Ágora ou impotência

Ágora, em grego, significa “eu reúno, eu junto”, mas também era o nome do espaço público no qual os cidadãos gregos deliberavam sobre seus assuntos coletivos. Podemos dizer que também foi instaurada, pelos estudantes universitários uma ágora na qual é polemizado o sucateamento das universidades públicas que ameaça o futuro da educação do nosso país. Porém, diferente dos antigos helenos, que livre e diretamente conduziam os seus assuntos fundamentais, os atuais estudantes – reunidos, juntados – ainda não têm reconhecida a legalidade da sua decisão de entrar e permanecer em greve pelo que acreditam e necessitam.

Os estudantes, proibidos de fazer greve, não dispõem da liberdade de agir! Entretanto, como disse Spinoza, “a liberdade é uma virtude, uma perfeição, e que tudo quanto no homem é sinal de impotência não pode ser atribuído à sua liberdade”. Ora, a manutenção da ilegalidade de uma greve de estudantes, portanto, outra coisa não é senão a manutenção da impotência destes estudantes. A quem interessa, entretanto, o sustento de tal fraqueza? Obviamente não aos estudantes, que, se lutam pela melhoria das condições de ensino no Brasil, apenas buscam um ambiente educacional que estimule tanto as potências individuais quanto as coletivas.

Se, como colocou Spinoza, “pertence menos ao direito da cidade aquilo que provoca a indignação da maioria”, outrossim, pertence menos ao direito da universidade aquilo que provoca a indignação da maioria dos que compõe o corpo universitário. Portanto, se a maioria dos estudantes não aceita, por exemplo, o corte de verbas da educação, ou a terceirização na contratação dos docentes, deve ser legal lutarmos com todas as armas disponíveis, inclusive a greve e a suspensão do calendário acadêmico. Parafraseando o filósofo, aquela [universidade] cuja paz depende da inércia dos [universitários] é mais uma solidão do que uma [universidade].

Com que direito a universidade pode não reconhecer a greve estudantil se, conforme Spinoza, quando “dois [ou mais, ou a maioria] se põem de acordo e juntam forças, juntos podem mais”? Seria a manutenção da ilegalidade da greve estudantil justamente a manutenção da alienação dos estudantes em relação ao poder de sua coletividade? Está parecendo que sim. Se “a potência de um estado deve ser medida pelo número de cidadãos”, conforme disse o filósofo, a potência de uma universidade deve ser medida pelo número – esmagadoramente majoritário – de alunos universitários.

Spinoza expande os nossos horizontes afirmando que “as leis pelas quais a multidão transfere o seu direito para um só conselho ou para um só homem devem, sem dúvida, ser violadas quando interessa à salvação comum violá-las”. Então, a ilegalidade dessa greve de estudantes que visa salvar a educação do sucateamento pode sim, e inclusive deve, ser violada, pois tal ilegalidade vai contra o interesse da maioria. Se nós queremos que a universidade ensine, entre outras coisas, o que é liberdade e ação, devemos agir contra uma estrutura que as tolhem, pois, caso contrário, sairemos dela doutores em impotência.

“A liberdade não tira, antes põe a necessidade de agir”, diz Spinoza. E se, porventura, os estudantes universitários desejam levar para a vida uma lição fundamental, devem agir em função da manutenção, e sobretudo da expansão, da sua liberdade de agir, inclusive contra uma lei que não reconhece as greves estudantis. E que lugar melhor do que a ágora universitária, principalmente a filosófica, para os estudantes universitários exercitarem e ampliarem as suas liberdades e potências? Que a ágora aberta pelos estudantes brasileiros nesse junho de 2015 não seja gentrificada pelas forças promotoras da impotência e da inação.

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