Ideologia perspectivada

A perspectiva é um efeito aplicado a todas as coisas que se colocam entre o ponto de vista de um observador e o seus respectivos pontos de fuga, locados sempre no infinito, para onde todas as linhas paralelas convergem necessariamente, fazendo do observador aquele para o qual o mundo se manifesta a partir de um único ponto. Embora a perspectiva com um ponto de fuga tenha sido oficialmente inventada no renascimento pelo arquiteto e escultor Filippo Brunelleschi, ela é bem mais antiga que isso. Ora, se basta um único olhar para que toda a realidade fugue para o infinito, a perspectiva não foi propriamente inventada pelos renascentistas, apenas sistematizada por eles. Ademais, desde que enxergam, os homens lidam com a relação problemática que a visão humana estabelece com o mundo.

Os antigos gregos conseguiram contornar os defeitos de perspectiva inerentes ao olhar humano de uma maneira muito peculiar. Tomemos como exemplo o majestoso Partenon, construído na acrópole de Atenas no século V a.C. Os seus construtores sabiam que o edifício, ao ser observado por qualquer pessoa, seria visualmente deformado pela perspectiva que o olho humano imputa a tudo o que vê. Dessa forma, trataram de construir o grande templo, digamos, torto, isto é, subvertendo a racionalidade geométrica do edifício. Então, deformando deliberadamente o Partenon no sentido contrário ao que o olho humano o desfiguraria, no final das contas o templo seria visto por todos como se fosse geometricamente perfeito, vencendo, dessa forma, problema inicial.

Também as colunas dóricas do Partenon, se fossem perfeitamente cilíndricas, ganhariam do olho humano um inevitável ‘acinturamento’, um pouco abaixo de suas metades. Então, os arquitetos trataram de corrigir essa deformação, esculpindo as colunas mais grossas justamente no meio, isto é, na parte em que o olho a estrangularia , e mais delgadas na base e no topo. Somente dessa forma as colunas se manifestariam, para qualquer pessoa, como cilindros perfeitos. Essa técnica ganhou a história, e inclusive o renascentista Michelangelo não se privou de alterar as proporções do seu David, engrossando-lhe o tronco e aumentando-lhe a cabeça, para que, visto de baixo, pelos olhos deformadores de um transeunte florentino qualquer, a estátua do belo rapaz parecesse ter as proporções ideias – o que não seria possível caso o mestre italiano respeitasse as proporções naturais do corpo humano.

Essa técnica de correção de perspectiva inventada na antiga Grécia foi chamada, pelos latinos, de “entasis”( êntase, em português), que outra coisa não era senão a correção da deformidade a que o olho humano submete a realidade ao seu redor. De certa forma, podemos dizer que a êntase é uma espécie de ideologia que leva o homem a ver a realidade como ela naturalmente não se apresentaria para ele. Ora, em meio a um mundo deformado pela relação perspectivista que os pontos de vistas individuais têm com seus respectivos pontos de fuga, o Partenon de Atenas, as suas colunas dóricas, e até o David de Michelangelo, imunes à tais deformidades, por conta da êntase se apresentam a nós como se fossem mais perfeitos do que todo o resto; portanto, sumamente preferíveis. É aí que a êntase revela o seu maior potencial ideológico.

No entanto, paradoxalmente, a êntase só consegue vencer as deformações inerentes à perspectiva natural do olhar humano por via de mais deformidade, todavia, no sentido contrário àquelas. A êntase, portanto, assume que não é a verdade – no caso, a verdade geométrica – que, uma vez posta, corrige um ponto de vista distorcido. A esta altura, podemos concluir que um erro – do nosso olhar – é corrigido apenas por um outro erro – a êntase -, para que, no fim das contas, as coisas nos pareçam tão perfeitas a ponto de nos convencerem de que os nossos olhos não as distorcem naturalmente. O erro da êntase, ou a sua mentira, têm por objetivo enganar a limitação natural do nosso olhar, para então fornecer à exigente razão humana aquilo de que ela não se esquece, ou seja, das coisas em seus estados de perfeição.

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