Clareiras gregas

Heidegger, na sua primeira visita à Grécia, e impressionado com a luminosidade do lugar, disse que era óbvio que a verdade deveria ter se desvelado lá mesmo. O grande filósofo descobria, na selva do conhecimento de onde partira, a sua clareira iluminada, justamente sob o céu grego. Na minha primeira – e até aqui única – visita à Grécia, e antes mesmo de saber da clareira grega de Heidegger, aquele lugar também me causou a ideia de clareira, porém, não a da verdade filosófica, mas a de que as ilhas gregas eram as clareiras da Grécia, isto é, os lugares onde a Grécia se desvelou para mim.

E, veja bem, essa clareira é bem generosa, afinal, são mais de seis mil ilhas e ilhéus! A minha entrada nas clareiras da Grécia se deu, contudo, deixando Atenas. Como a metáfora da clareira só faz sentido com relação a outra, a da floresta, a minha metáfora de clareira grega tem como metáfora dialética a Atenas selva, da qual, aliás, foi preciso sair para que eu pudesse encontrar a clareira da Grécia do meu imaginário.

Essa selva urbana que é Atenas faz dela mais uma grande e caótica cidade do mundo. A não ser pelos sublimes monumentos históricos que pontuam a metrópole, muitos bairros bem poderiam estar em Buenos Aires ou em Belo Horizonte. Além do que, na vida cotidiana da capital grega, o absoluto Partenon, por exemplo, é só mais um equipamento urbano, como um shopping center ou um aeroporto qualquer. Nem a deliciosa simpatia tagarela dos gregos dá para se apreciar direito nos fast-food internacionais disfarçados de cafés e restaurantes atenienses.

E, por ser uma grande cidade como as demais grandes cidades do mundo, Atenas é cosmopolita. Essa internacionalização, entretanto, fala mais e melhor do resto do mundo do que propriamente da Grécia, ou pelo menos daquela mais histórica que eu desejava conhecer. Então, com efeito, eu fui para a Grécia apenas quando deixei Atenas, no Porto de Pireau, na industriosa zona portuária ateniense de mesmo nome.

Não demorou muito para a clareira grega estar aberta em volta de mim! A duzentos metros do cais, nas primeiras águas Mediterrâneas, eu já descobria a Grécia. Sem ter mais Atenas no horizonte, o “skyline” era somente o mar e o céu, sempre muito azuis, ou, de vez em quando, ilhas, todavia entre aqueles. E, dentre elas, Mikonos, a pérola do imaginário grego. Do barco já era possível avistar, ao longe, a onda branca de Míconos se aproximando, toda ela feita de casinhas da mesma cor, porém, com janelas e portas da cor do mar e do céu.

Sobre as janelas e portas de Míconos, descobri, mais tarde, conhecendo o centro da ilha, que algumas delas eram vermelhas ou verdes. Um garçom doce e tagarela que me servia café gelado e pepino cru para o desjejum, o que, para eles, é usual, disse-me que as janelas azuis são das casas dos gregos; as vermelhas, turcos; e as verdes, italianos. São, portanto, mais civilizado que nós, burgueses urbanos, que selvagem e histericamente pintamos as nossas portas e janelas com as cores da moda, e não com as nossas.

Em Míconos é possível conhecer os gregos! Diferente das agorafóbicas e congestionadas avenidas e pontos turísticos de Atenas, as estreitas e tortuosas vielas de mais de três mil anos de idade de Míconos não desconvidam as pessoas à rua nem à vida local. Ao contrário, as conduzem ao lugar que, aliás, eles mesmos inventaram, isto é, a ágora, o espaço onde as pessoas interagem umas com as outras.

Somente de Míconos se parte para a ilha de Delos, museu à céu aberto cuja obra semi-perene é a ruína de uma cidade inteira, esvaziada há muitos séculos, provavelmente porque em IV a.C. os gregos proibiram, lá, mortes e nascimentos. A ilha, com isso, foi se esvaziando, deixando toda a arquitetura envelhecer sozinha, e, hoje, Delos deserta é um santuário de uma urbanidade verdadeiramente antiga. Como ninguém dorme em Delos – porque ninguém pode morrer em Delos -, eu a deixei no pôr-do-sol, mas não para morrer, obviamente.

Quando o sol nascia, eu aviste, do mesmo mar azul, os altíssimos e vermelhíssimos despenhadeiros da ilha-cratera-de-um-vulcão-explodido de Santorini, em cujos topos, que à distância pareciam nevados, pendura-se, na verdade, a cidade, de frente para o mar e bem acima dele. Por ser uma ilha colonizada por italianos, os estilos arquitetônico e de vida de Santorini não são tão clássicos quanto os de Míconos. Entretanto, é considerada a ilha mais bela e cosmopolita da Grécia. E, também, na sua extremidade oeste, em Oia, acontecem os pores-do-sol mais belos do mundo – coisa da qual eu não posso discordar.

Dentro da clareira grega que se abriu depois que eu deixei Atenas, para a minha surpresa, se abriram outras. Em Mykonos, não só a clareira da Grécia clássica do meu imaginário, mas também a clareira da civilidade, em cujo interior se dialoga agorísticamente e onde as “gentes” dizem, pelas suas janelas e portas, de que “gentes” ela são. Em Delos, a clareira do viver, onde sequer é permito morrer, quiçá nascer. E, em Santorini, a clareira que desvela o pôr-do-sol mais belo do mundo.

Só nas clareiras-ilhas eu pude encontrar a Grécia eterna pela qual procurava, pois, da selva-Atenas, ao contrário, via apenas a Grécia do obsolescente agora, onde a língua inglesa vale e compra tanto quanto a grega, e, ademais, onde se fala mais do mundo do que da Grécia . Se, por um lado, Heidegger descobriu a clareira da verdade na Grécia, e eu, pelo meu, descobri a clareira da Grécia nas suas ilhas, então, só posso concluir, precisando o filósofo, que foi nas ilhas gregas que a verdade se desvelou. Ou, pelo menos para mim, a verdade é que as ilhas gregas são a verdadeira Grécia.

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