O ponto-de-vista do ponto-de-fuga

De um ponto-de-vista um sujeito vê tudo o que há diante dele. Aliás, todas as coisas, para serem vistas, devem estar dentro desse campo de visão, em cuja centralidade, no entanto, está o seu inimigo visual, isto é, o ponto-de-fuga, organizando espacialmente todas as coisas vistas. Um ponto-de-vista é um cone visual, todavia olhado a partir de seu vértice e no sentido do centro de sua base locada no infinito. Claro, ao se mover esse cone visual para um lado ou para o outro – isto é, virar a cabeça para um lado ou para o outro – o vértice-ponto-de-vista permanece o mesmo, porém, a base desse cone visual é outra, pois então, nela há outras coisas a serem organizadas visualmente.

Se, entretanto, um ponto, para ser de fuga, deve estar no infinito, e, além disso, ter todas as retas paralelas convergindo para si, do ponto de vista do ponto-de-fuga há, outrossim, um cone, cujo vértice, porém, está locado nele, no próprio ponto-de-fuga, e em cujo centro da base está, justamente, o ponto-de-vista que o vê. Basta lembrar das estonteantes perspectivas renascentistas, assaz artísticas e matemáticas aliás, para perceber que tudo o que há para ser visto está projetado justamente nas paredes internas desse cone cujo vértice está no ponto-de-fuga, e não nas paredes internas do cone cujo vértice é o ponto-de-vista.

O ponto de vista e ponto de fuga, portanto, são dois cones visuais que se organizam espacialmente com o vértice de um locado no centro da base do outro. Porém, tudo o que vemos é visto, não nas paredes internas do nosso cone-ponto-de-vista, mas nas do cone-ponto-de-fuga. Novamente, basta pensar numa perspectiva renascentista para ter a sensação de que tudo o que estamos vendo está de dentro do cone cujo vértice aponta para o infinito. Sendo assim, à visão cônica que lançamos ao centro do infinito para vermos as coisas volta-se na forma de uma projeção, também cônica, de tudo o que estamos vendo.

Como o ponto-de-fuga está sempre e intransferivelmente no infinito, em oposição absoluta ao ponto-de-vista, este nunca poderá se colocar no lugar daquele sem que aquele, automaticamente, se coloque no lugar deste. Ponto-de-vista e ponto-de-fuga tem um contato mais distante do que dos amantes de O feitiço de Áquila que, ao menos por um breve instante, podiam tocar um no outro. Tentar alcançar o ponto-de-fuga é como tentar chegar ao horizonte: por mais que se avance, ele estará sempre à mesma distância, ou o que é o mesmo, a uma distância sempre infinita.

Entretanto, se no centro de tudo o que vemos estará sempre o infinito, sugando não só o nosso olhar, mas também todas as retas paralelas para si, é porque o infinito também nos olha, por sua vez, como se ele próprio fosse um ponto de vista, e nós, em troca, o seu ponto-de-fuga . Vemos as coisas, portanto, não só porque as olhamos e porque esse olhar as fuga para o infinito, mas também porque, ao olharmos para elas, é o próprio infinito que nos olha, sorrateiramente, do centro da nossa visão. Então, todas as coisas que podemos ver entre nós e o infinito fugam tanto para o ponto-de-fuga, no infinito, quanto para o ponto-de-vista, em nós.

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