 kamikazes mataram 5000 soldados aliados. O que podemos calcular disso? Que eles tiveram um rendimento de 200%? Entretanto, se ainda para os japoneses suicidas arriscar tudo não fez com que eles ganhassem a guerra, imagine para nós, que não participamos das profundidades aliciantes da cultura oriental, mas sim do individualismo demasiado hedonista da cultura burguesa ocidental?

O grevista, por sua vez, não arriscando tudo, tem a oportunidade de se valer, na hora de dificuldade, pelo menos daquilo que não colocou em risco, sejam forças e estratégias em potencial, seja a própria vida, sem a qual, aliás, nem a luta nem a vitória são possíveis, tampouco fazem sentido sem ela. Aceitar a derrota, e vivê-la, é a ocasião aprender com ela. Todavia, isso é uma coisa que só o grevista vivo tem oportunidade de fazer, mas não o kamikaze morto.

O kamikaze é uma espécie de fundamentalista radical. Aprende uma única lição, para, em seguida, morrer em função dela, mas, infelizmente, somente com ela. Um kamikaze, portanto, não evolui, mas apenas repete o ato radical de sua própria destruição na destruição do oponente – ou de dois deles. Já o grevista deve ter em seu devir o aprendizado de novas lições que só a permanência na vida e na luta pode oferecer. Tais novas lições, entretanto, não podem advir somente de suas vitórias, mas, como a vida em geral não cansa de ensinar, também das derrotas.

Sendo assim, não morrer, ou melhor, não arriscar tudo, é o primeiro passo, e talvez o mais inteligente, para se poder seguir arriscando algo mais. Ademais, a construção histórica de uma classe social, como por exemplo a dos trabalhadores – os grevistas mais legitimados da história -, não se daria caso os seus componentes não tivessem preservado, em primeiro lugar, a si mesmos e, em segundo, algo de suas forças, esperanças, estratégias e potencialidades. Os kamikazes, por suas vezes, nunca evoluíram desse modo porque as suas ações de risco total lhes impediram de aprender o que lhes faltava, qual seja, as fundamentais lições da derrota.

A cegueira fundamentalista de um kamikaze o impede de vislumbrar uma guerra enquanto uma composição de batalhas que, algumas pedidas, algumas ganhas, constroem o resultado final. Perder uma batalha e ainda assim não ter a guerra como perdida é uma ventura possível ao grevista, mas de modo algum ao kamikaze, para quem a guerra – na qual ele se suicida – é composta de uma única batalha, entretanto, e infelizmente, sempre derradeira. O kamikaze, seja ele o clássico japonês da segunda guerra, seja o islamita-bomba, arrisca realmente tudo pela sua causa, mas, com efeito, a deixa, irremediavelmente, na sua primeira e única ação.

Agora, numa guerra, ou numa greve, nas quais cada um precisa sobretudo dos outros, para todos, juntos, vencerem um inimigo em comum, perder companheiros outra coisa não é senão enfraquecer o fronte. Eu, de minha parte, prefiro os meus companheiros de luta vivos, e, ainda que derrotados, com alguma munição guardada, pois, só assim, poderemos, sempre juntos&vivos&parcialmente munidos, sermos capazes de novas batalhas. Se todos eles arriscarem tudo, e perderem a aposta, eu, por minha vez, estaria sozinho diante do inimigo, sem a maior munição da qual dispunha, isto é, dos meus companheiros de luta.

Por isso não posso concordar com a ideia de que que grevista tem de arriscar tudo. Ora, sequer lutamos, quando lutamos, por tudo, mas apenas por algumas coisas. Arriscar tudo, inclusive a própria vida, por algo que constitui somente parte dela, não me parece uma jogada muito inteligente. Porém, de tal inteligência o kamikaze da última grande guerra, que matava duas vidas com a sua, estava privado. Em primeiro lugar, porque esse fundamentalista radical é, juntamente com as suas duas outras vítimas, mais uma vítima fatal de sua única verdade. E, em segundo, porque a sua inteligência, na verdade, é a burrice de arriscar tudo por uma verdade que muito bem pode, logo ali, depois da curva da derrota, ou simplesmente depois da curva da história mesmo, revelar-se absolutamente mentirosa.

O que um soldado aliado faria numa batalha na qual estivesse perdendo? Mataria a si mesmo ou, ao contrário, assumindo o insucesso do embate, recuaria estrategicamente, buscaria reestruturar-se coletivamente, estudaria melhor e novamente o inimigo, descobrindo tanto as fraquezas dele quanto forças suas para embatê-lo mais eficientemente das próximas vezes? Bem, os aliados – vivos – da Segunda Guerra – que não se suicidaram em batalhas – venceram a guerra. Em contrapartida, o que pode um kamikaze morto? Como podem, por conseguinte, os seus companheiros vivos serem reforçados por alguém que arriscou tudo e nem pode mais lutar com eles?

Por isso um grevista deve estabelecer limites diversos, e bem aquém, dos de um kamikaze, ou, do contrário, será um grevista de uma única batalha, sempre desertando, todavia de forma espetacularmente heroica, a luta a qual pertence. Se o kamikaze tem uma inteligência, ela é uma só, e, ademais, finda no seu primeiro ato. Já a inteligência de um grevista pode, e inclusive deve, ser muitas outras, contrárias entre si até, pois, ao permanecer vivo, o indivíduo que eventualmente encarna um grevista pode, atravessando historicamente todas essas inteligências acumuladas, evoluir, e quem sabe, vencer.

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