Comunicabília

Há alguns dias, numa assembleia na qual cerca de quarenta pessoas estavam presentes, mais metade delas permanecia com seus smartphones em punho, conversando entre si, paralela e privadamente, nos seus aplicativos de mensagens instantâneas. Nesse ínterim, dois participantes podiam muito bem ficar conversando sobre um terceiro sem que este sequer imaginasse que era assunto de uma discussão paralela. Grupos maiores, de até dez pessoas, também podiam discutir privadamente sobre o que a assembleia deliberava, entretanto, sem que essa interação colateral resultasse em algum acréscimo à discussão geral. Essa interação virtual clandestina gerou, portanto, não o aprofundamento do debate coletivo, mas sim a proliferação de diálogos superficiais de interesse apenas particular.

Um dia depois aconteceu uma outra assembleia, desta vez em um espaço aberto. Eu estava com um grupo de doze pessoas, conversando sobre outros assuntos, a uns cinquenta metros da discussão oficial. À primeira vista, estávamos alienados da tal assembleia. Porém, a presença de um único colega, lá, na assembleia, bastou para que, a cada punhado de minutos, recebêssemos, todos, pelos nossos aplicativos de mensagens instantâneas, atualizações acerca do que eles estavam discutindo, das opiniões de tal e tal pessoa, bem como do rumo da conversa da qual nós não participávamos. Tínhamos a doce ilusão de que estávamos envolvidos na discussão coletiva, mas, na verdade, essa era uma impressão nossa apenas, com a qual, aliás, ninguém que estava na assembleia concordaria.

A rede-socialização virtual aberta pelas novas tecnologias digitais atravessa o mundo com a promessa de facilitar e melhorar a comunicação entre as pessoas. Porém, o que os exemplos acima citados mostram é que, ao contrário, com tanta ‘comunicabília’ fica cada vez mais fácil se alienar das interações coletivas e não contribuir com elas. Não está sendo criticada aqui, contudo, a comunicação virtual entre indivíduos separados pelo tempo e/ou espaço que os ‘vintage’ telegramas e telefonemas, cada qual ao seu modo, já possibilitavam. Nesse sentido, o Whatsapp não é nada revolucionário. Entretanto, quando pessoas se reúnem, ao mesmo tempo e num mesmo lugar, e mesmo assim abrem diálogos privados acerca dos demais através de aplicativos virtuais, não só se recusam a uma interação genuína com seus pares, como também gastam, consigo mesmas, a atenção que deveriam dedicar ao grupo todo.

Caso as pessoas daquelas duas assembleias não dispusessem de seus whatsapps & genéricos elas poderiam apenas: 1) lidar solitariamente com seus próprios pensamentos, na esfera solipsista de suas consciências individuais, e assim lucrar com as benesses da autocrítica; 2) expressar suas impressões através de olhares ou gestos a quem porventura se dispusesse a recebê-los, exercitando, com isso, relacionamentos empáticos; 3) comunicar, aberta e publicamente, as suas ideias a todos, e não somente àqueles que, com certeza, não as criticariam. É preciso, portanto, muito mais coragem para se estar entre iguais com as mãos vazias do que com elas digitando desvios dialógicos subterrâneos nos famigerados aplicativos de mensagens instantâneas que mais sacam as pessoas umas das outras do que as conectam genuinamente.

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